Bortolotto faz insolente mergulho no caos urbano
SERGIO SALVIA COELHO
CRÍTICO DA FOLHA
"Meu nome é Mário Bortolotto e não existe nada de que eu goste mais do que um pingado e um pão com manteiga depois de uma noite de sinuca." Convidado em maio a escrever na Folha sobre o toque de recolher imposto pelo PCC, Bortolotto não fugiu por nenhuma retórica pseudo-ideológica e auto-celebrativa: estampou uma apaixonada defesa pelas estratégias da sobrevivência cotidiana, em meio à violência e o desespero, como um riso na cara do caos.
Antes de tudo contador de histórias, atento a tudo o que é autêntico, não espanta assim que Bortolotto tenha feito em "Chapa Quente" uma garimpagem na internet dos quadrinhos de André Kitagawa e mobilizado seu grupo Cemitério de Automóveis para encená-los.
São sete narrativas cortadas a canivete, como "losers" de Robert Crumb no traço sintético de Luis Gê, e um humor desesperado de quem sente na pele a falta de sentido do mundo, um universo em que drogas e tiros não são glamour nem denúncia, mas apenas o que se tem para fazer.
Alegria feroz
Mas Bortolotto não usa as crônicas de Kitagawa como mero ponto de partida para sua peça. Apaixonado pela linguagem de HQ, convidou o quadrinista para co-dirigir, ou seja, redesenhar suas histórias com a cara dos atores e projetá-las em telão, para o uso de flashbacks ou fluxos de consciência, enquanto os atores se jogam em caricaturas vivas com uma alegria feroz.
Seria fácil aqui aproximar esse amálgama de quadrinhos, cinema, teatro e rádio com outros exemplos ilustres que se referem a Will Eisner ou Frank Miller.
Mas aqui, a vantagem é que não há gênios a serem estrategicamente homenageados, todos os criadores estão em torno da mesma mesa de sinuca, com uma mesma fé no taco.
Não importa. Entre piadas internas e soluções cênicas sofisticadas, a montagem -sem pretender revolucionar nada- propõe um teatro inaugural, em que rótulos colam mal, como foi, décadas atrás, o "Trate-me Leão", do grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone.
Desigual, mas envolvente como sua trilha, "Chapa Quente" é um insolente mergulho no caos, assim como uma noite de sinuca em meio ao toque de recolher.


Leia este blog no seu celular