BR-3 DECEPCIONA POR LIMITAÇÕES TÉCNICAS
A decepção que a mais nova aventura do Teatro da Vertigem suscita vem da grande expectativa que ela gerava. Depois da “Trilogia Bíblica”, na qual igrejas, hospitais e presídios se transformavam de cidade em cidade em focos de questionamento social e urbano, bem além dos temas religiosos que serviam de ponto de partida para as peças, o grupo anunciou sua investida mais ousada.
A aposta era percorrer três cidades emblemáticas do Brasil, que contêm simbolicamente o BR no nome, e estabelecer o ponto de contato entre a capital Brasília, a Brasilândia da periferia paulista e Brasiléia, na fronteira com a Bolívia. Durante 33 dias se pôde através do Folha On Line acompanhar os relatos poéticos e polêmicos de Ivan Delmanto, entre a carta de Caminha e o “Coração da Trevas” de Conrad. Do encontro com Tia Neiva, do Vale do Amanhecer, a Dona Peregrina, líder do santo Daime, ficou documentado um Brasil entre o grotesco e o sublime, além da transformação do foco da pesquisa, que passou das cidades ao próprio fato de viajar, e finalmente desta Odisséia à Telemaquia, a busca pelo pai perdido.
O material riquíssimo teve que encontrar seu local-síntese, e o rio Tietê foi a escolha mais certa. Além da referência ao rio como meio de transporte arquetípico, essa excursão pelos intestinos podres da cidade revela seu arrojo arquitetônico invisível, um futuro jogado no lixão, que possibilita um vigoroso reencontro com a utopia.
No entanto, os desafios técnicos da empreitada acabaram limitando muito seus resultados. Releve-se aqui o mau-cheiro que acompanha o público – afinal, compartilhar o desconforto sempre foi a missão artística do Vertigem. A poluição sonora do barco, no entanto, mesmo que integrada pela trilha sonora inicial, obriga os atores nas margens a se dublarem, e os diálogos chegam abafados, por alto-falantes, o que dispersa em mancha de óleo o grande carisma de atores como Roberto Áudio e Cácia Goulart, quanto mais os esforços dos jovens atores recém-ingressos.
Como sempre, imagens de grande impacto honram o nome do grupo. Os figurinos kitch de Marina Reis, a competente direção de arte de Márcio Medina, fazem um competente panorama do imaginário brasileiro, nem sempre fugindo do folclórico, como na cena do ritual da huasca, mas instigando com uma estética de trem fantasma, um espetáculo som e luz de um esgoto a céu aberto. No entanto, o roteiro confuso de Bernardo Carvalho, disperso em alusões rápidas demais ou uma trama com uma insistência demasiada em relações de causa e efeito desnorteia. Jovelina, grávida de Jonas, busca o pai da criança, que ergueu Brasília; Jonas, por sua vez, será procurado pelos filhos nos confins do Acre. Uma narrativa de enigma envolvendo seitas e tráfico se sobrepõe desnecessariamente ao que foi visto em viagem, e o tema se dilui.
Resta a sensação de aventura, de transgressão urbana, que é a característica do Teatro da Vertigem, mas não seu essencial. BR-3, concebido para ser a mais radical superação do grupo, acaba sendo uma obra menor dentro do seu repertório.
Duas estrelas

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