Um ponto de partida precioso para o Grupo Lume, que vem se especializando na construção meticulosa de pequenas epifanias cotidianas. Já havia sido assim em Café com Queijo, um resgate de depoimentos e estilos de indivíduos isolados em um Brasil remoto. O Lume se limitava, nessa etapa, a dar voz e corpo a esses cidadãos invisíveis, por uma capacidade de mímese quase chamânica, mas sem necessidade de um fio narrativo que os unisse.
Desta vez, o tema foi dado pelo documentário “O Chapéu de Meu Avô” de Júlia Zakia, sobre uma antiga fábrica de chapéus em Campinas. Descobrindo um paraíso perdido logo ao lado de sua sede, o Grupo, que já rodou o mundo, ávido de encontros com outras realidades e criadores, encontra tudo o que precisa nesses relatos íntimos. Aposentados contam seu cotidiano com tanta dignidade que tornam quase épica a simples persistência em se fazer bem o que se sabe fazer.
E é aí que o grupo se entrega por inteiro. Vestindo os chapéus de Chico, Dante e Rouca, os veteranos sobreviventes de uma arte perdida, que é passada, com desconfiança ciumenta, para o aprendiz Pao, sente-se que é de si mesmos que os atores estão falando, do prazer de uma arte incerta e delicada, que se faz sem pressa, e sem medo de repetir até a perfeição.
Ana Cristina Colla, Jesser de Souza, Raquel Scotti Hirson e Renato Ferracini, que tanto marcaram presença em Café com Queijo, continuam aqui com sua simpatia contagiante, deslumbrando sem alarde com sua capacidade instantânea de se tornar outro. Às vezes, basta a troca de um chapéu, e o timbre, postura e ritmo materializam um desses seres que não existem, mas que se tornam indispensáveis.
Não temos atores desempenhando papéis, mas criadores que se responsabilizam por toda a montagem, o cenário múltiplo, a luz mágica, em cumplicidade com os músicos que fazem a trilha ao vivo em cena. O diretor convidado, o argentino Norberto Presta, traz do Centro Via Rosse di Produzione Teatrale um estilo bem semelhante ao Lume, com uma dimensão expressionista maior, talvez, o que acentua o realismo fantástico das situações.
O espetáculo lembra “O Baile”, espetáculo do grupo francês Théâtre du Campagnol, transformado em filme por Ettore Scola. Um elogio ao cotidiano, com uma alta técnica para atingir a simplicidade. Em alguns momentos ainda se sente por trás da trama a linguagem se buscando, em jogo aberto que laceia o ritmo e conta com a cumplicidade da platéia. Mas é uma arte poética apresentada ao cliente com toda simpatia, respeitando a cabeça de cada um, sem se gabar de ter atingido uma fórmula definitiva. E a essa passada de chapéu a platéia retribui a generosidade, atenta ao que ainda há por vir.
Três estrelas.


Leia este blog no seu celular