Na Moita


14/07/2006


questão de ordem

Para os leitores fiéies e infiéis não estranharem: apaguei as últimas duas polêmicas cartas ao ombudsmam por solicitação expressa da Folha. Trata-se de correspondência interna que não deve ser divulgada. Não voltarei a fazer isso. Inclusive por não ganhar nada com isso.

Queria apenas insistir junto aos amigos e inimigos que fiz isso somente para refletir sobre a função de crítico. E que a maioria das vezes que me exponho aqui foi para levar chumbo.

Vou parar com esse masoquismo.

 

Abraços a todos.

 

SC

Escrito por Sérgio às 21h54
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12/07/2006


dê-me além, melamed

MELAMED VENDE O CAOS AO DISTINTO PUBLICO
O que vende o poeta-performer-polemista Michel Melamed? Mágico do Tarô, mascate do caos, ele é capaz de descascar qualquer coisa de 36 maneiras possíveis só para provar que toda a vitamina está na casca. Foi assim em “Regurgitofagia”, espetáculo que o lançou em 2004: atado a fios que o condenavam a um choque a cada reação da platéia, a passividade ritualizada denunciava o excesso de estímulos da indústria cultural pós-antropofágica. Uma palavra-valise, “jáinda”, condenava toda novidade ao instantâneo, logo todas as vanguardas ao museu.
Agora unplugged em “Dinheiro Grátis”, livre da falcatrua pseudo-tecnológica que cumpriu seu papel de atrair atenções para sua verve indignada, propõe uma letra nova, junção do “o” e o “a”, para condenar o outro lado, a diversão mercadológica que torna tudo no mesmo.
É a reafirmação do toque de Midas, fábula cuja denúncia quase se perdeu de vista: o ouro avilta o mundo, quando tudo é feito para o lucro. Já não atrai mais um público embasbacado pela novidade, mas um público cara-de-pau, capaz de pagar um extra para vê-lo se humilhar – ou para se humilhar junto com ele.
Vale o preço. Quem paga por uma declaração sincera de amor tem direito a uma antologia completa de cantadas de botequim; quem paga por um poema recebe um da melhor safra dadaísta, que envereda por Drummond e Jacques Prévert. Em dramaturgia aberta, seguindo um roteiro à la carte, quase uma série de idéias soltas em tópicos, o espetáculo se segura por uma qualidade técnica ancorada em uma equipe que acompanha Melamed desde o início.
Assim, a luz de Adriana Ortiz e a trilha de Lucas Mercier e Rodrigo Marçal respondem com precisão e inventividade ao ritmo vertiginoso do fluxo de consciência melamediano, controlado pelo olhar externo e cúmplice da co-diretora Alessandra Colasanti. E se o figurino de Luiza Marcier desta vez chama menos atenção, é porque o foco está na platéia, verdadeiro protagonista deste espetáculo. Da mesma forma a cenografia de Sérgio Marimba soube tirar partido pela primeira vez na história ainda recente do Tuca Arena de sua elegante estrutura em arena completa.
Exposto assim por todos os lados, a força de Melamed vem de sua vulnerabilidade, segundo a estratégia de qualquer pedinte, das ongs à mendicância individual. Enquanto ator, tem a manha brechtiana de fundir o simulacro à emoção mais sincera, para vacinar o distinto público contra qualquer boa intenção declarada. Enquanto autor, toca nas feridas mais incômodas graças ao humor, bisturi afiado, e é com prazer feroz que faz jorrar o pus. Chama para a briga, pede a bola na área com uma imensa fome de gol.
Mais essencial que a primeira peça, embora menos surpreendente, a “Dinheiro Grátis” se seguirá uma outra. O que vende Melamed com a trilogia? Talvez apenas a fé na tribuna pública que todo palco deveria ser, um tabuleiro de dúvidas enquanto antídoto da mesmice esterilizadora. A platéia paulista, mais cordata e menos agressiva que a carioca para quem o espetáculo foi concebido, tem protagonizado um espetáculo mais morno do que poderia. Que acorra para acossar Michel Melamed: é preciso saber até onde ele vai.
Três estrelas

Escrito por Sérgio às 18h29
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