Timão de Atenas anuncia um grande banquete, mas não chega a servi-lo, o que talvez seja mais uma de suas brincadeiras metalinguísticas. Poucas montagens impressionam tão bem logo no início, com o público chegando ainda: no espaço aberto e múltiplo de Simone Mina, luxuosamente endossado pela luz de Guilherme Bonfanti, grupos de atores se maquiam, outros cortam temperos, e ao som microfonado da faca que se afia, como um presságio, se junta os músicos que aquecem os instrumentos para a bela trilha de Marcelo Pellegrini. No primeiro plano, Pedro Vicente, ator-dramaturgo-pintor, produz ao vivo uma tela - a primeira de várias que serão expostas ao longo do banquete, em um mecenato real. Quando surge enfim Renato Borghi como o grande mecenas Timão, é impossível não evocar o grande banquete que foi a Mostra de Dramaturgia, anos atrás neste mesmo Sesi, com o mesmo Teatro Promíscuo. A derrocada de fortuna e prestígio que espera Timão ao longo da peça torna-se assim inevitavelmente uma denúncia das efêmeras condições de se produzir cultura no Brasil. Shakespeare é mero pretexto? Não, pois como se repete muito em relação a sua penúltima peça, A Tempestade, é de seu Globe Theatre que o bardo estava falando, sob a máscara da fábula, em seus últimos anos. Menos conhecida, essa Timão de Atenas se presta ainda melhor para ser seu testamento, ainda mais porque é inacabada. Não há tempo para a desgraça ser redimida, nem para que o dramaturgo suavize o sarcasmo diante da acolhida do público de sua época - que nunca pôde ver este seu canto do cisne. Timão, auto-exilado na floresta após ser abandonado pelos seus bajuladores, lança ao público um desconcertante apelo ao vício, que soa perigosamente atual nesses tempos pós-éticos. A tradução de Vadim Nikitim é uma proeza de fluência e justeza sonora, conciliando os cacos chulos do elenco com os versos exatos que encerram os atos. No entanto, exige uma técnica apurada dos atores, e é esta a grande fraqueza da montagem. Tirando dois diretores-atores, Maurício Paroni (um inesquecível Apemanto) e Marcelo Marcus Fonseca (que dá dignidade ao fiel Flávio), que em primeiro plano mantém o distanciamento com afiada língua, o elenco, despreparado vocalmente, se dispersa em má dicção, hesitações, vozes baixas e tropeços de texto. O efeito final é que Shakespeare surge em cena bem contemporâneo, como mais um cúmplice da promiscuidade bem humorada do elenco, mas este perde a oportunidade de um up-grade. A expectativa inicial se frustra aos poucos em uma sem-cerimônia que acaba esvaziando a tensão e o alcance da obra. O diretor Elcio Nogueira, pródigo de idéias e recursos, facilita a tarefa para evitar o pior, um espetáculo empolado e hermético, que traria de volta o empoeirado Shakespeare, em falsa reverência. Junto a Luciana Borghi, faz um eficiente arranjo de personalidades em cena, mas não tem pulso para manter o ritmo difícil, ainda mais com uma trama tão simples. Consegue um resultado simpático, marcante. Mas haveria recurso para mais. Três estrelas


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