GUARNIERI ASSOCIAVA A ALEGRIA À LUCIDEZ
‘O que me dá alegria é saber que fiz tudo o que pude e sempre da maneira que gosto‘. Grande Guarnieri. Nunca cedeu às armadilhas da auto-mistificação, mas nunca fez menos do que aquilo que achava que deveria fazer. Impunha um imenso respeito e simpatia pela sua humildade - a postura daqueles que olham para o outro com insaciável curiosidade, tentando entender seu ponto de vista.
Tendo aprendido sobre a injustiça não na teoria ideológica mas abrindo os olhos para a vida, como Brecht, passou a infância acompanhando o pai, um maestro militante comunista, em pichações noturnas, ou acompanhando a empregada em incursões pelo morro.
Mudando-se para São Paulo, exerce essa alegria de viver nos palcos, junto com Oduvaldo Viana Filho no Teatro Paulista do Estudante, em 1955, grupo que se junto no ano seguinte ao Teatro de Arena. Desponta assim como um vibrante ator em direções de José Renato (“Escola de Maridos” de Molière) e Augusto Boal (Ratos e Homens).
Em 1958, para encerrar as funções do Arena atolado em dívidas, José Renato tomou a iniciativa de encenar um dos textos desenvolvidos pelos atores em oficinas de dramaturgia. O escolhido foi “Eles não usam Black-Tie”, de Guarnieri, que, como quis a história, não foi um canto do cisne mas um renascimento do teatro nacional. Ficando em cartaz por São Paulo por mais de um ano, fato inédito até então, espalhou pelo Brasil a possibilidade de um teatro sem maniqueismo nem meios termos, que punha o operário e a greve no centro do palco.
A consagração que se seguiu foi internacional, pelas mãos de Maria della Costa, com Guimba,e no TBC, com A Semente, ambas com a cumplicidade de Flávio Rangel e a dura marcação da censura.
O golpe militar de 1964, longe de desmotivá-lo, produziu Arena conta Zumbi (1965) e Arena conta Tiradentes em 1967, com um outro perceiro fundamental, Edu Lobo, e o sistema Coringa, no qual o teatro musical brasileiro se unia ao distanciamento brechtiano.Fazendo letras das músicas, Guarnieri tem um cancioneiro a ser revisitado.
Artistas todos com menos de 30 anos, e todos lutando contra um momento tão duro. A obra que se segue é definida modestamente como “teatro de circunstância” pelo próprio Guarnieri, mas Botequim, Um Grito Parado no Ar e Ponto de Partida, sobre o assassinato de Herzog, são imprescindíveis documentos de época. “Se você me perguntar se tenho medo da morte, não tenho, me enturmo com o que vier.” Grande Guarnieri. Que a tua dignidade nos ilumine em tempos tão duros.


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