CENTRO NERVOSO PROPÕE O VIRTUOSISMO DA PALAVRA Fernando Bonassi é daqueles jogadores de sinuca que cantam a caçapa, por fé no taco e na beleza do jogo. Transitando por roteiros e romances, crônicas e poemas, sonha há anos com uma síntese entre a palavra escrita e a falada, um gênero inaugural de interstícios. Neste espetáculo, distribui já na entrada o texto integral para o público tomar a lição, acompanhando como alguém da produção a alma que o ator acrescenta à partitura impressa. São 13 monólogos para quatro atores, apresentados em contagem regressiva, devidamente sinalizados por letreiros em cena, reaproveitados de textos já publicados ou feitos sob medida. O que salta aos olhos, nessa empreitada, é que a nova função de diretor de Bonassi não lhe pesa em nada. Sabe com mão firme o que quer, incorporando acasos de ensaio, como um teatro que expusesse seus avessos: a coxia está sempre presente, com seus atores atentos. No entanto, sua estética não é ao acaso: concebe o território de jogo com requintes conceituais, com quatro espelhos que basculam e pivotam criando fantasmas e labirintos com eficácia e grande beleza, graças à cumplicidade precisa da direção de arte de Daniela Garcia e a luz de Alessandra Domingues, além da preciosa trilha de Marcello Pelegrini. Bonassi no entanto tem o currículo repleto de dramaturgias participativas para saber que o ator é o dono do negócio. Todo esse minimalismo hi-tech está assim a serviço da verve de Paschoal da Conceição, que insere referências com o aplomb de um Pelé cruciverbista, alternando com o terno cinismo de Malu Bierrenbach - no papel, por exemplo, de uma torre de controle espezinhado a cidade - a desenvoltura de Eucir de Souza, apto a assumir a função de diretor em uma cena em que assaltante e assaltado cruzam seus mundos, e Thereza Piffer, uma Consuelo Leandro lírica, que faz uma medéia suburbana em uma cena que é bom exemplo do que Bonassi tem de melhor: o retrato instantâneo. Mas que ninguém espere um nexo claro. Trata-se de um exercício metalinguístico sobre o texto na mão do ator, e sua verve barroca extrapola a sátira política que se subentende para se tornar um valor em s, devorando a sim mesma antes de se decifrar. Apesar do bom trabalho da dramaturgista Luciene Guedes, que mantém no ar essa alegria descompromissada de malabaristas de farol, não raro um auto-deslumbre acaba impermeabilizando o espetáculo. É como se os espelhos aprisionassem as palavras em ecos narcísicos, e no atropelo dos trocadilhos, sôfregas de referências eufônicas, e desconstruções iônicas, e cruzamentos telefônicos, rumassem ao trava-línguas do rap se apartando intrépidas das rédeas do sentido. Contagioso. Mas do que é que se falava mesmo? Três estrelas


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