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PARLAPATÕES ULTRAPASSAM OS LIMITES DO DEBOCHE

 

Desde a inauguração de seu espaço, em setembro de 2006, os Parlapatões estão devendo uma estréia de peso de sua própria companhia. Finalmente, depois de uma temporada de retrospectivas, “Vaca de Nariz Sutil”, adaptação de Hugo Possolo da obra de Campos de Carvalho, vem resgatar o grupo da impressão de improviso no deboche, que abusa da cumplicidade de um público fiel.

A atual montagem abre mão de todos os truques que marcaram a companhia. “Sem redes de proteção”, como promete Possolo no programa, o quinto tratamento de uma adaptação que vinha sendo elaborada há quinze anos busca o amargo e sarcástico non-sense de Carvalho pelo caminho mais difícil, na fronteira entre o surrealismo e o melodrama.

A impressão é de um pesadelo, no qual velhos conhecidos surgem deslocados, com pequenas mudanças físicas, revelando um lado oculto profundamente perturbador. Possolo, de barba, faz um mudo, que responde a tudo com os mesmos gestos, como um Harpo Marx em depressão. Claudinei Brandão, careca, faz um coveiro pai viúvo com uma filha excepcional, e vai além do escacho em busca de um aprofundamento que seu tipo físico já não garante mais automaticamente. Raul Barreto, entre outros personagens, surge semi-paralítico em uma cadeira de rodas, enquanto que Henrique Stroeter, carregando a responsabilidade de ser protagonista, se aproxima do humor mais denso de Selton Mello e Wagner Moura, em um universo em que se ri para não doer.

No elenco convidado, marca presença Carolina Tilkian, de estranha beleza, em um papel difícil, e os eficientes Potiguara Novazzi, Alexandre Bamba e Mário Matias. Evitando um psicologismo paralisante, o cenário de Luiz Frúgoli, apoiado na projeção dos vídeos de Ronaldo Cahim, dão uma embalagem luxuosa e uma dinâmica indispensável à narrativa fragmentada e simbólica, que faz referência a temas raros, como a participação brasileira na segunda guerra mundial.

O aumento de risco, por si só, não garante uma melhora instantânea das atuações. Os momentos mais marcantes de Stroeter continuam sendo as patéticas vociferações, sua marca registrada, e a tentativa de falar sério deixa mais claro deficiências do elenco nas introversões stanislavskianas, das quais ele sempre se poupou dentro da técnica da paródia, que tem outras exigências. Mas ultrapassando seus limites, o grupo se credencia a um upgrade de importância notável para o que virá depois.

Ultrapassando o conforto da técnica que domina, os Parlapatões estão em busca do lirismo no humor, sem o escacho político redundante que começava a rotular o grupo. Para isso, “Vaca de Nariz Sutil” é um passo importante. (três estrelas)     



 Sérgio achava isso às 13h25 [] [envie esta mensagem]



É uma índia com colar
A tarde linda que não quer se pôr
Dançam as ilhas sobre o mar
Sua cartilha tem o A de que cor?

O que está acontecendo?
O mundo está ao contrário e ninguém reparou
O que está acontecendo?
Eu estava em paz quando você chegou

E são dois cílios em pleno ar
Atrás do filho vem o pai e o avô
Como um gatilho sem disparar
Você invade mais um lugar
Onde eu não vou

O que você está fazendo?
Milhões de vasos sem nenhuma flor
O que você está fazendo?
Um relicário imenso deste amor

Corre a lua porque longe vai?
Sobe o dia tão vertical
O horizonte anuncia com o seu vitral
Que eu trocaria a eternidade por esta noite

Porque está amanhecendo?
Peço o contrario, ver o sol se por
Porque está amanhecendo?
Se não vou beijar seus lábios quando você se for

Quem nesse mundo faz o que há durar
Pura semente dura: o futuro amor
Eu sou a chuva pra você secar
Pelo zunido das suas asas você me falou

O que você está dizendo?
Milhões de frases sem nenhuma cor, ôôôô...
O que você está dizendo?
Um relicário imenso deste amor

O que você está dizendo?
O que você está fazendo?
Por que que está fazendo assim?
...está fazendo assim?



 Sérgio achava isso às 18h49 [] [envie esta mensagem]




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