UTOPIA TRAZ LUCIDEZ FEMININA A MORUS
Aumentar o castigo não evita o crime. Mais eficiente é dar meios de subsistência para todos. E se a exclusão permanece, é para servir ao orgulho dos privilegiados sem vergonha, para retomar o termo preciso de Contardo Calligaris. A solução definitiva é suprimir a ostentação.
É desarmante essa lucidez de Thomas Morus. É de se perguntar por que suas idéias, que estão à disposição desde 1516, são descartadas com escárnio como irrealizáveis, ou seja, "utópicas". Ora, se sua ilha Utopia, modelo de harmonia, quer dizer lugar nenhum, pode também querer dizer qualquer lugar. Basta falar seu texto em voz alta, e a utopia se faz presente.
Esse é um trabalho para Moacir Chaves e sua Péssima Companhia. Tendo desenvolvido junto a Aderbal Freire Filho (no antológico "O que diz Molero") a técnica do romance-em-cena, sua principal linha de pesquisa desde então é tornar teatral um texto literário através do jogo aberto dos atores. Com "Utopia", atinge a mesma excelência que se via em "Bugiaria", sua obra prima anterior: um espetáculo divertido, comovente e profundo, em uma simplicidade quase esquemática.
Assim, uma atriz diz um texto em prantos, levando o publico a criar as entrelinhas de sua tristeza, já que ela narra um simples debate de idéias. Em seguida, outra atriz repete o mesmo texto às gargalhadas, aflorando o seu potencial subversivo – e desta forma, de ruído em ruído, o texto vai se fazendo ouvir.
A sucessão de monólogos poderia resultar em academicismo não estivesse a direção apoiada em quatro atrizes excepcionais, de talentos complementares. A elegante clareza de Danielle Barros se justapõe à sensual Alessandra Maestrini, que enche o palco de doçura com seu canto; e se Luciana Borghi cata o público à unha para se fazer ouvir, com um olhar Josie Antello o põe no bolso, debochando saudavelmente dos excessos de Morus.
A trilha sonora, colcha de retalhos elegante que une vozes femininas de tradição celta e africana e o cenário minimalista de roupas espalhadas pelo chão reforça essa sensibilidade feminina da montagem, acrescentando mais um sentido ao discurso de Morus: se os homens destroem o mundo com seu orgulho, as mulheres o reinventam com seu bom senso e seu bom humor.
"Utopia" é um festim de inteligência e achados, de interpretação e questionamentos fundamentais. A simplicidade da proposta se impõe por si quando vem com tanta variedade de tons, permeada de generosidade ao se por a serviço da idéia original do texto. É cheio de gratidão que se sai de "Utopia".
Quatro estrelas


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