Na Moita


11/02/2006


Enquanto isso no front 1

Esperando por uma crítica mais respeitosa

 

Como antigo assinante e leitor deste jornal, venho manifestar minha indignação frente às críticas teatrais assinadas pelo Sr. Sergio Salvia Coelho. Não me cabe aqui fazer uma retrospectiva das incoerências cometidas por tal “crítico”, mas comentar o seu últtimo texto “Em montagem pueril, Godot de Villela cansa” publicada em 08 de fevereiro na Ilustrada. Também não cabe aqui colocar na berlinda, como diz o  referido “crítico”, a sua persona, mas a qualidade de seu texto e o desrespeito “a “verdadeira” função da crítica, que ele parece desconhecer.

Seus textos indiciam serem feitos nos intervalos de alguma outra atividade, dada à sua superficialidade e seus juízos de valores sem propósito. Não é necessário ser um estudioso da Teoria de Análise do Discurso para se detectar o tom “adjetivoso” de seus textos, que neste último citado, atinge o grau do insuportável. Ridícula a menção à “mineirice” do diretor Gabriel Villela e o comentário associando “cigarro de palha” x “isqueiro de plástico”: estamos diante da representação, meu caro crítico, isqueiro é isqueiro, cigarro é cigarro, mas não esqueçamos Magritte, aqui parodiado: “Isto pode não ser um isqueiro  ou cigarro”, assim como notamos na montagem, uma lua que não é lua, mas sim uma tampa de latão, as estrelas não são estrelas, mas bolas de meia etc etc. Parece que toda esta poesia se perdeu na inquietação do crítico, que gostaria, talvez, de uma poltrona estofada e bem confortável para destilar seus impropérios

O crítico chega ao cúmulo de generalizar falando da “benevolência da platéia” e da “paciência do público”, eu e alguns amigos assistimos encantados a referida montagem, um prazer estético singular, sem esquecer que é muito bom que nossa percepção “doa” e “se incomode” diante de Beckett, creio que ele ficaria feliz. Portanto: sem generalizações.

Poderia enunciar outros vários problemas que aparecem no texto, mas o que mais que chama a atenção é o seu tom desrespeitoso e irônico.

Falando em ironia, o título da matéria deveria ser “Em crítica pueril, texto de “crítico” cansa e esgota a boa vontade do leitor”. Lamentável.

Obrigado Gabriel Villela e elenco pela noite memorável.

 

Prof. Dr. João Carlos Gonçalves

Escrito por Sérgio às 09h30
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Enquanto isso no front 2

 Caro Prof. Dr. João Carlos Gonçalves

>  
>  
> Li com atenção a sua carta, que me foi encaminhada, como o senhor haveria de imaginar. Lamento antes de tudo que meu tom irônico o tenha levado à indignação. A ironia, em princípio, tem como função tirar o peso de “dono da verdade”, título atribuído aos críticos, para expor uma opinião de modo lúdico. Não quis ser agressivo, mas provocativo, não menosprezei nem me  recusei analisar os aspectos da montagem de Esperando Godot de Gabriel Villela.
A referência à “mineirice” não se pretendeu em nenhum momento ser uma achincalhe ao tom de Villela. Ao contrário, essa sua fidelidade à vivência popular do mineiro é um trunfo que seus admiradores sempre prezam. Talvez soasse menos pejorativo o termo “mineiridade”, como usou Bete Coelho em sua entrevista a Valmir Santos, mas de qualquer forma o conceito que ela expressa, essa esperta ingenuidade, é um atrativo.
A evocação da piada do mineiro vendedor de pontes é um elogio à esperteza daquele que se faz pequeno, simples, para atrair a admiração do outro por sua inteligência. Acredito que o senhor, como admirador das montagens de Villela, concorde comigo que ele não é um ‘naif’, um artista regional sem referências intelectuais, mas que usa suas raízes populares como base de outros vôos. A bandeira da mineirice é brandida pelo próprio Villela em entrevistas, e faz ele muito bem.
Por isso, seu ponto de partida de por na mão de Vladimir um cigarro de palha é um grande achado. O que a minha crítica lamenta é que isso não tenha sido feito de modo mais radical, com a atriz se dando o tempo de enrolar em tempo real (esse conceito vital para a encenação de Godot) esse símbolo do caipira, que traduz tão bem o espírito do abandono resignado dos personagens de Beckett.
Não poria esse elemento na minha direção pessoal do texto, mas não é disso que se trata aqui: lamentei que a opção do próprio Villela de atribuir uma calma mineira ao Godot tenha sido destruída por uma eficiência cênica que a contradiz.
Falei do cenário em termos elogiosos, justamente por sua elegância minimalista. Villela é bom encantador. Meu reparo – e severo, justamente em função de seu talento – é o de ele optar por ficar no esboço, na sugestão, na primeira idéia. Não no caso da lua-latão, mas no tom único de voz de todos os personagens, do não aprofundamento nas marcas sugeridas pelo Beckett.
  Fosse um encenador iniciante ou menos talentoso, teria sido tratado com mais complacência. Mas se deve esperar de Villela, como de Antunes Filho ou outro criadores de primeiro time, mais do que os admiradores incondicionais precisam. O senhor viu parte da platéia se agitar nas cadeiras como um salutar incômodo promovido pela verdadeira obra de arte. Eu vi a satisfação de outra parte dela como um endosso incondicional nocivo para o aprimoramento do encenador. A verdade está no meio.
Fiquei curioso também em saber que outros erros já cometi, conforme afirma sua carta. Esteja à vontade, se achar que mereço, em apontá-los a mim. Quanto ao resto, o senhor está bem informado. O que ganho enquanto crítico não me permite sê-lo em tempo integral (talvez nem fosse saudável), faço as minhas críticas nos intervalos de minhas aulas de História de teatro e Dramaturgia. O excesso de adjetivos é um efeito nocivo da estreiteza de espaço reservado à crítica: palavras de impacto não são bons argumentos. Mas a lógica própria do jornalismo costuma acirrar esses ânimos. Não fui eu, por exemplo, que escolhi o título desta crítica. Não sou jornalista, e essa é uma função da edição. Achei mesmo que neste caso houve uma radicalização do tom ácido que não era necessária.
Em nome da verdadeira função da crítica, que o senhor aponta mas não descreve, espero que nosso diálogo permaneça aberto, para evitar os excessos de lado a lado. Com a indignação acalmada, passemos aos argumentos.
Peço outrossim a sua autorização para publicar a sua carta assim como esta resposta em meu blog namoita.zip.net.
Seu
> Sergio Coelho

Escrito por Sérgio às 09h26
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Enquanto isso no front 3

Caro Sérgio:

 

Claro que eu sabia que meu texto chegaria até você, só não o enviei diretamente por não ter o seu endereço eletrônico. Agradeço sua pronta resposta, que não me convenceu muito, mas estou menos puto.

Mil perdões: se vc tem os “vícios” da crítica, eu tenho os vícios da Análise de Discurso, por profissão. Isto para justificar que notei em sua resposta um duplo e me perguntei: quem responde é o Sérgio crítico ou o Sérgio “ele mesmo”? Me veio um textículo do Décio Pignatari: “Eu não sou quem escreve, mas sim o que escrevo: algures Alguém são ecos do enlevo”.

Você diz que estou bem informado. Sim, talvez te “conheça” mais do que pensas, pois muitas vezes nos cruzamos nos teatros e nos corredores da Anhembi. Continuaremos a nos cruzar, agora, graças, só nos teatros: depois de 16 anos consegui a alforria. Neste tempo todo desde que vc entrou no curso de Teatro e depois em RTV, nunca trocamos uma palavra, talvez sejamos parecidos em nosso silêncio.

Você me coloca como admirador de Vilella. Não, amo o Teatro e prestigio e respeito sua obra, assim como a o do Marcio Aurélio, Antunes, Cia do Latão, Zé Celso, Quito, Sátiros, Marião etc etc.

Voltando: percebi na sua resposta uma delicadeza que não encontro na maioria de suas críticas. Onde estão as naturais e enganosas crenças egóicas deste “eu” que me responde? Na acidez do crítico ou na doçura de “vc mesmo”?. Sei que vc sabe, que a escrita que nos forma, ao mesmo tempo, nos deforma, talvez pque “o que foi escrito nos vem de outro lugar, longe ou perto na ausência” onde o escrever-falar não é o suficiente.

Vc também me pede para enumerar as críticas que apenas menciono e coloca um “seu eu merecer”. É claro que vc merece, caso contrário nem receberia “minhas indignadas palavras”. Não vou perder o meu/teu tempo, creio que o grande problema é vc ter que se subordinar às constelações e submeter suas apreciações a meras e parcas estrelas. Porra, mas uma estrelinha pro Vilella??? (Um texto de Zé Celso te fala disso e vc o responde com a mesma leveza calviniana que tbém não acho eu suas críticas).

Para terminar, concordo contigo: “estamos no meio” de nossos pensares e creio que, passada a “indignação” possamos aproximar tais pensares, sem esquecer que “o real não está nem na saída nem na chegada, mas no MEIO da travessia”.

 

Até,

 

Abraço carinhoso

 

João Carlos (agora, sem o prof. e o Dr.)

 

Claro que vc pode publicar no seu blog, sem problemas.

Escrito por Sérgio às 09h26
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10/02/2006


Not so Jung

TEXTO DE JUNG E EU FICA AQUÉM DE SERGIO BRITTO

 

Um ator contorna a mesa de sua sala, se indagando em voz alta como conseguirá chegar no personagem. No fim da curva, porém, sem interromper a frase e só com o auxílio de um par de óculos, já se tornou o outro: outra postura, outro timbre, em mudanças quase imperceptíveis mas de um impacto quase sobrenatural.

Poucos atores são capazes disso: Sérgio Britto é. Sua técnica apurada e generosa é solicitada ao máximo pelo texto, e por isso vale a pena ver Jung e Eu. No entanto, o mesmo texto faz concessões que acabam diluindo muito esse trunfo.

Conforme foi divulgado, essa montagem se originou como uma substituição às pressas de outra. O diretor Domingos Oliveira adaptava para Britto “Memórias, Sonhos e Reflexões”, testamento literário de Carl Jung, quando, a quatro meses da estréia marcada, os direitos autorais foram negados. A solução foi pirandelliana: passou a contar a história de Leonardo Svoba, ator octogenário que se prepara para encarnar Jung em meio a diversidades.

Algo se ganhou na troca. A impressionante impersonalização de Britto, como se vê nas cenas em que o pensamento de Jung é exposto, poderia resultar monótona ou hermética para os não-especialistas, se a peça se limitasse a ser uma conferência simulada. A exposição do processo de criação é sempre fascinante, ainda mais quando se consegue estabelecer uma ponte entre o processo junguiano de individuação e a criação do personagem.

Assim, quando a peça começa com Jung em cena dizendo para o público: 'Estamos num sonho. Não estamos sonhando, estamos sendo sonhados pelo ator Leonardo Svoba’ a premissa é fascinante e promete muito.

No entanto, erros primários de dramaturgia põem quase tudo a perder. Para driblar a verossimilhança difícil do monólogo, gênero no qual o personagem tem que justificar estar falando sozinho em voz alta, recursos fáceis são usados: o ator fala com o retrato da mulher já morta, dialoga com sua voz gravada, e sobretudo, fala muito ao telefone. Oliveira libera enquanto diretor o telefone de seu fio, para deixar a marcação livre. Enquanto dramaturgo, no entanto, não se libera do uso sistemático da repetição do que diz o interlocutor: “o que você está dizendo? que...” é o começo de inúmeras frases.

Pior: explicações desnecessárias são dadas para justificar a seqüência de sonhos nos quais ator e personagem dialogam. “Por que será que estou com sono? Ah, já sei...” Uma falta de confiança na convenção que remete ao mau teatro infantil.

Assim, a história de Svoba, cheia de clichês, vai tomando espaço e vulgarizando a trama. Ao público é revelado que seu diretor abandona a montagem para ficar com uma atriz, e seu filho nega lhe emprestar o dinheiro para a montagem, que o produtor demora a depositar. Até o final em Deus-ex-máquina, são alinhavados estímulos para Britto chorar, dizer palavrões, voltar a sorrir. Rebaixa seu talento para a dimensão de novela, como menosprezando o gosto do público. Talvez Oliveira tenha razão, garantido assim prêmios e sucesso comercial. Mas perde a ocasião de fazer o que alega no texto: oferecer a Britto seu melhor papel. 

Escrito por Sérgio às 17h17
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07/02/2006


Esperando sentado

GODOT DE VILLELA ESCAPA PELO ESBOÇO

Neste centenário de Samuel Beckett, vários Godots virão. A função do crítico não é apontar qual versão corresponde melhor a sua própria montagem imaginária, ou seja, julgar erros e acertos em função de um modo supostamente ‘correto’ de se montar Esperando Godot. O que está na berlinda aqui é o Godot de Gabriel Villela, o espetáculo que ele escolheu fazer junto a seu elenco, dentro de seu universo próprio.

O universo de Villela é o da ‘mineirice’, que ele reivindica com arrojo e prestígio: essa sábia inocência forjada de quem, segundo reza o orgulho regional, compra ponte de carioca para revender a paulista. É a seu quintal que devem se adaptar os convidados ilustres, sejam eles Goethe, Chico Buarque ou Beckett.

Na primeira imagem do espetáculo, a modalidade mineira do universo beckettiano parece que vai se estabelecer de modo irrefutável: Vladimir puxa um cigarro de palha, aliado arquetípico dos que não têm pressa de ver o tempo passar. No entanto, as exigências de eficiência do teatro comercial logo atropelam esse achado: o cigarro, primeiro de vários, já vem pronto na mão da atriz e é aceso por um isqueiro de plástico.

Estragon, do seu lado, com trejeitos de marionete, tenta tirar seu sapato. E quando fala, é em um inesperado registro agudo e suave com entonação monótona de litania, quase o tatibitate com o qual os adultos forjam sua estranha paródia da fala infantil. Bete Coelho sabe construir os tipos mais inverossímeis sem perder seu carisma, e esse seu Estragon-Emília-Pierrô lunaire coloca de modo eficiente a fábula dos mendigos que esperam pelo salvador em um contexto de conto de fadas, uma história contada por um idiota de aldeia mineira, cheio de caras e bocas, e só significando isso: não mudará de tom até a última deixa.

Magali Biff, com seus grandes olhos expressivos, procura contrapor um tônus maior em seu Vladimir, já que ele na trama é quem tem a função de trazer à tona a angústia da espera. Mas, na puerilidade exigida pela direção, é só uma criança mais velha. O Pozzo de Lavínia Pannunzio também é uma distração com pouco contraste: jogando charme para a platéia assim que entra, é apenas mais um palhacinho. E Vera Zimmermann, irreconhecível e concentrada, tem seu grande momento no monólogo de Lucky ofuscado por uma piada fácil com sua respiração. Curiosamente, quando volta como menino mensageiro de Godot, faz o personagem mais adulto da montagem.

A benevolência da platéia vai se esgotando a conta gotas, como costuma acontecer diante de exibição de crianças, e a atenção se volta para o cenário, um mínimo elegante, e que felizmente não remete como divulgado a uma mensagem ecológica; ou para o figurino, que tem um camisão de linho francês de época tão habilmente misturado aos trapos restantes que é de se perguntar qual a sua função, além de justificar o orçamento. A luz de Domingos Quintiliano faz anoitecer e amanhecer com habilidade e pequenos mistérios vão distraindo bem: as mãos de madeira de Pozzo e Lucky remetem aos marionetes de Gordon Craig? Por que Vladimir ouve o coração de Pozzo pondo o ouvido no chão? Referência ao Woyzeck?

No segundo ato os momentos de retórica mais pesada são tentados por Pannunzio e Biff, e aí fica justificada plenamente a prudência de Villela de se manter até então no esboço, no gesto só sugerido como em ensaio apressado. Coelho dá sua última fala com sua voz normal, dando uma amostra tardia do que, com mais tempo talvez, poderia ter sido a montagem. Infelizmente, porém, a paciência já se esgotou e as cadeiras incômodas do subsolo do Sesc Belenzinho vêm rangendo há um bom tempo. É preciso assentos mais confortáveis para esperar Villela encontrar seu Godot.

Duas estrelas

Escrito por Sérgio às 12h28
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