Na Moita


30/08/2006


BROOK TRAZ UMA DESPOJADA FÁBULA SOCIAL

"Sizwe Banzi Está Morto", o mais novo espetáculo de Peter Brook, pode contrariar as expectativas de quem espera uma encenação revolucionária de um texto grandiloquente. Primeiro, porque o diretor, que há décadas serve de referência em seu Centro Internacional de Criação Teatral em Paris, parece ter definitivamente aberto a mão da responsabilidade de trazer o novo, preferindo se dedicar ao relevante. Assim, a exemplo de Tierno Bokar, a última peça que trouxe ao Brasil, trata-se aqui de uma encenação despojada que se apóia em dois grandes atores, ambicionando apenas contar uma história simples.
Depois, porque o texto do sul-africano Athol Fugard não é uma recente revelação da dramaturgia mundial: criado em 1972 em Cape Town, dois anos depois foi premiado pela crítica em Londres, já tendo passado pela Broadway. O que não diminui seu mérito - Fugard, que abandonou estudos de antropologia na faculdade para ser o único branco da tripulação de um navio, escreveu este "Sizwe Banzi" junto a dois atores negros, John Kani e Winston Ntshona, dando visibilidade internacional a um tipo de dramaturgia de resistência contra o apartheid: as township plays.
Este tipo de "teatro pobre", bem humorado e vital, próximo tanto das tradições africanas dos contadores de história quanto das peças didáticas de Brecht, se encaixou nas necessidades atuais de Brook, que tinha para isso intérpretes ideais. Habib Dembélé, simpático e ferino, é um ator dramaturgo fundador do Teatro Mandeka em Mali, com prestígio suficiente para uma candidatura de protesto à presidência da república. Tem uma técnica segura de se desdobrar em vários papéis, construindo até o cenário com onomatopéias e gestos precisos. Em contraponto, o congolês Pitcho Womba Konga, no papel título, traz sua experiência de rapper para um depoimento mais denso, tocando em feridas sem cair no melodrama.
Contam histórias interligadas: um operário se torna fotógrafo para fugir à submissão ao grande patrão americano "Ford Júnior"; em seu estúdio, encontra Banzi, que lhe conta como trocou de identidade com um morto para conseguir trabalho. Assim, se a primeira parte é quase um stand up comedy de Dembelé, algo como o remake de Tempos Modernos feito por Spike Lee, a segunda parte envereda para a fábula moral, nos moldes de "Um Homem é um Homem" de Brecht.
O texto tem qualidades suficientes para transcender a denúncia política episódica em uma reflexão atemporal sobre a desumanização do racismo. Se a cor negra é usada em uma bela metáfora sobre estúdio de fotos onde a maior parte da trama ocorre - uma "câmera negra dos sonhos" - a palavra final não deixa concessões: um homem de pele negra nunca estará livre de constragimentos. Juntando três nações africanas, compartilhando a indignação multicor contra a discriminação social, este espetáculo é um ensaio simpático de técnica apurada, à altura de vários outros espetáculos em cartaz na cidade, que merecem o mesmo prestígio de Peter Brook.
Três estrelas


Escrito por Sérgio às 17h55
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29/08/2006


LEONCE E LENA É PRETEXTO PARA VAIDADE DE VILLELA

 

Para apreciar esta montagem de “Leonce e Lena”, é preciso antes de tudo ter na cabeça que Gabriel Villela não é o tipo de encenador que procura “servir o autor”. O texto, seja qual for, é mero pretexto para suas associações, e mais do que a genialidade de Büchner, é a de Villela que está em pauta.

O encenador não assume porém a autoria do texto, e essa modéstia estratégica é desmentida pela desenvoltura com que propõe seus cacos.

Situa a fábula romântica alemã em um universo de cantigas populares brasileiras, com as quais tem em comum uma ingênua moral embutida, o que tem uma certa eficácia, sobretudo quando conta com o grande preparo vocal de Nábia Villela. No entanto, a escolha poderia ser menos aleatória: “Estrada da Vida”, por exemplo, condena a ambição desmedida, o que não é a questão do príncipe niilista Leonce, que busca fugir do tédio.

Porém, pela estética do excesso de Villela, todas as tangentes viram fogos de artifício. Talvez encorajado pela epígrafe do texto, um citação de "Como Gostais" de Shakespeare ("Meu orgulho está num casaco colorido") os figurinos da peça mesclam cores e tecidos refletindo o tom barroco dos diálogos, mas pouco eficaz para contar a história e caracterizar personagens. O orgulho de Villela estando também em demonstrar erudição, citações de “Hamlet”, “Romeu e Julieta” e “A Vida é Sonho” acrescentam pouco, mas na língua original. Da mesma forma, a associação do pai de Leonce com o rei nu da fábula de Andersen “A Roupa Nova do Rei” já seria conotação política suficiente, mas a encenação é conivente o bastante para incorporar uma imitação do presidente Lula que faz a montagem dissolver-se em um humor raso de televisão.

Talvez procurando a fusão shakespereana do baixo cômico e a alta poesia, o espetáculo se estabelece em dois tons muito diferentes. Deixa nas mãos de Rodrigo Fregnan, o Rei, e de Ando Camargo (que faz em travesti Roseta, a amante do príncipe) a garantia de fazer rir os amigos da platéia, não recuando diante de nenhum truque constrangedor. A puerilidade parece ser ponto de honra do encenador-adaptador, como demonstra a escolha de rebatizar os reinos da fábula de Pipi e Popô.

Por outro lado, Villela tem à disposição para o papel de Leonce o grande talento de Luiz Päetov, que demonstrou em recente montagem um repertório de tons e gestos raro para atores de sua geração. Aqui limita-se a recitar na maior parte das vezes, talvez para não contrastar demais com sua Lena, Ana Carolina Godoy, cujo frescor compensa em parte a falta de experiência. Declamam a tradução literária de Christine Rohring, penando nos trocadilhos, e embora seus respectivos criados tenham carisma esta parte ‘séria’ resulta monótona, e parece um mero pano de fundo para o próximo achado ‘genial’ e escatológico do encenador.

Para os que vêm em busca de Büchner, o conselho é que esperem outra ocasião. Quem vem à procura de Villela, entre e fique a vontade. Mas para a maioria do público, que vem para ouvir uma história, resta apenas uma fábula confusa, que expressa talvez a impossibilidade de se falar a sério em um país tão precário. Dadas as boas condições que desperdiça, de orçamento e elenco talentoso, não deixa de soar um pouco cínico esse niilismo de Gabriel Villela.

uma estrela

Escrito por Sérgio às 09h03
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