O pai da moça cega avisa ao leitor contratado: a leitura deverá ser translúcida, pois a filha desenvolveu uma quase "clariaudição" para descobrir subtextos indevidos na interpretação. No blecaute que faz a transição para a cena seguinte, o público já experimenta a sensação de ouvir um texto no escuro, criando assim ao mesmo tempo uma identificação e um distanciamento crítico. Bastaria esse achado para tornar "Leitor por Horas" uma montagem imperdível. Mas a montagem vai bem além de uma boa idéia inicial. Primeiro, há a grande experiência e sensibilidade do autor José Sanchis Sinisterra, que, tendo adaptado por trinta anos textos literários para o palco, sabe escolher trechos que se multiplicam no contexto da peça como espelhos se refletindo. Como uma cega ouve "Coração das Trevas" de Joseph Conrad? A leitura de "Madame Bovary" pode induzi-la fantasiar eroticamente sua realidade opaca? Assim, temos direito não só ao universo das citações, como o de sua interpretação, e a realidade vai se estilhaçando em vários pontos de vista excludentes. Com essa sofisticação à altura de Pirandello, o espetáculo poderia ficar restrito à elite intelectual de um público-leitor. Mas a diretora Chistiane Jatahy sabe tirar partido da metalinguagem do espetáculo com sobriedade elegante, propondo um jogo aberto com a platéia, sem nunca superficializá-lo. Junto com Marcelo Lipiani construiu uma sala circular de espelhos, na qual o público, sentado ao longo das paredes, espreita a vida alheia segurando o fôlego para não ser notado. A ação, com os cortes e os travelings circulares do cinema, vai girando pontos cegos, propondo pequenos mistérios à sua "clariaudição": cada um pode criar a sua versão dos fatos. Nesse trapézio sem redes, os atores devem ser irrepreensíveis, e são. Sebastião Vasconcellos faz um pai mindliniano, um capitão de longo curso dos mares literários, não raro imerso em si mesmo, mas sempre afável, mesmo quando é cruel. Com sua vaidade confortavelmente dissimulada em seu belo timbre de voz, o leitor Luciano Chirolli cinzela subtextos com um vigor e uma sutileza que desenvolveu pela intimidade com Tchekhov. Ana Beatriz Nogueira, construindo sua cegueira com a eficiência do essencial, tateando o público, faz a narrativa girar em torno do "centro oculto do ciclone sensual", como avisa a citação do "Gattopardo" de Lampedusa. Nesse xadrez borgiano, de regras que mudam a cada rodada, a cega instiga com a ironia cruel dos críticos o leitor, que se defende tornando-se seu diretor, até que o literário inunde de implausível a opacidade do cotidiano. Com uma profundidade de se estabelece camada por camada, delicado e brilhante, "Leitor por Horas" é teatro folhado a ouro. Quatro estrelas


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