Na Moita


08/09/2006


Timão de Atenas anuncia um grande banquete, mas não chega a servi-lo, o que talvez seja mais uma de suas brincadeiras metalinguísticas. Poucas montagens impressionam tão bem logo no início, com o público chegando ainda: no espaço aberto e múltiplo de Simone Mina, luxuosamente endossado pela luz de Guilherme Bonfanti, grupos de atores se maquiam, outros cortam temperos, e ao som microfonado da faca que se afia, como um presságio, se junta os músicos que aquecem os instrumentos para a bela trilha de Marcelo Pellegrini.

No primeiro plano, Pedro Vicente, ator-dramaturgo-pintor, produz ao vivo uma tela - a primeira de várias que serão expostas ao longo do banquete, em um mecenato real. Quando surge enfim Renato Borghi como o grande mecenas Timão, é impossível não evocar o grande banquete que foi a Mostra de Dramaturgia, anos atrás neste mesmo Sesi, com o mesmo Teatro Promíscuo.

A derrocada de fortuna e prestígio que espera Timão ao longo da peça torna-se assim inevitavelmente uma denúncia das efêmeras condições de se produzir cultura no Brasil. Shakespeare é mero pretexto? Não, pois como se repete muito em relação a sua penúltima peça, A Tempestade, é de seu Globe Theatre que o bardo estava falando, sob a máscara da fábula, em seus últimos anos.

Menos conhecida, essa Timão de Atenas se presta ainda melhor para ser seu testamento, ainda mais porque é inacabada. Não há tempo para a desgraça ser redimida, nem para que o dramaturgo suavize o sarcasmo diante da acolhida do público de sua época - que nunca pôde ver este seu canto do cisne. Timão, auto-exilado na floresta após ser abandonado pelos seus bajuladores, lança ao público um desconcertante apelo ao vício, que soa perigosamente atual nesses tempos pós-éticos.

A tradução de Vadim Nikitim é uma proeza de fluência e justeza sonora, conciliando os cacos chulos do elenco com os versos exatos que encerram os atos. No entanto, exige uma técnica apurada dos atores, e é esta a grande fraqueza da montagem. Tirando dois diretores-atores, Maurício Paroni (um inesquecível Apemanto) e Marcelo Marcus Fonseca (que dá dignidade ao fiel Flávio), que em primeiro plano mantém o distanciamento com afiada língua, o elenco, despreparado vocalmente, se dispersa em má dicção, hesitações, vozes baixas e tropeços de texto.

O efeito final é que Shakespeare surge em cena bem contemporâneo, como mais um cúmplice da promiscuidade bem humorada do elenco, mas este perde a oportunidade de um up-grade. A expectativa inicial se frustra aos poucos em uma sem-cerimônia que acaba esvaziando a tensão e o alcance da obra. O diretor Elcio Nogueira, pródigo de idéias e recursos, facilita a tarefa para evitar o pior, um espetáculo empolado e hermético, que traria de volta o empoeirado Shakespeare, em falsa reverência. Junto a Luciana Borghi, faz um eficiente arranjo de personalidades em cena, mas não tem pulso para manter o ritmo difícil, ainda mais com uma trama tão simples. Consegue um resultado simpático, marcante. Mas haveria recurso para mais.

Três estrelas

Escrito por Sérgio às 12h05
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05/09/2006


Bartleby é um jovem e frágil escriturário que é contratado graças a sua rapidez de copista em um pequeno escritório em Wall Street. Seu comportamento exemplar é quase uma alegoria: não bebe no serviço como seus dois colegas bufos, mal come, não sai nunca. Mas um dia, recusa-se a uma ordem do patrão, que o levaria a romper seus hábitos, com uma recusa polida e implacável: "Prefiro não fazê-lo". E sua desobediência civil vai se alastrando para as ordens mais banais, aumentando o mistério em torno dele, até quase torná-lo uma assombração - para o escândalo dos colegas e deslumbre do patrão, que acaba acreditando estar embuído de uma missão divina ao aturá-lo.

A novela de Herman Melville, escrita no século 19, antecipa tanto os pesadelos de Kafka como os escachos do surrealismo. Como Godot, Bartleby é um enigma aberto, a quem cada um atribui o sentido que quer. Ao adaptá-la para o teatro, Marilia Toledo teve a sensibilidade e o embasamento necessários para não tornar seu tema seminal um mero ponto de partida - mantendo a narrativa direto para a platéia, e sua curta duração, "O Escrivão" é eficaz ao provocar a perplexidade, com seu fim abrupto.

Pela mesma razão, o grande mérito da direção de Antônio Abujamra está na construção quase lírica deste escrivão. Miguel Hernandez faz Bartleby com muita delicadeza, tornando plausível o fascínio que exerce sobre seu chefe (Marcelo Galdino, já mais caricatural em um personagem mais bufo). O cenário múltiplo de Serroni vai introduzindo o delírio aos poucos neste universo árido da burocracia no qual Melville, frustrado pela falta de reconhecimento dos contemporâneos pelo seu "Moby Dick", teve que sobreviver.

No entanto, Abujamra, com a fé no próprio taco dos virtuosi, ainda não conseguiu desta vez se manter sóbrio. Brinca várias vezes com a idéia de tédio da função de copista, e faz cenas se repetirem em looping, o que tem o mérito de aumentar a participação de Abrahão Farc -um grande ator à espera de um papel do seu tamanho - mas que pesa no delicado humor da trama. Deixa os atores soltos para improvisarem, e Adriano Stuart, que faz um dos colegas debochados, aproveita mal a liberdade, fazendo uso constante de palavrões que, embora eficientes no imediato, acabam diluindo o alcance da peça.

Assim, a montagem acaba soando como um exercício inteligente, que concilia o teatrão com o experimental, mas que não se leva muito a sério. Corre o risco desta forma parecer uma piada sem final, que deleita os que já conheciam o conto, mas com pouca eficiência em convencer os que não o conheciam. Uma piada interna para a elite intelectual - o que não é pouco, afinal das contas.

Tres estrelas

Escrito por Sérgio às 11h42
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