Na Moita


01/02/2006


Sobre porcos e linces

          Nos atuais tempos de carência de incentivos à produção teatral, a saída é investir no marking de cenários espalhafatosos e atores famosos ou reduzir o teatro ao seu essencial, recolhendo-se em teatros minúsculos e improvisados, para reinventar o novo. Nessa tendência que felizmente se multiplica e salva a lavoura, "O Porco", monólogo dirigido por Antonio Januzelli e representado por Henrique Schafer, é a montagem que mais honra o teatro “underground”.

Underground ao pé da letra, aliás, já que se entranha no porão do Centro Cultural São Paulo, o instigante mas complicado espaço Ademar Guerra, com sua falta de isolamento acústico e de platéia confortável. Mas a inteligente estratégia da montagem tira proveito imediato disso.

Afinal, o que se vai ouvir é o depoimento de um porco na véspera do abate: arriscar-se ao espaço escondido, sob o mundo dos homens, já funciona como um ritual para a platéia. No aparente improviso do espaço, no entanto, percebe-se logo um minucioso projeto de luz com excelente operação, e o figurino que faz o rústico se tornar sofisticado.

E isso acompanha admiravelmente o texto. Seu tema faria pensar em um deboche escatológico; no entanto, o porco de Raymond Cousse tem a dignidade dos clowns de Shakespeare. Frente à morte iminente e que ele sabe inevitável, sua sucessão de argumentos, sem nunca apelar pelo patético nem para o grosseiro, é inesquecível. Não denuncia a sua condição, mas a reivindica em nome de sua dignidade. Um porco cartesiano, que tirando sua força da sua serenidade vai abrindo significados cada vez mais abrangentes para a a vida.

Cercado por dois lados pelo público, exposto à curiosidade como em um açougue, o porco faz as honras da pocilga detalhando o significado de cada adereço: o balde, que o criador cisma em por no meio do espaço diminuto, impossibilitando os rígidos códigos pessoais de conduta de seu porco; a porta de bronze que se abrirá para a morte, a palha e a ração que se adivinham. Como em Beckett, cada detalhe é fundamental, e o cheiro delicado do excremento equivale à lembrança do falecido pai cachaço.

Reforçado pela tradução, que ao se basear na versão espanhola diminuiu o humor mais solto dos trocadilhos do original francês, o mestre Januzelli, com seu olhar de Lince, conduz seu discípulo Henrique Schafer por uma partitura preciosa, que faz vibrar silêncios e alterna ritmos e tons levando a arte da ironia a seu ponto mais sofisticado.

Falando olho no olho com a platéia, incluindo-a sem constrange-la, o desgaste físico e emocional de Schafer é enorme, mas a preparação de anos para esse espetáculo faz dele o cartão de visitas de um ator a não se perder de vista.

Não há metáforas; porém a crueza arquetípica da situação do porco cercado para a morte acaba remetendo ao que o público quiser: o holocausto, a condição humana e, por que não, a situação do ator que, no seu espaço mínimo, recria um sentido para a vida. Não é preciso muito para haver o melhor teatro: basta um ator, e a leitura inteligente de um texto.

Escrito por Sérgio às 14h50
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30/01/2006


Esperando Villela

“ESPERANDO GODOT” É O “GUERNICA” DA DRAMATURGIA

Quando, por volta de 1948, Samuel Beckett lançou ao papel a saga vazia de dois vagabundos que esperam em baixo de uma árvore por seu salvador, não tinha a menor idéia de que ali estaria a revolução definitiva do teatro moderno. Fazia-o só por distração, como um alívio do doloroso processo criativo de “Malone Morre”, um romance em forma de fluxo de consciência nos moldes de seu mestre Joyce – que ele haveria de ultrapassar justamente no terreno que menos previa: o teatro.

Ocorreu que, como no caso da “Guernica” de Picasso, a criação por impulso combinou vivências pessoais com o domínio de várias técnicas, fruto de erudição espantosa de Beckett. Assim, pode-se encontrar no Godot sua experiência de resistente escondido dos nazistas nos bosques do sul da França; o conceito de “não-nascido” que tanto o impressionou em uma palestra de Jung, para a qual fora levado por seu analista Bion; sua admiração pelo trágico humor de Buster Keaton, que já se encontrava no seu burlesco romance “Mercier e Camier”, esboço completo de “Esperando Godot”.

Por outro lado, síntese de fragmentos, sendo assim precursora do pós-modernismo, a peça é um palimpsesto de todas as formas teatrais. Nela há o presente congelado pela predestinação das tragédias gregas; a provação pela imitação do Cristo dos autos medievais, relida pelo existencialismo do “Waste Land” de T.S. Elliot; a auto-análise a frio do classicismo francês na boca de grotescos clowns de Shakespeare; bruscas retóricas do romantismo em meio a diálogos cruamente realistas; alegorias expressionistas em um universo onírico surrealista, e a feroz provocação dadaísta contra o previsível teatro burguês (não por acaso, foi Tristan Tzara um dos responsáveis pela estréia mundial no modesto teatro de Babylone em Paris, em 1953).

No entanto, toda essa riqueza se oculta em uma simplicidade desarmante. O conflito é único: espera-se Godot, e o público compartilha a espera em tempo real. A pausa não é mais a valorização retórica da fala: a fala é que deve distrair do silêncio, que sempre terá a última palavra. “Não tem jeito”, informa Vladimir já na primeira deixa. Nada a fazer, e no entanto é preciso esperar. Por quem? Não importa. “Se soubesse quem é Godot, teria revelado na peça” declarou Beckett, que não acreditava em significados ocultos.

Como uma esfinge eterna, monumento que mantém seu esqueleto impávido depois do intenso bombardeio de novidades do século 20, a peça vem sendo cozinhada em todos os molhos, como se diz em francês. Em geral, os diretores costumam mais “assinar o nome” no texto do que aprender com ele. Não importa: há muito espaço à sombra da árvore de Godot. 

Escrito por Sérgio às 11h14
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