Na Moita


22/07/2006


GUARNIERI ASSOCIAVA A ALEGRIA À LUCIDEZ

‘O que me dá alegria é saber que fiz tudo o que pude e sempre da maneira que gosto‘. Grande Guarnieri. Nunca cedeu às armadilhas da auto-mistificação, mas nunca fez menos do que aquilo que achava que deveria fazer. Impunha um imenso respeito e simpatia pela sua humildade - a postura daqueles que olham para o outro com insaciável curiosidade, tentando entender seu ponto de vista.
Tendo aprendido sobre a injustiça não na teoria ideológica mas abrindo os olhos para a vida, como Brecht, passou a infância acompanhando o pai, um maestro militante comunista, em pichações noturnas, ou acompanhando a empregada em incursões pelo morro.
Mudando-se para São Paulo, exerce essa alegria de viver nos palcos, junto com Oduvaldo Viana Filho no Teatro Paulista do Estudante, em 1955, grupo que se junto no ano seguinte ao Teatro de Arena. Desponta assim como um vibrante ator em direções de José Renato (“Escola de Maridos” de Molière) e Augusto Boal (Ratos e Homens).
Em 1958, para encerrar as funções do Arena atolado em dívidas, José Renato tomou a iniciativa de encenar um dos textos desenvolvidos pelos atores em oficinas de dramaturgia. O escolhido foi “Eles não usam Black-Tie”, de Guarnieri, que, como quis a história, não foi um canto do cisne mas um renascimento do teatro nacional. Ficando em cartaz por São Paulo por mais de um ano, fato inédito até então, espalhou pelo Brasil a possibilidade de um teatro sem maniqueismo nem meios termos, que punha o operário e a greve no centro do palco.
A consagração que se seguiu foi internacional, pelas mãos de Maria della Costa, com Guimba,e no TBC, com A Semente, ambas com a cumplicidade de Flávio Rangel e a dura marcação da censura.
O golpe militar de 1964, longe de desmotivá-lo, produziu Arena conta Zumbi (1965) e Arena conta Tiradentes em 1967, com um outro perceiro fundamental, Edu Lobo, e o sistema Coringa, no qual o teatro musical brasileiro se unia ao distanciamento brechtiano.Fazendo letras das músicas, Guarnieri tem um cancioneiro a ser revisitado.
Artistas todos com menos de 30 anos, e todos lutando contra um momento tão duro. A obra que se segue é definida modestamente como “teatro de circunstância” pelo próprio Guarnieri, mas Botequim, Um Grito Parado no Ar e Ponto de Partida, sobre o assassinato de Herzog, são imprescindíveis documentos de época. “Se você me perguntar se tenho medo da morte, não tenho, me enturmo com o que vier.” Grande Guarnieri. Que a tua dignidade nos ilumine em tempos tão duros.

Escrito por Sérgio às 19h51
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RIO PRETO DIALOGA COM SEU FESTIVAL

O Festival Internacional de Teatro de Rio Preto chega ao final de sua sexta edição dando provas de maturidade. Cumpriu uma agenda extensa sem se inflar artificialmente, com espetáculos nacionais e internacionais relevantes e atraentes. Sem abandonar a produção local, livrou-se definitivamente do que havia de paternalista da sua fase amadora, e agora, ao invés de jurados pontificando acertos e erros, convocou críticos do Brasil todo para acompanharem as montagens, além de propiciarem instigantes debates sobre a dramaturgia contemporânea e o espaço do teatro na mídia. A primazia da reflexão se fez presente também em lançamentos editoriais importantes, como o “Dicionário do Teatro Brasileiro: Temas, Formas e Conceitos” da Editora Perspectiva.
Mais do que apontar “os melhores”, dever típico de um mercado inutilmente competitivo, cabe agora sugerir nomes que representem o que por aqui se viu. Em meio à forte revalorização do ator - um módulo do FIT pôde reunir seis importantes monólogos- Eduardo Okamoto teve uma merecida consagração. Com uma causa urgente - o genocídio brasileiro dos meninos de rua - e tendo o LUME como formação para uma linguagem corporal estonteante, “Agora e na Hora de Nossa Hora” é uma montagem capacitada para mudar o mundo.
Do lado da direção, merece destaque Bhá Bocchi Prince, que tendo vencido como no ano passado o Aldeia FIT, festival regional que antecede o internacional, ganhou o direito de voltar a mostrar o talento de seus alunos. Repetindo méritos de “Navalha na Carne”, sua leitura agora do “Abajur Lilás” atendeu plenamente as exigências naturalistas de Plínio Marcos sem cair no piegas nem no simulacro, com um ritmo e um despudor que habilitam sua Cia Núcleo 2 a se apresentar em qualquer cidade.
Em contrapartida, Rio Preto acaba sempre deixando sua marca especial nas montagens visitantes. Newton Moreno incorporou fantasmas locais no texto de “Assombrações do Recife Velho”; Kofi Kôkô instalou seu ritual contemporâneo “Les Feuilles qui Rèsistent au Vent” aos pés de uma seringueira ancestral que mereceu deferência de atriz nos agradecimentos. Nas ruas, A Nau de Ícaros teve sua “Cidade dos Sonhos”, que narra o resgate do tédio pela alegria da arte, absorvida como um camaleão na Parada Gay local, e até os tarimbados Alê Roit e Rodrigo Matheus, do Circo Mínimo, ao apresentar “Quixote”, abafados pela desenvoltura das participações locais, vaticinaram: “todo mundo é ator nessa cidade!”. Que o diga Enéas Rocha, barbeiro da rodoviária local, que teve sua vida transformada pelo teatro.
Dias tão azuis. São José do Rio Preto merece o festival que tem. Agora é segurar o fôlego até o ano que vem.

Escrito por Sérgio às 12h51
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21/07/2006


FIT EXPÕE O NATURALISMO EXPERIMENTAL

SÉRGIO SALVIA COELHO
Crítico de teatro

O público, reunido ao ar livre, vê do outro lado da rua os atores transeuntes lutando contra uma chuva de sonoplastia. Um motoqueiro de passagem aproveita para acenar, transeunte-ator. Poucos minutos depois, o público verá o resto de peça - Dilacerado, da Cia Os Dezequilibrados - em uma sala em ruínas da Swift. Lá, os atores darão depoimentos sobre suas perdas pessoais, procurando equilibrar humor e patético, nem sempre evitando o piegas, mas com simplicidade e honestidade. O diretor Ivan Sugahara aproveita a contribuição dos seus atores, inclusive projetando ao fundo fotos e filmes caseiros, mas sabe que deve entremear os monólogos com uma marcação estilizada, quase um teatro-dança, que expõe melhor que em palavras o amor e a perda.
Uma geração menosprezada busca assim compartilhar suas memórias, e se foi empobrecida pela televisão, é ela que deverá ser reciclada. Sugahara, no entanto, deixa a platéia na função não de um interlocutor, mas de uma testemunha mais ou menos compassiva, como um terapeuta -erro estratégico que é evitado na interatividade de sua montagem seguinte, "Combinado".
O naturalismo de televisão, baseado no espontâneo e no cotidiano, costuma ser julgado como nocivo aos atores, que só no teatro poderiam dar provas de serem criadores. No entanto, décadas dessa modalidade, exercida também pelos melhores atores nacionais de várias gerações, começa a transbordar dos limites canhestros de uma dramaturgia ainda refém do melodrama e da produção industrial.
De fato, o teatro experimental possibilita em seu aqui-agora a interlocução, e esse é o grande trunfo de “A Falta que Nos Move...”, do grupo carioca Cia Vértice do Teatro. É como passar, para usar Pirandello como parâmetro, do “Homem com a Flor na Boca” para “Seis Personagens em Busca de um Autor”. A diretora Christiane Jatahy tem como Sugahara a memória afetiva de seus atores como matéria prima, mas não apaga a luz da platéia.
No palco, cinco atores esperam a chegada de um sexto, para começar a peça. Há um jantar a ser feito em cena, naturalisticamente, com salada e uma picanha posta no forno elétrico. O carisma e a desenvoltura dos atores faz, por um lado, que não se estranhe a proposta- e quando o público percebe que a peça já começou há muito tempo, já faz parte dela ativamente. Por outro lado, o valor alegórico da situação -e aqui cabe um longo ensaio sobre o teatro enquanto banquete compartilhado- é transmitido por pequenos deslocamentos do real, histórias interrompidas ao meio e retomadas sob outro ponto de vista, cenas simultâneas e longos silêncios, que vão ganhando uma dignidade beckettiana.
Esse novo naturalismo não tem nada de mediocre, nem de fácil. Marcações milimétricas devem passar despercebidas, e o treino dos atores e do público para essa espontaneidade trucada começa a render montagens antológicas. Essa “A Falta...” se colocando ao lado do “Ensaio.Hamlet”, de Enrique Diaz, também presente neste FIT, é a geração perdida mostrando finalmente a que veio, reciclando com galhardia a mediocridade a que foi exposta.
Duas estrelas para Dilacerados
Quatro para A Falta que Nos Move, ou Todas as Histórias são Ficção

Escrito por Sérgio às 11h54
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18/07/2006


Raul Cortez sempre foi um provocador, ou seja, alguém que seduz o outro ao desafiá-lo. Contrariando o desejo do pai que o queria advogado pelo amor ao teatro aprendido desde a infância nos quintais do bairro de Santo Amaro, entrou no teatro pela porta da frente: contracenando com Cleyde Yaconis e Walmor Chagas no Teatro Brasileiro de Comédia. A peça era "Eurídice", e quando faria sua primeira intervenção no palco, a leitura de uma carta de Eurídice a Orfeu, perdeu a voz, talvez por exigir o máximo de si mesmo desde o início.

Mantendo essa obstinada auto-exigência – que estendia com rigor a seus colegas de palco – sua voz soou desde então em momentos chave do teatro brasileiro. Integrou a companhia de Cacilda Becker, na qual conheceu Célia Helena, formando assim uma parceria na vida e nos palcos fecunda e plena: ambos com o mesmo talento e a mesma ética, ambos empenhados em compartilhar isso através da formação de jovens atores, responsabilidade hoje endossada com igual firmeza pela filha Ligia Cortez.

Seu nome está igualmente associado ao de Antunes Filho, em "Yerma", de Garcia Lorca, em 1963, e "Vereda da Salvação" de Jorge Andrade, em 1964. Entre essa duas montagens, fez o Teteriev de "Pequenos Burgueses" de Gorki, na montagem antológica do Teatro Oficina, o que lhe rendeu os mais importantes prêmios da época: o Saci e o Governador do Estado. Voltaria a trabalhar com Antunes anos depois, em "A Hora e A Vez de Augusto Matraga" (1986) e "Drácula".

Seu arrojo o fez participar de montagens polêmicas: "Os Monstros", de 1968, um dos primeiros happenings do Brasil, e sobretudo no "Balcão", de Jean Genet, dirigido por Victor Garcia no teatro Ruth Escobar, onde ficava nu. Este despudor também era ostentado em montagens que expunham sem disfarces a temática homossexual: surgia transvestido em "Rapazes da Banda", de 1970, assim como em "Greta Garbo, quem Diria, Acabou no Irajá".

Chamado para fazer o protagonista de "Rasga Coração", a peça testamento de Oduvaldo Vianna Filho, pensou primeiro em recusar, por não ter se engajado politicamente em sua vida pessoal tão intensamente quanto o personagem exigia. Mudou de idéia ao saber que sua segunda filha, Maria, estava sendo amamentada no mesmo quarto no qual Vianinha havia morrido: "Que engraçada maneira que Vianna arranjou de me dar a resposta". E seu Manguari Pistolão se tornou outro personagem inesquecível, de uma extensa galeria que inclui o "Lobo de Ray-ban" de Renato Borghi, em 1987.

Fez espetáculos solos marcantes, no qual cantava e dançava, em "Ah..mérica" (1985) e "Um Certo Olhar" (1999), que entremeava com sua bem sucedida carreira na televisão. Mas sua consagração talvez tenha vindo com o "Rei Lear", de 2000, montagem dirigida por Ron Daniels, na qual contracenava com sua filha Lígia e vários atores formados pela escola Célia Helena.

Foi nessa ocasião que tive notícia da peculiar pedagogia de Cortez. Um aluno meu, que participava da montagem fazendo uma ponta na qual teria que entregar uma mensagem nas mãos do Rei, me disse que recebeu o seguinte desafio na coxia, assim que começou a temporada: "Você está encrencado. Cada dia eu vou fazer isso de uma maneira diferente".

A morte de Raul Cortez, como foi a de Vianninha, serve para nos instigar a seguir em frente. O teatro está em luto junto com o cinema e a televisão, deixando de lado preconceitos e mesquinharias. Que o muito que ele fez inspire o muito que se há de fazer ainda.

Escrito por Sérgio às 21h44
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abandono de posto

Há um posto vazio em São José do Rio Preto esta noite.

 

O nome disto é envelhecer.

Escrito por Sérgio às 00h08
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17/07/2006


FIT ASSUME O RISCO DE ULTRAPASSAR FRONTEIRAS

Só os que se arriscam a ir longe demais são capazes de descobrir o quão longe se pode ir, declarava T. S. Elliot. Na sua sexta edição, o Festival Internacional de São José do Rio Preto (FIT) já conquistou prestígio e maturidade suficientes para encarar muitos riscos. Desdenhando ser uma vitrine de lançamentos comerciais, enfoca resolutamente "a arte de explorar condições favoráveis para uma nova construção".

É como um festival de gastronomia que se propusesse repensar a panela. Para isso, a curadoria deve ter um faro não para o sucesso mas para o relevante, escolhendo-o tanto entre os consagrados internacionais quanto entre os que vem sendo acompanhados pelo próprio FIT, conquistando assim uma visibilidade para seus focos de resistência.

É o caso da Cia Carona de Teatro de Blumenau, que em 2002 já marcava presença com Os Camaradas, um espetáculo pungente e essencial que apontava os méritos da companhia. Neste "A Parte Doente" o diretor Pépe Sedrez segue dissecando a exclusão social sem menosprezar a pesquisa estética. No palco, três focos de luz delimitam como em campos cirúrgicos três solitários em crise. À esquerda, Fábio Hostert faz um jovem professor universitário que revê sua definição sexual; ao centro, James Beck é um cirurgião com fixação mística pela pureza; à direita, Paula Braun é uma prostituta hipocondríaca.

Cada universo é metodicamente definido: por cores (bege, branco, azul) adereços (uma cadeira sintetiza cada estilo) e ações (travestir, barbear, maquiar), e os monólogos sucessivos vão se tornando diálogos à medida que os universos se colidem. Na Cia Carona de Teatro, os atores assinam também trilha, maquiagem e cenografia, e o texto do dramaturgo e psiquiatra Gregory Branco Haertel, que tem momentos de boa densidade poética, parece feito sobre medida para eles.

No entanto, o resultado acaba ficando aquém do desafio proposto. Enquanto Hostert tem uma atuação vigorosa e delicada e Beck cumpre bem sua função, Braun nem sempre evita a caricatura. A dimensão alegórica perseguida no texto, que em seus bons momentos remete a um Nelson Rodrigues entre as quatro paredes de Sartre, se atarda desnecessariamente em emotividades que a direção preenche com efeitos de cena (uma chuva cai, ouve-se Callas e há um excesso de trocas de luz, quando o essencial já foi dito).

Para evitar as tentações do pathos, a companhia peruana Lot Teatro tem uma receita radical. Trabalha preferencialmente com não atores, instruídos a não representar, em um desconforto de jogo de futebol sem bola, segundo a metáfora do próprio diretor Carlos Cueva. Recusando hamletianamente o discurso ideológico pré-moldado, da ilusão publicitária e mercantilista, o grupo produz espetáculos ásperos, geralmente em espaços abandonados, as ‘zonas fronteiriças"que denunciam por si só a falta de sentido do mundo capitalista (e nisso remetem muito à radicalidade do Teatro da Vertigem de Antonio Araújo).

Matéria Material, assim, é quase uma performance. No antigo graneleiro da Swift, de linhas arrojadas e desoladoras, Lucia Desulovich, Diego Castro e Rafael Mendieta, jovens atores com precisão e visceralidade, cumprem ações simples e deslocadas do cotidiano, tendo como única fala fragmentos desconexos do escritor alemão autista Birger Berlin. Não é um espetáculo que visa o agradável, e o público médio que o abandona antes do fim, irritado com o que acaba soando como um hermetismo frio, pode opinar que estes criadores foram longe demais. É o FIT cumprindo o que promete.

(três estrelas para os dois espetáculos)

Escrito por Sérgio às 11h40
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