Na Moita


12/06/2006


ENTRE O SHOPPING E O ÁGORA, O TEATRO ESPERA.

Apesar do cíclico e instantâneo patriotismo que inunda o país de quatro em quatro anos, por razões políticas e esportivas, a indigência cultural anda tão grande que parece reunir sob a mesma bandeira arquétipos tão opostos quanto o "empresário humanista" Antônio Ermírio de Moraes e o "anarquista coroado" José Celso Martinez Correa. De fato, tanto "Acorda Brasil!", em cartaz no Shopping Frei Caneca, quanto na "Luta-parte II" no Teatro Oficina, no aguardo do Teatro de Estádio, a ambição principal não é a peça em si, nem a performance dos protagonistas, mas a inserção social que ela promove entre o elenco de base, "atuadores" mais que atores.

Metalinguisticamente, a emoção estética em ambos os casos é ver o ganho de auto-estima dos atores e músicos da "comunidade" de Heliópolis, de um lado, e do Movimento Bixigão, do outro: Dionisos entrega a adolescentes carentes a chave da cidade, em meio a frases exclamativas e palavras de ordem.

Mas logo duas ressalvas são indispensáveis. Primeiro é preciso constatar que no final feliz ostentado por Antônio Ermírio – a desacreditada orquestra do maestro Baccarelli triunfa diante dos aplausos do público – a dignidade recobrada é a do cidadão inserido no mercado, o cidadão consumidor, na utopia do shopping, que merece vultosos investimentos privados e públicos, a começar pelo próprio autor-empresário.

A utopia do Oficina é o Ágora, do cidadão legislador, que exerce diretamente o poder – e aí, a luta por patrocínio beira a mendicância, contagiando de melancolia a quinta parte da saga dos Sertões, em final aberto, que contrasta com o otimismo final da trilogia de Antônio Ermírio.

Por outro lado, a forma usada em "Acorda Brasil!" é quase uma embalagem estratégica: a dramaturgia calcada em chavões eficientes e atores que o público conhece da televisão têm como missão atrair a atenção do público para os verdadeiros protagonistas, humildes e anônimos. Aceita a tese, seria deselegante por parte do crítico avaliar a limpeza das unhas desta mão generosa, restando apenas torcer para que em breve a comunidade de Heliópolis ganhe autonomia para subir ao palco desacompanhada, à exemplo de Monte Azul e Vidigal.

Já o Oficina procura evoluir o Homem de Euclides da Cunha para o Trans-Homem de Oswald de Andrade através de uma ruptura da separação entre palco e platéia, e a constante reformulação desse "Te-ato" que funde revista, ópera, cordel, cinema, show de Rock e rave, intervenção urbana e ritual religioso, se arrisca em algo ainda não etiquetável. Assim, não importa se a rima é pobre se a música é boa, e embora deserções no coro tenham piorado o resultado, vale a pena acompanhar o nascimento do novo, mesmo que só esboçado. Uma questão de ordem, no entanto: se a verba é escassa para o imenso desejo, porque gastá-la tanto em efeitos de cenário e som, enquanto que a dramaturgia acumula até o incompreensível sobre o ator exangüe simbolismos e referências intermináveis?

Não espanta assim que o verdadeiro fio condutor da trama se torne a espera de Godot, várias vezes evocado. Mais do que as cenas de interação, razão da vinda do público fiel, que se tornam cada vez mais escassas, a verdadeira comunhão neste epílogo perplexo é a espera junto aos atores encurralados, na fé que a estreita passagem do Oficina não seja um corredor da morte, mas a sala de espera do parto do Teatro de Estádio. Morto Conselheiro, o que será de Canudos?

Que se permita aqui ao crítico compartilhar a angústia pela falta de espaço, na qual a divulgação tem mais preço que a reflexão, com a licença da rima em ão. E deixemos as estrelas para a Copa e a Astrologia, que mais espaço merecem por serem mais competentes nesta distribuição.

Ora, direis, distribuir estrelas em meio à tempestade! E eu vos direi portanto -- entre a inundação retórica de junho e outubro, sob o céu obscuro, esperemos por tempos melhores, na fé de Godot e Sartre: nada no céu é indiscernível, e entre o shopping e o ágora o Homem será o que escolher ser.

Escrito por Sérgio às 12h57
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