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TEXTO DESMASCARA A FALSA ESPERTEZA DA POLÍTICA
O fenômeno de Ricardo III é apontado com justeza por Al Pacino, em seu instigante “Looking for Richard” (“Ricardo III – um Ensaio”, 1996): como uma peça que depende tanto do conhecimento da História da Inglaterra entre 1483 e 1485 pode ser uma das mais representadas de Shakespeare? O que ele fez para que se mantivesse o interesse ao longo dos séculos por esse conflito entre a rosa branca de York e a rosa vermelha dos Lancaster, lutando pelo trono inglês? Em princípio, Shakespeare estava preocupado apenas com seus contemporâneos: em 1593, na estréia de Ricardo III, os ingleses eram recentes donos do mar (a vitória sobre a “Invencível Armada” espanhola se dera apenas cinco anos antes), a popularidade da rainha Elisabeth se multiplicava e era preciso estabelecer parâmetros para o comportamento dos reis. Ao longo da carreira escreveu então nove peças históricas, e se Henrique V (1599) é um modelo do rei virtuoso, Ricardo encarna todos os vícios a evitar. Assim, desfilam assassinos de crianças, aduladores, conspiradores, inocentes úteis, e uma Rainha mãe, Margarida, que surge como o fantasma de um passado sangrento. Surpreende antes de tudo a modernidade como o assunto é abordado: não há nada de divino nesses reis, e o jogo do poder é analisado como um mero conflito de desejos individuais, tornando a crise política uma inevitabilidade cíclica. A História, cheia de som e de fúria, é feita pela manipulação do Acaso, por indivíduos mais ou menos atormentados pela consciência. De toda a galeria shakespeariana, Ricardo é o mais maquiavélico. Não se deixa cegar pela ambição, como Macbeth, nem hesita diante do assassinato a cumprir, como Hamlet. Acumulando as funções de protagonista e coro, dirige-se desde o começo da peça diretamente ao público, a quem se apresenta como vilão, descrevendo sua deformidade física com amarga auto-ironia: é bufão de si mesmo. Mais do que isso, anuncia o que vai fazer, como logo antes de seduzir Lady Ann, de quem havia assassinado o marido e pai. Quando volta para dividir com o público cúmplice a surpresa por ter conseguido, prenuncia toda a técnica de distanciamento brechtiana. Com esse estranho charme desmascara assim as perfídias da ambição política, mostrando como são fúteis as raízes do que pode degenerar em poder despótico. “Meu reino por um cavalo”, diz, ao perder a montaria no combate final, em uma fórmula impactante que sugere como a coroa no alto depende do controle dos desejos básicos. Uma vez menosprezado esse auto-controle, toda esperteza ‘política’ soa pueril – e o público moderno sabe imediatamente por outro rosto naquele que nega ser candidato ao trono, para dar impressão de ser levado a ele por vontade do povo. Os reinos e os cavalos passam, mas não há nada de novo sob esse sol de York. |


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