Na Moita


09/06/2006


enquanto isso, em Curitiba

by Rita Lee

Mexo, remexo na inquisição 
Só quem já morreu na fogueira sabe o que é ser carvão 
Eu sou pau pra toda obra, Deus dá asas à minha cobra 
Minha força não é bruta, não sou freira nem sou puta 
Porque nem toda feiticeira é corcunda, nem toda brasileira é
bunda 
Meu peito não é de silicone, sou mais macho que muito homem 
Nem toda feiticeira é corcunda, nem toda brasileira é bunda 
Meu peito não é de silicone, sou mais macho que muito homem 
Sou rainha do meu tanque, sou pagu indignada no palanque 
Fama de porra-louca, tudo bem, minha mãe é Maria ninguém 
Não sou atriz, modelo, dançarina 
Meu buraco é mais em cima 
Porque nem toda feiticeira é corcunda, nem toda brasileira é
bunda 
Meu peito não é de silicone, sou mais macho que muito homem 
Nem toda feiticeira é corcunda, nem toda brasileira é bunda 
Meu peito não é de silicone, sou mais macho que muito homem

Escrito por Sérgio às 17h18
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08/06/2006


FAGUNDES É DEFENSOR VIGILANTE DO OFÍCIO DE ATOR

Desvencilhando-se com desenvoltura de perguntas rasas, pairando sobre o charco das fofocas sem pretender atingir o Olimpo dos inovadores, Antonio Fagundes reivindica o caminho do meio: é um artesão. Nem gênio nem celebridade instantânea, há décadas vem cumprindo o papel de garantir uma iniciação ao teatro para quem o conhece das novelas - o "Seu João e Dona Maria", segundo sua cartilha própria -, até mesmo quem sabe despertar em dois ou três, nas suas platéias em geral lotadas, o amor ao teatro que sempre o consumiu.

Qual o teatro de Fagundes? Encerrá-lo no único rótulo de "comercial" seria esquecer momentos importantes em sua carreira, como "Morte Acidental de um Anarquista", peça de Dario Fo, na qual fazia a platéia repetir "o governo é sempre f. d. p." em uma época em que isso ainda não era tranqüilo.

Arriscou-se no experimental, embora relutante, tendo sido um dos primeiros atores brasileiros dirigidos por Gerald Thomas, em "Carmem com Filtro". Lembro-me de vê-lo diante de uma marca mais abstrata criada por Ulisses Cruz, no "Macbeth", dividido entre a obediência devida por ofício ao diretor e a preocupação com a dona Maria: "Eu faço. Mas antes me explica por que".

Ator empresário, no moldes românticos de Kean a Procópio, e com um faro comprovado para o sucesso, no fundo o teatro que faz Fagundes é aquele que ele gosta de fazer. Seu amor é pelo ritual em si, a fila na bilheteria, o silêncio na platéia, o debate com o público. Suas brigas antológicas são sempre com os contraventores, os que querem banalizar a vulnerabilidade do artista que se apresenta ao vivo, por maus hábitos adquiridos diante da televisão. Acolhe com o mesmo respeito os que sabe ser de sua tribo: basta ver seu elenco atual - suas "mulheres" são tanto colegas de telinha quanto Fernanda D’Umbra, primeira dama do teatro underground, e a iniciante Julia Novaes.

Em uma crítica minha para seu "Os Sete Minutos" fiz questão de me apresentar enquanto ex-contra regras do "Macbeth", para atestar que não era blefe o que ele reivindica em sua peça-manifesto. Relógios sincronizados da equipe técnica garantem uma pontualidade de segundos, como na TV ao vivo; e uma falha minha, seguida de uma fraca desculpa ("Não tive a intenção") levou uma resposta curta e inesquecível: "Sempre é preciso ter intenção".

Dali em diante continuei um péssimo contra-regras, mas procurei, na outra tarefa técnica de crítico, sondar sempre intenções, e exatidão no cumprimento delas. Nem sempre concordei com escolhas de Fagundes. Mas nunca duvidei de suas intenções - que são, em última análise, fazer frente à mediocridade que cada vez mais obscurece o ofício do ator.

Escrito por Sérgio às 17h48
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06/06/2006


CÁCÁ ROSSET CONSTRANGE O NOME DE SEU GRUPO

O Teatro do Ornitorrinco foi um grande grupo. Levou o princípio de interatividade do Teatro Oficina até uma anárquica gincana – quem participou da corrida da Mãe Ubu, cena de Ubu Rei de 1985, na qual o público era convidado a subir ao palco e beijar Rosi Campos, não esquece. Aprendeu com o Grand Magic Circus de Jerôme Savary a juntar circo e Molière, em uma revitalização popular dos clássicos, e por décadas se destacou em festivais internacionais graças a grandes atores criadores como Luiz Galizia, Maria Alice Vergueiro, Chiquinho Brandão, Eduardo Silva, José Rubens Chachá, Ary França, Cristiane Tricerri, e Cacá Rosset.

Com o tempo, no entanto, esse "ego coletivo" foi se concentrando cada vez mais em Rosset. As peças se apoiavam, com objetivos comerciais, no repertório de piadas e efeitos, cada vez mais desgastado, e o público cativo migrou para quem honrava melhor o espírito anarquista das origens – como os Parlapatões, por exemplo.

Em 2002, o grupo terminou para Cácá Rosset "ler Walt Whitman, jogar pingue-pongue e beber uísque". Na prática, tornou-se uma personalidade de televisão, sem muita graça ou prestígio. A esperada volta do Ornitorrinco, com um vaudeville de Feydeau, decepciona as menores expectativas, e constrange o nome do grupo.

Nada de errado com Feydeau, que está na origem tanto de Groucho Marx quanto de Marcos Caruso; nada de errado em se querer fazer uma comédia comercial, quando se têm tantos recursos para isso. O problema é que há muito luxo e pretensão para uma leitura rasa até o pueril. Para usar uma metáfora futebolística – universo ao qual o diretor hoje está mais associado – é como se Rosset fosse um treinador que não ensaiasse jogadas, mas comemorações de gol. Uma bela luz, um belo cenário, uma trilha esperta estão à serviço de efeitos visuais instantâneos, cacos que já vem prontos na estréia, e uma corrida aos roubos de cena (ganha por Octávio Mendes, o que não é um mérito), que tentam fazer acreditar que o Ornitorrinco está de volta em forma do pior humor de televisão.

Não está. "O Marido Vai a Caça" cumpre com eficácia o papel de caça níquel, encontrável em qualquer Shopping Center. Seria suficiente, se não fosse vendido como o que já não é mais. Cacá não deveria usar o nome de um grupo que não era só dele. É facilmente previsível que a montagem fará um grande sucesso de público, e Rosset rirá da crítica à caminho do banco, segundo o velho e infalível clichê. Mas por que parar por quatro anos, se é para retomar o fundo do poço em que estava? Tomara tenha aperfeiçoado seu pingue-pongue.

Uma estrela

Escrito por Sérgio às 13h37
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