Na Moita


12/08/2006


Crítica/teatro

Atriz narra pesadelo de guerra com fina ironia

SERGIO SALVIA COELHO
CRÍTICO DA FOLHA

Em tempos de guerra no Líbano, é inoportuna uma peça sobre o Holocausto? Não, muito pelo contrário. Aqui, um rapaz de 17 anos sai para comprar pão e, sem nenhuma explicação, é preso e mandado para um campo de concentração em que nada faz sentido. Antes de qualquer contexto histórico e político, antes de se perder em justificativas e culpas, é preciso condenar como inadmissível qualquer atentado à liberdade e à dignidade, em qualquer época e lugar. Renata Jesion, jovem atriz que já trabalhou com Antunes Filho e Gerald Thomas, conta em "121.023J" a história de seu pai, Majer Jesion. Não procura transformá-lo em herói, não alardeia a dor insuperável que costuma se diluir em lágrimas antes de se expor de modo essencial. Faz uso de um fino humor, mais próximo da ironia amarga de Franz Kafka do que a carnavalização amenizadora de Roberto Benigni (diretor e protagonista de "A Vida É Bela"). Sabe que, mais do que por bravura, a sobrevivência nessas situações-limite foi devida ao acaso, o que engloba a sua própria existência: contar a aventura do pai é buscar a razão por ter podido nascer.

Tática de guerra
O número do título faz assim menção à desumanização da guerra, tanto na tática perversa de tatuar um número que substitua a história pessoal do prisioneiro quanto na redução estatística das baixas: lê-se nos jornais quantas vítimas houve no dia e mais raramente quem eram. Mas também traz uma mensagem secreta: é a junção da data de nascimento de seu pai com a sua, junto à inicial do sobrenome. A afirmação da vida estando assim discretamente no núcleo da narrativa, o seu contexto é voluntariamente o mais geral possível. Não se pronuncia a palavra "judeu" nem nenhum nome histórico. Nesta peça, construída em anos de pesquisa de relatos, pouco acontece, mas essa simplicidade é fundamental para que o seu alcance seja o mais amplo possível. O rapaz não desiste da vida porque uma voz dentro dele o impede: é a voz de sua filha, mas também de si mesmo no futuro, que traz a necessidade de continuar. Ariela Goldmann honrou a responsabilidade de dirigir esta montagem com o máximo de delicadeza. Com uma direção de arte minimalista, que chega à miniatura em uma cena antológica que revela as câmeras de gás, tira o máximo proveito da figura de adolescente desajeitado de Renata, que atrai uma imediata simpatia. Apoiando-se no contraponto eficiente de Mauro Schames e Zemanuel Piñero, a atriz expõe sua história como um estranho conto de fadas, que deve sempre ser contado, por ser um pesadelo repetitivo. Senhores da guerra, apressem-se em encontrar uma saída. As pessoas precisam comprar pão.


121.023J
    

Escrito por Sérgio às 10h06
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11/08/2006


A PEDRA DO REINO RECONQUISTA O BRASIL APÓS UM QUARTO DE SÉCULO

Há mais de vinte anos atrás, em uma apresentação especial para a família de Suassuna da adaptação de seu romance "A Pedra do Reino" por Antunes Filho, um figurante errou uma curva durante uma "cavalgada" e fez desabar uma das pedras, feitas de um amontoado de cadeiras. O fato do projeto então não ter sido aprovado foi tema de devaneios culpados para ele desde então. Que esse pobre ator tenha se tornado hoje o crítico destas linhas é um bom exemplo da ironia do destino, e, declarada a parcialidade do seu ponto de vista, um convite a que o leitor veja a crítica além do relato de uma amizade conturbada.

São raros os exemplos em teatro de uma montagem que tenha empregado um quarto de século para sua concepção. Mais precioso portanto é o fato de chegar em um resultado tão límpido, despojado, essencial. Para quem participou dos primeiros esboços, é possível afirmar que pouco da estrutura original, arquitetada com paixão por, entre outros, Cecília Homem de Mello, foi abandonada.

Ainda se trata do depoimento de Quaderna, uma espécie de Dom Quixote do terceiro mundo, réu de um processo político do qual se esquiva com a verve de um cordelista. Em contraste com a trama simples, os momentos de delírio estratégico enchem o palco com o minimalismo barroco do melhor Antunes.

Depois de anos pontificando sobre tragédia grega, na aplicação de um metódo de ator cuja sobriedade não raro soava impostada, Antunes volta para casa. Qua acorram os fãs fiéis: estão em cena o coro carnavalesco de Macunaíma, a fila de cadeiras de Toda Nudez Será Castigada, o narrador-figurante de Romeu e Julieta. Mas essa volta ao terreno seguro não significa uma capitulação.

Mudou Antunes e mudou o Brasil. Tudo o que havia de setencioso, quase lacrimoso, da primeira versão da "Pedra" caiu por si só- assim como o triunfalismo heróico se desmascarou nas sessões das CPIs. Não se trata aqui de propor Quaderna-Suassuna como herói da raça, um novo Conselheiro a ser seguido; nem do anti-herói auto-indulgente Macunaíma. Palhaço que não perde a majestade, Quaderna refaz seu reino pela força da ingenuidade, sua arte armorial chega ao arquétipo pela mão do velho faceta do pastoril.

E é aí que o jovem ator Lee Thalor se torna a pessoa certa na hora certa. Antunes, que trabalha com atores maleáveis em coros camaleões, necessita igualmente de um protagonista artilheiro. Thalor ocupa com firmeza um cargo de responsabilidade, de brilhantes antecessores, como Cacá Carvalho e Marcos Oliveira. Seu rosto de profeta mineiro, de meio sorriso que camufla a inteligência, sua precisão de movimentos, nas rotinas tradicionais do palhaço, fazem, junto à vibrante cenografia de Juliana Fernandes, um universo no qual a trágica máquina do destino grego dá lugar a hábil mecânica da gerinconça, no Brasil de Mestre Vitalino.

Assumindo-se enquanto fraude hilária, para melhor expor a sua dor, Quaderna vem nos restituir auto-estima depois da dura prova das CPIs. Contra o charlatonismo das mea-culpas pela metade, que a imaginação venha ao poder: a República não é legítima. Entre a Quaresma e o Carnaval, o Brasil está presente como há tempos não se via nos palcos do CPT. Bem vindo de volta, Mestre Antunes.

Quatro estrelas

Escrito por Sérgio às 11h53
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08/08/2006


Como se eu fosse o Gero

-Larga a mãe. Vai brincar com os bem-ti-vi.

-Nem. Bicho besta. Só sabe brincar de esconder.

Escrito por Sérgio às 20h04
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ELE NÃO ERA BRECHTIANO

Como todo pensador fundamental, Bertolt Brecht baseia suas teorias em uma prática constante, sempre disposto a se questionar, a voltar para trás, se contradizer. Por isso os brechtianos, assim como os marxistas e freudianos, não raro perdem tempo em batalhas fratricidas, reivindicando ser porta-voz do mestre ao seguir regras de épocas diferentes.

Qual o verdadeiro Brecht? O anarquista dos cabarés de Mahagonny, o didata do partido em Berlim? O famoso "distanciamento" preconizado é simples variação das técnicas de Meyerhold e Valentim ou uma condenação política à emoção do teatro aristotélico? Se os risos e as lágrimas são manifestações do teatro burguês, o que fazer com a escachada Um Homem é um Homem e a comovente Mãe Coragem?

O que parece irrefutável em um breve sobrevôo em sua carreira é que ele era antes de tudo um homem de ação. Desde os espetáculos improvisados no front da primeira guerra, na qual era um enfermeiro perplexo com a falta de sentido do mundo, até a última remontagem de Galileu Galilei no Piccolo Teatro de Milão, reescrito sem nenhuma auto-indulgência por ser já um "clássico", Brecht procurava sempre responder ao presente. A emoção era perigosa na Alemanha nazista, e o cinismo era o único antídoto contra a exaltação expressionista. No entanto, com Hitler no poder, para explicar aos de fora como era viver sob o nazismo, a emoção foi um utensílio indispensável para "Terror e Miséria no Terceiro Reich".

Da mesma forma, cada país reinventou seu Brecht diante dos desafios locais. No Brasil da ditadura militar, o Arena contou Zumbi com uma estrutura épica tão próxima de Brecht quanto das alegorias do teatro de revista. 50 anos depois, a Cia Livre de Cybele Forjaz contou Danton já livre do maniqueísmo, com uma falta de certezas próxima de Heiner Muller, o sucessor do mestre em Berlim. Por isso, nada mais anti-brechtiano preconizar o épico como solução universal, ostentando menosprezo por outras formas possíveis.

O teatro político e dialético de Brecht morre quando se torna doutrina de partido. Seja qual for o enfoque adotado, é preciso não perder de vista que o grande desafio para o teatro não é mudar o mundo, mas refletir as suas mudanças. E como dizia o bem humorado Bertolt: "Só sei que brechtiano eu não sou!".

Escrito por Sérgio às 11h46
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