Na Moita


12/05/2006


ENGRAÇADINHA CONSAGRA NELSON RODRIGUES PELO MAIS VENDÁVEL

Reciclando clichês com desenvoltura modernista, Nelson Rodrigues sempre soube tirar partido de sua ambigüidade de "anjo pornográfico". Aspirava ao escândalo com uma volúpia de anjo exterminador, ao reformar o teatro brasileiro com a cumplicidade de Ziembinski, mas ao mesmo tempo não tinha puder de sobreviver com os velhos truques do folhetim. De qualquer forma, seduzia o público instigando os limites de seu conservadorismo.

Assim, em 1959, quando brigava por sua peça Boca de Ouro, era celebrado mesmo pelo folhetim Asfalto Selvagem, no qual a perversa polimorfa Engraçadinha galvanizava o Rio com incestos, estupros e mutilações. Nada que se aproximasse de Sade, a não ser pela ironia, mas essa água com açúcar levemente apimentada acabou arcando com a fama de ser a verdadeira face obscura da alma brasileira.

A pencha de pornógrafo ofuscou porém sua obra de dois modos contraditórios. Primeiro, o desagradável dos temas deu pretexto à censura das peças até a década de 1960, e o pudor de palavrões inexistentes acanhou a defesa por parte dos intelectuais. Depois, a contracultura o celebrou justamente pelo que tinha de mais superficial, e Engraçadinha voltou para o culto das massas através dos filmes de J.B. Tanko, em 1964 e 1966.

Com o faro de jornalista para o que vende bem, Nelson Rodrigues tem ibope garantido na Globo, herdeira dos folhetins. Não espanta o fato da minissérie Engraçadinha, que agora se relança em DVD, ter merecido a luxuosa direção de arte de Carlos Manga e um elenco all-star, incluindo entre outros Cláudia Raia, em seu primeiro papel ‘dramático’, e Alessandra Negrini, até então uma desacreditada atriz de Antunes Filho, revelada em um teste disputado.

Como avaliar a atuação de Negrini, por exemplo? É espontânea, despudorada dentro dos limites seguros da Globo, mas parece arcar com uma função social da libido pública, uma espécie de Miss Brasil ao revés, recebendo o cetro das mãos de Lucélia Santos, a Engraçadinha 1981, do filme de Haroldo Marinho Barbosa. Teve que carregar a marca pelo resto da carreira, enquanto que no teatro, o anjo rodriguiano era aprofundado por Antunes Filho, por Eduardo Tolentino do Grupo Tapa, por Paulo Morais da Cia Armazém, entre muitos.

Imagino que em algum lugar do Brasil uma atriz que não tenha passado no teste para Engraçadinha sobreviva hoje de um teatro com bem menos visibilidade, mas que tenta fazer sentido além do vendável. Por outro lado, acredito que muitos tenham tido contato com o nome de Nelson Rodrigues pela televisão, naquilo que ele tem de menos inovador, graças à eficiência comprovada da Rede Globo. Não importa: cada um com seu mercado. O Anjo reformador dos palcos vai muito bem, obrigado. Mas é pena que não encontre o mesmo respaldo na mídia que o pornógrafo cult das telas.

Escrito por Sérgio às 11h07
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