Na Moita


06/03/2006


MONTAGEM DE KOLTES REVERBERA A SOLIDÃO DO MUNDO

« O teatro é um jogo. Querendo participar, é preciso conhecer suas regras, as aceitar, se conformar com elas, sem o que acabamos inevitavelmente na posição estúpida de um adulto jogado na rede complicada dos jogos infantis dos quais ele ignora a trama... Isso dito, o alcance deste espetáculo está no imediato". Bernard-Marie Koltès escrevia com essa clareza de objetivo já no programa de seu primeiro espetáculo, Les Amertumes (Os Ressentimentos), que ele escreveu dirigiu e interpretou aos 22 anos, em 1970. Este Cazuza do teatro Francês vai se lançar definitivamente em 1977, com o monólogo "A Noite antes da Floresta" no Festival Off de Avignon, texto que passou a ser montado constantemente, primeiro nos festivais universitários, e logo como clássico moderno, o que sua morte prematura em 1989 só fez reforçar.

Quais as regras desse jogo de Koltès? Primeiro, suas peças sempre se passam no imediato, o que o aproxima do ‘absurdo’ de Beckett e Ionesco: estamos entalados no aqui agora, com poucas ilusões sobre o futuro, e com apenas fragmentos de memória. Mas a palavra não recua diante da imagem: com a verborragia abstrata dos simbolistas, seus anti-heróis hipnotizam como cobras a platéia-presa.

Esta "Noite Antes da Floresta" é bem representativa da trama que enreda sem explicar, em labirintos de pequenas histórias que se completam, em um caleidoscópio de espelhos. Um homem nos interpela na chuva: precisa da nossa ajuda mas não quer implorar. Tenta nos convencer, ao contrário, que tem a solução para nossa sobrevivência: um sindicato de solitários. Em troca, não quer dinheiro mas um lugar para enfrentar a noite.

Nesta montagem, por convite de Otávio Martins, Francisco Medeiros construiu uma partitura precisa, na qual cada palavra corresponde a um gesto discretamente não ilustrativo, e aos poucos, obsessivamente, vão aparecendo as cartas desse tarô: a mãe é o indicador apontado para baixo, para o perigoso mundo instintivo; o trabalho, falsa razão usurpadora, é o dedo médio apontado para cima. A opressiva cenografia de Duda Arruk e José Silveira também vai sendo transformada pelas palavras do texto: os espelhos obscuros que a cidade nos põe atrás de nós, e a calçada rachada, que é o metrô da descida ao inferno e a ponte do amor impossível. Alusões da trilha de Aline Meyer e da luz de Domingos Quintiliano são perturbadoramente eficientes para mostrar nosso rosto nesse espelho deformado.

Entre o céu e a terra, estrangeiro humilhado, ator que busca na platéia sempre fugidia um interlocutor à altura, o protagonista é um misto de Woyzeck e Hamlet. Um papel para o qual um ator deve se preparar bem, e Otavio Martins está a altura. Depois de uma longa militância na Companhia do Latão e algumas incursões no teatro comercial, tem maturidade para manter a concentração e intensidade sem deixar nunca de ser orgânico nem relaxar a guarda. No limite extremo da exasperação, no entanto, ele se deita no chão, e sua vulnerabilidade finalmente nos contagia quando finalmente o texto revela o que é: uma história de amor desesperado.

A isso se acrescente o fato desse testemunho ser oferecido no Espaço dos Satyros, no qual, com paciência meticulosa, um novo teatro vem se forjando. Sem tempo nem espaço vazios, aqui, nos horários sucessivos, "Oração para um Pé de Chinelo" de Plínio Marcos se sucede à "Vida na Praça Roosevelt" de Dea Loher, e é como se reverberasse nessas paredes quase improvisadas uma conspiração de sentido para o mundo. Nelas se acrescenta assim a urgência do grito de Koltès contra a solidão urbana, e sua reinvenção da felicidade através de prostitutas e excluídos, para enfrentar a desolação de um mundo sem utopia. Juntando os pedaços dessa gente em frangalhos, o Espaço dos Satyros faz um manto, e nos aquece para enfrentar a noite.

Quatro Estrelas

Escrito por Sérgio às 12h50
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