Na Moita


24/03/2006


LUME ENCENA SUA ARTE POÉTICA
Um chapéu é sempre a evocação de uma ausência: mimetiza a personalidade de seu dono mesmo após seu desaparecimento. A nostalgia é dobrada quando o chapéu remete a um tempo não tão distante no qual não se saía na rua sem ele, em uma dignidade cidadã que se perdeu.
Um ponto de partida precioso para o Grupo Lume, que vem se especializando na construção meticulosa de pequenas epifanias cotidianas. Já havia sido assim em Café com Queijo, um resgate de depoimentos e estilos de indivíduos isolados em um Brasil remoto. O Lume se limitava, nessa etapa, a dar voz e corpo a esses cidadãos invisíveis, por uma capacidade de mímese quase chamânica, mas sem necessidade de um fio narrativo que os unisse.
Desta vez, o tema foi dado pelo documentário “O Chapéu de Meu Avô” de Júlia Zakia, sobre uma antiga fábrica de chapéus em Campinas. Descobrindo um paraíso perdido logo ao lado de sua sede, o Grupo, que já rodou o mundo, ávido de encontros com outras realidades e criadores, encontra tudo o que precisa nesses relatos íntimos. Aposentados contam seu cotidiano com tanta dignidade que tornam quase épica a simples persistência em se fazer bem o que se sabe fazer.
E é aí que o grupo se entrega por inteiro. Vestindo os chapéus de Chico, Dante e Rouca, os veteranos sobreviventes de uma arte perdida, que é passada, com desconfiança ciumenta, para o aprendiz Pao, sente-se que é de si mesmos que os atores estão falando, do prazer de uma arte incerta e delicada, que se faz sem pressa, e sem medo de repetir até a perfeição.
Ana Cristina Colla, Jesser de Souza, Raquel Scotti Hirson e Renato Ferracini,  que tanto marcaram presença em Café com Queijo, continuam aqui com sua simpatia contagiante, deslumbrando sem alarde com sua capacidade instantânea de se tornar outro. Às vezes, basta a troca de um chapéu, e o timbre, postura e ritmo materializam um desses seres que não existem, mas que se tornam indispensáveis.
Não temos atores desempenhando papéis, mas criadores que se responsabilizam por toda a montagem, o cenário múltiplo, a luz mágica, em cumplicidade com os músicos que fazem a trilha ao vivo em cena. O diretor convidado, o argentino Norberto Presta, traz do Centro Via Rosse di Produzione Teatrale um estilo bem semelhante ao Lume, com uma dimensão expressionista maior, talvez, o que acentua o realismo fantástico das situações.
O espetáculo lembra “O Baile”, espetáculo do grupo francês Théâtre du Campagnol, transformado em filme por Ettore Scola. Um elogio ao cotidiano, com uma alta técnica para atingir a simplicidade. Em alguns momentos ainda se sente por trás da trama a linguagem se buscando, em jogo aberto que laceia o ritmo e conta com a cumplicidade da platéia. Mas é uma arte poética apresentada ao cliente com toda simpatia, respeitando a cabeça de cada um, sem se gabar de ter atingido uma fórmula definitiva. E a essa passada de chapéu a platéia retribui a generosidade, atenta ao que ainda há por vir.
Três estrelas.

Escrito por Sérgio às 11h23
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22/03/2006


GRUPO GALPÃO FAZ UM BRECHT SEM RISCOS

 
Há vinte e três anos na estrada, o Grupo Galpão atingiu um invejável padrão de qualidade. Pode-se ir sem risco ver um espetáculo seu: é contar com um elenco afinado e harmônico, que canta e toca instrumentos em cena sem perder o personagem, amparado por uma primorosa direção de arte.
 
Neste Um Homem é Um Homem, assim, os figurinos de Kika Lopes misturam com extremo bom gosto oriente e ocidente, uniformes e vestes rituais, sem exagerar no luxo nem deixar nada ao acaso. O cenário de Alexandre Rousset e Thereza Bruzzi cria planos dinâmicos e concretiza a metáfora principal do texto, a da  construção e desconstrução do real: tudo é teatro, na religião como na guerra, diz Brecht, e o cenário é desmontado em cena ao longo da peça.
 
Paulo José sabe que servir Brecht é não respeitar seu texto rigorosamente. O próprio autor-encenador revia seu texto a cada montagem, pois o jogo entre ficção e realidade só funciona com a platéia quando reatualizado a cada encenação. Contando com a cumplicidade do Galpão para atualizar piadas e referências, castiga pelo riso os costumes militares de um exército de ocupação que passa por cima de valores individuais em nome da causa colonial.
 
A referência à guerra de Bush, portanto, é inevitável e necessária. As justificativas simplistas e mentirosas da guerra do Iraque nunca serão insuficientemente satirizadas. As piadas funcionam, não caindo no deboche esvaziador nem  se tornando lições de moral disfarçadas.
 
O texto não pede nenhum desafio individual de atuação: é correto portanto que nenhum ator se destaque, e tirando talvez uma marcante Sra Gala Gay de Inês Peixoto é a dinâmica do elenco como um todo seu principal trunfo.
 
Vinte e três anos depois, portanto, o Grupo Galpão retoma Brecht, por onde começou: sua peça de estréia, “E A Noiva Não Quer Casar”, era uma adaptação de “A Alma Boa de Se-Tsuan”, sobre pernas de pau, que agora voltam. Ao longo desses anos, o grupo soube manter o frescor de teatro de rua, e ganhar um padrão de qualidade: já se sabe com antecedência o que se vai encontrar em um espetáculo do Galpão, e isso é uma faca de dois gumes. Sai-se satisfeito, mas não instigado. Nada de novo no front. O risco ainda vai fazer falta para a companhia.

Escrito por Sérgio às 14h01
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