FAGUNDES É DEFENSOR VIGILANTE DO OFÍCIO DE ATOR
Desvencilhando-se com desenvoltura de perguntas rasas, pairando sobre o charco das fofocas sem pretender atingir o Olimpo dos inovadores, Antonio Fagundes reivindica o caminho do meio: é um artesão. Nem gênio nem celebridade instantânea, há décadas vem cumprindo o papel de garantir uma iniciação ao teatro para quem o conhece das novelas - o "Seu João e Dona Maria", segundo sua cartilha própria -, até mesmo quem sabe despertar em dois ou três, nas suas platéias em geral lotadas, o amor ao teatro que sempre o consumiu.
Qual o teatro de Fagundes? Encerrá-lo no único rótulo de "comercial" seria esquecer momentos importantes em sua carreira, como "Morte Acidental de um Anarquista", peça de Dario Fo, na qual fazia a platéia repetir "o governo é sempre f. d. p." em uma época em que isso ainda não era tranqüilo.
Arriscou-se no experimental, embora relutante, tendo sido um dos primeiros atores brasileiros dirigidos por Gerald Thomas, em "Carmem com Filtro". Lembro-me de vê-lo diante de uma marca mais abstrata criada por Ulisses Cruz, no "Macbeth", dividido entre a obediência devida por ofício ao diretor e a preocupação com a dona Maria: "Eu faço. Mas antes me explica por que".
Ator empresário, no moldes românticos de Kean a Procópio, e com um faro comprovado para o sucesso, no fundo o teatro que faz Fagundes é aquele que ele gosta de fazer. Seu amor é pelo ritual em si, a fila na bilheteria, o silêncio na platéia, o debate com o público. Suas brigas antológicas são sempre com os contraventores, os que querem banalizar a vulnerabilidade do artista que se apresenta ao vivo, por maus hábitos adquiridos diante da televisão. Acolhe com o mesmo respeito os que sabe ser de sua tribo: basta ver seu elenco atual - suas "mulheres" são tanto colegas de telinha quanto Fernanda D’Umbra, primeira dama do teatro underground, e a iniciante Julia Novaes.
Em uma crítica minha para seu "Os Sete Minutos" fiz questão de me apresentar enquanto ex-contra regras do "Macbeth", para atestar que não era blefe o que ele reivindica em sua peça-manifesto. Relógios sincronizados da equipe técnica garantem uma pontualidade de segundos, como na TV ao vivo; e uma falha minha, seguida de uma fraca desculpa ("Não tive a intenção") levou uma resposta curta e inesquecível: "Sempre é preciso ter intenção".
Dali em diante continuei um péssimo contra-regras, mas procurei, na outra tarefa técnica de crítico, sondar sempre intenções, e exatidão no cumprimento delas. Nem sempre concordei com escolhas de Fagundes. Mas nunca duvidei de suas intenções - que são, em última análise, fazer frente à mediocridade que cada vez mais obscurece o ofício do ator.