Antônio é um deslocado no mundo: é um crítico. Assim, se veste mal, escreve à mão resenhas cheias de fel e erudição e as artistas manipulam, com desprezo e ternura, seu desejo solitário. Protestar, enquanto crítico, que “Crime Delicado” não corresponde à realidade seria vestir a carapuça, nesses tempos regidos pelas colunas sociais. Melhor é mergulhar no filme como em uma fábula sobre a ética na arte. Híbrido do Cântico dos Cânticos com um Manual de Redação, semeado de piadas internas,o universo de simulacros de sua ficha técnica inclui um co-roteirista que, diretor de teatro, escreve críticas de suas próprias encenações para o filme; um produtor-roteirista que, no papel protagonista, é avaliado por uma juíza atriz de teatro e demitido por um editor que, na “vida real”, é um crítico emblemático. A vida, porém, é em preto e branco. Real mesmo é o que o palco ilumina. Se o crítico também é vítima dessa paixão, por que é patético e indevido seu desejo pela musa, enquanto que a promiscuidade entre diretor e atriz, ou pintor e modelo, é celebrada como compartilhamento sagrado da criação? É que o crítico chega tarde demais. Apaixonado pela falha, e não pela perfeição, é um invasor que estupra a musa em sua própria casa, já no fim da jornada, não com seu desejo, mas com suas dúvidas. E no entanto só ele traz o olhar de fora, polinizado pelos improvisos bêbados da vida cotidiana. E se acaba misturando o que vê com o que vive, perdendo a objetividade, isso depõe a seu favor: não se pode falar do amor sem se apaixonar. Mesmo que Beto Brant acabe soltando os fios da trama, como nos filmes de Lynch, propondo o depoimento direto para sair desse labirinto de espelhos, é sempre pelos olhos de fechadura do crítico que o público vê o filme, e nos planos cuidadosamente estáticos pode se contagiar pelo deslumbrante desempenho de Matheus Nachtergaele, de Maria Manoela, de Zecarlos Machado. Assim, o crítico posto à nu por seus próprios criticados não sai impune nem arrasado do filme. Superqualificado para a vida, incapaz de simplicidade, ao Belo Inatingível tem a oferecer, como a musa, a única coisa que lhe sobrou na manga: o seu artifício.


Leia este blog no seu celular