O AVARENTO ESBANJA GENEROSIDADE Quando uma montagem reúne tantas boas condições assim, é quase tentador cair no pessimismo de achar que não vai ser bom. Paulo Autran decidir fazer O Avarento de Molière é, por si só, um acontecimento: a inteligência e a limpeza técnica que o texto exige está à altura de poucos - como ele. Convidou para isso Felipe Hirsch, que trouxe sua fiel parceira Daniela Thomas e um elenco no qual ninguém faz sombra nem escada para ninguém. E se a montagem dá certo, do jeito que deu, é porque estão todos aí pelo amor ao jogo. Hirsch não tenta ‘assinar o nome’ com piadas grosseiras em cima de um clássico, como autodenominados encenadores geniais fazem sistematicamente. Serve ao autor, procurando entender a mecânica de seu humor; serve ao elenco, deixando-os livres na sua inteligência fraterna. E o público ri de Molière, dos seus quiprocós, da rapidez de suas réplicas, com um frescor que a França já não pode ter mais: como se fosse na estréia. A ciência de Paulo Autran de rejuvenescer no palco com uma precisão de milímetros, com uma sabedoria de criança que brinca com sua imagem, se multiplica quando bem acompanhada. Karin Rodrigues lá está, fazendo dois personagens, desenvolta como nunca. Elias Andreato, como o criado Flecha, tem a ciência da commedia dell’arte na ponta da língua, na clareza da postura, na ingenuidade calculada da entonação, reiventando Arlequim com sotaque brasileiro. Tadeu di Pyetro domina o tom solene a ser desautorizado, tarefa mais difícil do que se pensa. Luciano Scwab, na caracterização do ambíguo criado Valério, não se deixa intimidar pelos veteranos, jogando de igual para igual. E o elenco jovem faz uma façanha: com maturidade, sem acrescentar cacos, dão uma leitura irônica para os namorados sem a qual eles cederiam ao convencional. Cláudia Missura, enfim no papel de patroa, só de suspirar já põe o público no bolso. Igualmente impagável está Gustavo Machado, que inventa um modo de correr sem perder a pose, e Arieta Corrêa, que trocando a tragédia pela comédia não perde a delicadeza que exibia no CPT de Antunes. Um elenco que se olha nos olhos segurando o riso, no prazer de manter no ar a peteca de Molière, nobre e prazeirosa tarefa que já foi da trupe de Jean-Louis Barrault, e que não tem pátria a não ser o palco. Catalizador dessa química, Hirsch se diverte também com a relojoaria das marcas circulares, se limitando a contar bem a história e deixar os atores mostrar tudo o que sabem. O distanciamento moderno fica por conta do cenário de Daniela Thomas, marcado com requinte pela luz de Beto Bruel: caixas de madeira contendo a mudança, compartimentando o desejo segundo as convenções, mesmo tendo ao fundo um céu aberto de possibilidades. Este Avarento tem a rara elegância de ser antológico sem chamar atenção para o fato. O público sai satisfeito com Molière, sai encantado com Paulo Autran, mesmo na rara circunstância de nunca ter ouvido antes esses nomes. Quando o teatro é vivo assim, não importam nomes, mas as presenças, o jogo vivo do palco. Ver o Avarento é lembrar porque teatro é bom. Quatro estrelas


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