FESTIVAL DE CURITIBA SE ESGOTA EM VITRINE DE SALDOS E RETALHOS Tinha tudo para dar certo. Uma curadoria renovada trouxe peças relevantes para a Mostra Contemporânea, que, embora representando menos regiões brasileiras, era um bom painel de um teatro renovador e conseqüente, reunindo veteranos e crias da casa. Grupos que se haviam consagrado em anos anteriores no Fringe voltaram como “oficiais” com trabalhos importantes: o Grupo Espanca! que a partir de Curitiba, no ano passado, rodou o Brasil com “Por Elise” vinha agora com “Amores Surdos”; o Grupo XIX ocupou o Largo da Ordem com “Hygiene”, cotidiana garantia de qualidade deste ano, além de reapresentar “Hysteria”, a peça que o projetou anos atrás com tanto vigor, que fazia os críticos chegarem em Curitiba para descobrir “quem seria o Hysteria deste ano”. Pois bem, com o espantoso número de reprises no Fringe, o Hysteria deste ano foi o próprio Hysteria. Inflada como nunca, a mostra paralela se inviabilizou pelo caos administrativo, que impôs duras provações aos artistas e público, com preços abusivos, filas gigantescas, falta de informação, menosprezo pelo combinado em contrato em relação ao espaço e luz necessários. Atingido na raiz, o Festival amarelou igualmente na copa, com estréias nacionais convidadas e inviabilizadas por problemas técnicos. Se o novo não tem condições para se apresentar, e o consagrado arrisca seu prestígio, o que se pode relatar de uma vitrine de saldos e retalhos? Qualquer tentativa de crítica é inviável, quanto mais uma seleção de "melhores" - que, na estratégia perversa da gincana por um lugar ao sol, acabou contribuindo para o descaminho do festival. É possível fazer uma lista de momentos significativos do festival, sobretudo como um relato de resistência daqueles que, com uma esperança teimosa ou talvez por estarem desavisados, tentaram realizar o Festival. Mirandolina, produção local, foi uma aposta na formação clássica de atores cumprida com firmeza por Roberto Innocente, contando com o carisma do veterano Mauro Zannnata - mas a benevolência do público não disfarçou o menosprezo do festival que obrigou cenário e iluminação a se reduzirem a níveis amadores. Evelyn Ligocki veio de Porto Alegre com um prêmio no bolso para mostrar sua "Borboletas de Sol de Asas Magoadas", demonstrando sua íncrivel capacidade mimética de encarnar um travesti - como uma mensagem jogada ao mar, sua denúncia de coração aberto haverá de alcançar bom porto. "Oito" de Antonio Januzelli e Juliana Jardim, com o Núcleo 53 de formandos da Ead foi um grande representante do teatro experimental estudantil, que, embora desnorteando os que vieram em busca de uma peça mais convencional, teve uma cena inesquecível: a da atriz à beira do palco que espera ardentemente por um beijo - em vão. Igualmente emblemática foi a apresentação de Werther pelo jovem Marcel Gritten, que enfrentou um black out e, à luz de velas, garantiu o beijo da platéia. No mais, mais do que nunca, o Fringe foi inflado por aventureiros que aproveitam da celebridade instantânea do festival arriscando ingenuidades pretensiosas, para o desencanto de um público que não foge desesperado do teatro, como mostra com um escárnio inacreditável a publicidade do festival, mas que ao contrário se esforça muito para ver alguma coisa. Gente que nunca fez teatro se apresenta a gente que nunca vai ao teatro, e que decide nunca mais voltar: esta é a contribuição do festival de Curitiba à formação de platéia. Porém, contrariamente ao que ostenta com arrogância o odioso marketing do Festival, adianta fugir sim. Há muitos outros festivais de teatro no Brasil, menores e mais importantes, que não expõem o teatro enquanto vitrine cujo único número não ilusório é o do lucro, mas sim endossando um encontro de criadores, para troca e discussão. Se não muda o Festival de Curitiba, vamos mudar de assunto. Festival de Teatro de Curitiba: bola preta


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