Na Moita


27/07/2006


CIA EZEQUIEL GARCIA-ROMEU RECRIA A HUMANIDADE PELA SOLIDÃO

Diante de sua biblioteca imensa, garantia de seu saber privilegiado, o intelectual posa solenemente para a posteridade. A imagem é tão emblemática para o século 20 quanto foi para o 19 a foto da família feita em estúdio - e, muito em breve, igualmente obsoleta. Vai sendo substituída imperceptivelmente no atual universo virtual pelo semi-anonimato dos fotoblogs, no democrático e esquizofrênico fluxo de consciência das câmeras digitais. Tanto maior é a nostalgia de "Les Aberrations du Documentaliste" espetáculo que a companhia do franco-argentino Ezéquiel Garcia-Romeu apresentou com uma excelente acolhida do público no Festival Internacional de São José do Rio Preto e que agora começa a temporada no Sesc Santana.

Inserido no restrito universo do teatro de bonecos para adultos, o diretor-manipulador eleva ainda mais a aposta ao limitar sua platéia. "La Méridienne", espetáculo da mesma companhia que teve já uma temporada relâmpago na cidade, era radical: um boneco minúsculo manipulado pelo diretor-cenógrafo expunha durante cinco minutos "a fragilidade do pensamento humano diante do tempo" para um único espectador, que em seguida era convidado a compartilhar suas impressões com o público que esperava ainda, em torno de uma mesa servida.

Nesta experiência, a solidão ainda é o tema, embora o público seja um pouco menos restrito (são 38 por sessão), e novamente uma discreta interatividade procura sensibilizá-lo para uma profundidade essencial.

Conduzido por um labirinto - e a referência à Borges é imediata - o público começa espiando escondido os devaneios desse demiurgo do mundo das idéias, através da transparência das coxias, até poder sentar na platéia.

O bibliotecário é um ator. Mas será mesmo? A precisão de seus movimentos, o carisma de sua fisionomia eleva Jacques Fornier à condição de boneco, na utopia de Gordon Craig - e o espetáculo parece remeter diretamente ao revolucionário encenador inglês, que passou as últimas décadas de sua vida recluso elaborando obsessivamente espetáculos de animação.

Um rápido arremesso de dados por um momento ameaça levar à erudição da biblioteca do simbolista Mallarmé - mas nada haverá de hermético no espetáculo. Pelo contrário: a grande referência do encenador é Fernando Pessoa, e logo tudo banhará na sábia puerilidade de Alberto Caeiro, com o desassossego de Bernardo Soares.

O tema de Deus diante de sua criatura é de um fascínio incontornável para os manipuladores, e o espetáculo se filia pela sua poesia densa, quase ritual, ao grupo Contadores de Estórias de Paraty. Mas enquanto o grupo de Marcos Caetano Ribas surge como deuses protetores de suas frágeis e desamparadas criaturas (basta evocar o pungente parto que Rachel Ribas faz de uma boneca, com as mãos nuas, no "Em Concerto"), Fornier não é manipulador. Os bonecos que brotam de sua mesa, como alucinações, animados habilmente por baixo pelo diretor e pelo co-diretor e co-cenógrafo François Tomsu, parecem ter vida própria.

Uma vida efêmera e sem nexo, no entanto. Esses homúnsculos, como caricaturas derrisórias da humanidade, se auto-destroem na disputa pelo mundo, sem que o criador possa fazer algo por eles. Uma alegoria tão clara sobre os atuais tempos de guerra, feita com tanta delicadeza, que qualquer tentativa de acrescentar sentidos leva inevitavelmente à diluição da força do espetáculo.

O sono da razão produz monstros, e não há nada que um documentalista possa fazer contra essas aberrações. Resta compartilhar da sua solidão, à espera de tempos melhores.

Quatro estrelas

Escrito por Sérgio às 11h26
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