Na Moita


29/04/2006


ASFALTARAM A TERRA TEM O MELHOR E O PIOR DE GERALD THOMAS

Gerald Thomas tem a mesma importância para o teatro brasileiro do que Ziembinski ou Victor Garcia. Desde que surgiu em 1985, cumpre a função do outsider, daquele que vem polemizar e polinizar com outras sementes, no caso a técnica e a sintaxe Off Broadway que aprendeu a exercer no La MaMa.

Suas peças em forma de happenings em permanente desconstrução se nem sempre seguem a prudência dramatúrgica cumprem o princípio decodificado por Haroldo de Campos: Gerald escreve com os atores em cena. Para os que o rejeitam enquanto demiurgo que reduz atores à objetos cênicos, basta uma lista dos que já compartilharam com ele essa aventura caótica. Encenador de si mesmo, em busca da obra de arte do acaso total, Gerald retoma sempre a mesma obra, como Fellini e Woody Allen. E como Beckett, falha de novo, e falha melhor: que resulte em obra prima ou falcatrua, Gerald Thomas não se furta a se servir de bandeja para compartilhar sua perplexidade diante do mundo.

Partindo de oxímoros e trocadilhos, as quatro peças que Gerald Thomas estréia agora se apresentam antes de tudo como um desafio à catastrófica falta de condições de se produzir teatro no Brasil. É uma aposta que desse novelo caótico e inesgotável que é a visão de mundo de Thomas quatro fios podem ser puxados simultaneamente, ao custo de um.

O resultado é irregular, mas elucida muito os vícios e virtudes de seu processo de criação. A narrativa em fluxo de consciência, remetendo quase à escrita automática surrealista, e que se apresenta em construção a ser completada ao longo da temporada, pode tanto fascinar pelo contraste de tons e profundidades quanto desandar de vez e resultar em nada. A sintaxe vertiginosa da encenação é sempre amparada em um meticuloso projeto de luz e onipresente trilha sonora, e neste espetáculo assumem cada vez mais a competente iluminação de Aline Santini e as composições de Edson Secco nas trilhas do universo do encenador-demiurgo.

O maior peso, no entanto, está nas costas do ator. Cada uma das peças tem um protagonista encarregado de segurar a fio da meada em meio ao labirinto. Em Brasas no Congelador, portanto, era grande a expectativa em cima da estréia nos palcos de Sergio Groisman. E ele foi muito além da expectativa. Valendo-se de sua máscara de apresentador somente em alguns momentos, em piadas quase internas sobre o horário tardio de seu programa, ele soube tirar partido de sua vulnerabilidade corajosa, ora desarmando o público com um humor que remete a Stan Laurel, ora aflorando uma angústia sincera ao evocar Auschwitz. Contribuem muito com ele Fábio Pinheiro, que faz um pai amargo, e a terna e hilariante mãe Luciana Romanzini. A trama, ainda inacabada, aponta para um complô que satiriza os duelos entre as emissoras de TV, que agem como se traficassem urânio quando tudo não passa de perfumaria.

Bem mais redondo está Terra em Trânsito, que traz Fabiana Gugli enquanto uma cantora de ópera em pânico antes do terceiro sinal, em seu camarim, em meio à cocaína e figurinos, fazendo confidências a um ganso que empanturra para seu fígado virar patê. Em um cenário muito bem acabado, Gugli rodopia como uma dançarina de caixa de música, comovente e incansável, em um papel que a consagra, algo entre a Gaivota e O Canto do Cisne de Tchekhov. Para dar vida ao ganso, atuando apenas com o braço direito, mas confirmando assim o talento visto em seus pequenos personagens nas outras peças, Juliano Antunes se afirma enquanto esperança da nova geração.

O filão, no entanto, vai se esgotando nas peças seguintes. Um Bloco de Gelo em Chamas conta com o infalível carisma de Luiz Damasceno, que se deleita fazendo uma diva decadente, mas seja por falta de um antagonista à altura, seja por uma trama que perde pé por excesso de reviravoltas, o inacabado dá lugar ao interminável. Há algo de patético no conselho para que se enxugue o bloco de gelo, mas é preciso constatar que há falta de limite nessa falta de limite.

Quanto a Asfaltaram o Beijo, o estrago ainda é maior. O mote da homenagem a Samuel Beckett em seu centenário, pedra angular de todo o projeto, era precioso, sabendo-se a cumplicidade que houve entre ele e Thomas. Mas o diretor cometeu uma imprudência ao escolher o ator protagonista. Gerald Thomas no papel de Gerald Thomas só se justifica pelo tipo físico. O ator iniciante esquece marcas, pula textos, apela por nervosismo à complacência da platéia e acaba desautorizando um depoimento importante.

Em suma, em Asfaltaram a Terra há o melhor e o pior de Gerald Thomas, para o prazer dos amigos e inimigos. Seja qual for o resultado no entanto, e sabendo-se que estará em mudança constante, o espetáculo homenageia Beckett de um modo corajoso: vulnerável a todas as falhas.

Brasas no Congelador e Terra em Trânsito: quatro estrelas

Um Bloco de Gelo em Chamas e Asfaltaram o Beijo: duas estrelas

Escrito por Sérgio às 19h03
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24/04/2006


A INTRÉPIDA TRUPE DRIBLA O TEMPO EM SONHOS DE EINSTEIN

Antes de tudo, é preciso informar que "Sonhos de Einstein" não é uma biografia do gênio, e nem uma adaptação do famoso livro de Alan Lightman. Deste, pega apenas o espírito de instigar a reflexão sobre o tempo e o espaço a partir de intervenções no cotidiano; daquele, o senso de humor que sempre acompanha as reflexões mais profundas.

Do que fala afinal o espetáculo da intrépida trupe? Pioneira brasileira do novo circo, o que não maltrata animais e que, unindo-se à dança e ao teatro, procura ir além de uma seqüência de números tradicionais, a trupe busca há vinte anos uma dramaturgia que alinhave e aprofunde o sentido do trapézio e da acrobacia. Foi assim em Flap, dirigido por Paulo de Moraes, que contava a história de Ícaro, há cinco anos atrás.

Neste "Sonhos", de 2003, dirigido por Cláudio Baltar, o fio da meada é ainda mais abstrato: trata-se de uma coreografia sobre uma conferência. Ouve-se em áudio o conferencista alinhavar as grandes questões da física, driblando a complexidade dos conceitos com grande simpatia, fazendo sempre menção ao aqui agora, ao cotidiano.

O que se vê é como o devaneio de quem tenta traduzir em imagens concretas tantos paradoxos. Com a leveza do fluxo de consciência, o que se expressa não é uma explicação ilustrada, que pode ser de uma didática maçante, mas uma excitação libertadora pela dúvida. A pergunta de um ouvinte da conferência: "será que o tempo existe mesmo?" eternizada ironicamente pelo áudio em looping se transforma aos poucos em ritmo puro; em outro momento, o áudio capta um corre-corre na platéia devido a uma tentativa de assalto justamente no momento em que se discute o caos, e a coincidência é a senha para que trapezistas invadam o espaço aéreo da platéia em skates e patins.

Entre a insolência do grupo argentino De La Guarda (com Flávia Costa servindo de ponte) e a ternura da "Casa" de Deborah Colker (que também passou por aqui) a volúpia do espetáculo é a de ser quase abstrato. Falha, assim, quando há texto demais: quando por exemplo surge um performer com a cabeça em chamas, não há meios de se concentrar no que ele diz.

Mas nem precisa. Assim como a dança contemporânea não se obriga mais a mostrar o cisne morrendo para contar uma história, não há necessidade de uma trama ter começo meio e fim para ser chamada de teatro. Libertos da individualidade psicológica pelo vertiginoso pensamento da física de ponta, livres do tempo e da gravidade, os membros da Intrépida Trupe vivem na Terra do Nunca, com a felicidade de Peter Pan. Vinte anos é um dia, é aqui e agora. A Intrépida, rindo com quem não quer nada, conquista a eternidade. Três estrelas.

Escrito por Sérgio às 13h37
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