GERO CAMILO COMPARTILHA A PAIXÃO EM MONTAGEM DE AMIGOS Olhando assim, ninguém dá nada por uma pera - fosse ela no lugar na maçã, o mundo talvez permanecesse paraíso. Até que se crave os dentes em uma. Assim é Gero Camilo: palmo e meio de gente, a humildade nordestina sorridente, até ele por a gente no bolso. Solar, enorme de escutar os outros, e sabendo contar o que ouviu. Este "Cleide, Eló e as Peras" é a última floração da "Macaúba da Terra", volume de histórias que Gero lançou em 2002 e do qual extraiu pacientemente vários espetáculos. O tom da Macaúba varia das "bastianas", de realismo fantástico regional, a "entreatos" do teatro do absurdo. Urbano sempre, em geral de cidades pequenas, transcende o regional como Guimarães Rosa, mas com uma prosa fluida como João Cabral. Se "Aldeotas", seu anterior e inesquecível espetáculo, discorria sobre a amizade, esta educação pela pera vai expor a paixão. Como uma história que se ouve na rua, de um desconhecido, ficamos primeiro sabendo de Eló, descrito por aquela que enlouqueceu de amor por ele. Paula Cohen, girando sozinha em uma cadeira de rodinhas, sabe se tornar imensa pela contenção, quase sussurando às vezes, se envergonhando de desejo, mas nunca se arrependendo das noites em claro que passou esperando seu amor. Eló é o boêmio da cidade, seduz milionários e mendigos, e é cruel por não saber ser exclusivo, até o desfecho trágico. Na segunda história, como na primeira, somos apresentados ao amado pelos olhos do amante. Gero Camilo entra em cena fazendo rir com sua dor. É um vigia que se apaixonou por Cleide, e aprendeu com ela o pansexualismo: seu amor se estende às mangueiras e aos bancos de estação, todos os lugares nos quais se amaram. Raramente no teatro se vê um sexo tão explícito de poesia, sem precisão de nudez nem vulgaridade, uma reconquista pagã do paraíso. Na terceira cena, supresa, os dois mitos se encontram por acaso. Em desejo mútuo, Cleide e Eló não se desmistificam, mas se humanizam. Conhecem-se de reputação, mas sabem que semelhantes não se devem atrair, e que estão ali para os outros: "Quem você procura chora no banheiro com um pedaço de bolo e uma faca na mão" diz Eló a Cleide, por ter aprendido o amor exclusivo. E a anedota vira fábula sem que a gente perceba quando. Um espetáculo tão generoso assim só pode ter origem na amizade. Houve uma turma na Escola de Arte Dramática que nunca mais se separou, embora nunca se denomine por nome de companhia. A ela pertencem não só Gero Camilo e Paula Cohen, mas outros atores cúmplices de talento múltiplo, o diretor Gustavo Machado, a iluminadora Alessandra Domingues, a figurinista Tatiana Thomé, além dos amigos que fizeram a trilha. Cada qual preciso em sua função, mas sem que haja hierarquia de méritos: o que conta é o espetáculo. Assim, logo na primeira cena, quando Gero entra e canta, contra a cidade por trás das vidraças, o coração da platéia se abre como na casa de amigos, e nada nos falta mais. Quatro estrelas


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