Nos atuais tempos de carência de incentivos à produção teatral, a saída é investir no marking de cenários espalhafatosos e atores famosos ou reduzir o teatro ao seu essencial, recolhendo-se em teatros minúsculos e improvisados, para reinventar o novo. Nessa tendência que felizmente se multiplica e salva a lavoura, "O Porco", monólogo dirigido por Antonio Januzelli e representado por Henrique Schafer, é a montagem que mais honra o teatro “underground”.
Underground ao pé da letra, aliás, já que se entranha no porão do Centro Cultural São Paulo, o instigante mas complicado espaço Ademar Guerra, com sua falta de isolamento acústico e de platéia confortável. Mas a inteligente estratégia da montagem tira proveito imediato disso.
Afinal, o que se vai ouvir é o depoimento de um porco na véspera do abate: arriscar-se ao espaço escondido, sob o mundo dos homens, já funciona como um ritual para a platéia. No aparente improviso do espaço, no entanto, percebe-se logo um minucioso projeto de luz com excelente operação, e o figurino que faz o rústico se tornar sofisticado.
E isso acompanha admiravelmente o texto. Seu tema faria pensar em um deboche escatológico; no entanto, o porco de Raymond Cousse tem a dignidade dos clowns de Shakespeare. Frente à morte iminente e que ele sabe inevitável, sua sucessão de argumentos, sem nunca apelar pelo patético nem para o grosseiro, é inesquecível. Não denuncia a sua condição, mas a reivindica em nome de sua dignidade. Um porco cartesiano, que tirando sua força da sua serenidade vai abrindo significados cada vez mais abrangentes para a a vida.
Cercado por dois lados pelo público, exposto à curiosidade como em um açougue, o porco faz as honras da pocilga detalhando o significado de cada adereço: o balde, que o criador cisma em por no meio do espaço diminuto, impossibilitando os rígidos códigos pessoais de conduta de seu porco; a porta de bronze que se abrirá para a morte, a palha e a ração que se adivinham. Como em Beckett, cada detalhe é fundamental, e o cheiro delicado do excremento equivale à lembrança do falecido pai cachaço.
Reforçado pela tradução, que ao se basear na versão espanhola diminuiu o humor mais solto dos trocadilhos do original francês, o mestre Januzelli, com seu olhar de Lince, conduz seu discípulo Henrique Schafer por uma partitura preciosa, que faz vibrar silêncios e alterna ritmos e tons levando a arte da ironia a seu ponto mais sofisticado.
Falando olho no olho com a platéia, incluindo-a sem constrange-la, o desgaste físico e emocional de Schafer é enorme, mas a preparação de anos para esse espetáculo faz dele o cartão de visitas de um ator a não se perder de vista.


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