BROOK TRAZ UMA DESPOJADA FÁBULA SOCIAL
"Sizwe Banzi Está Morto", o mais novo espetáculo de Peter Brook, pode contrariar as expectativas de quem espera uma encenação revolucionária de um texto grandiloquente. Primeiro, porque o diretor, que há décadas serve de referência em seu Centro Internacional de Criação Teatral em Paris, parece ter definitivamente aberto a mão da responsabilidade de trazer o novo, preferindo se dedicar ao relevante. Assim, a exemplo de Tierno Bokar, a última peça que trouxe ao Brasil, trata-se aqui de uma encenação despojada que se apóia em dois grandes atores, ambicionando apenas contar uma história simples.
Depois, porque o texto do sul-africano Athol Fugard não é uma recente revelação da dramaturgia mundial: criado em 1972 em Cape Town, dois anos depois foi premiado pela crítica em Londres, já tendo passado pela Broadway. O que não diminui seu mérito - Fugard, que abandonou estudos de antropologia na faculdade para ser o único branco da tripulação de um navio, escreveu este "Sizwe Banzi" junto a dois atores negros, John Kani e Winston Ntshona, dando visibilidade internacional a um tipo de dramaturgia de resistência contra o apartheid: as township plays.
Este tipo de "teatro pobre", bem humorado e vital, próximo tanto das tradições africanas dos contadores de história quanto das peças didáticas de Brecht, se encaixou nas necessidades atuais de Brook, que tinha para isso intérpretes ideais. Habib Dembélé, simpático e ferino, é um ator dramaturgo fundador do Teatro Mandeka em Mali, com prestígio suficiente para uma candidatura de protesto à presidência da república. Tem uma técnica segura de se desdobrar em vários papéis, construindo até o cenário com onomatopéias e gestos precisos. Em contraponto, o congolês Pitcho Womba Konga, no papel título, traz sua experiência de rapper para um depoimento mais denso, tocando em feridas sem cair no melodrama.
Contam histórias interligadas: um operário se torna fotógrafo para fugir à submissão ao grande patrão americano "Ford Júnior"; em seu estúdio, encontra Banzi, que lhe conta como trocou de identidade com um morto para conseguir trabalho. Assim, se a primeira parte é quase um stand up comedy de Dembelé, algo como o remake de Tempos Modernos feito por Spike Lee, a segunda parte envereda para a fábula moral, nos moldes de "Um Homem é um Homem" de Brecht.
O texto tem qualidades suficientes para transcender a denúncia política episódica em uma reflexão atemporal sobre a desumanização do racismo. Se a cor negra é usada em uma bela metáfora sobre estúdio de fotos onde a maior parte da trama ocorre - uma "câmera negra dos sonhos" - a palavra final não deixa concessões: um homem de pele negra nunca estará livre de constragimentos. Juntando três nações africanas, compartilhando a indignação multicor contra a discriminação social, este espetáculo é um ensaio simpático de técnica apurada, à altura de vários outros espetáculos em cartaz na cidade, que merecem o mesmo prestígio de Peter Brook.
Três estrelas


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