Na Moita


11/09/2006


TAPA ENFRENTA O DESCONFORTO DE STRINDBERG EM MONTAGEM EXPRESSIONISTA

“Camaradagem”, de Strindberg, não é um texto fácil, nem no conteúdo nem na forma. Em contraponto ao feminismo ibseniano de “Senhorita Júlia”, conta a história de Axel, humilhado por um trato de igualdade nupcial imposto por Berta, pintora como ele. A tese do texto é abertamente contrária a qualquer idealização: “Camaradas eu quero no bar. Em casa quero ter uma mulher”, conclui ao se libertar da relação, com uma sinceridade que choca pelo politicamente incorreto mesmo os atuais tempos pós-feministas. Na forma, igualmente, contrapõe à carpintaria lógica e enxuta de Ibsen um universo alucinatório de cenas que se fragmentam, redundam, dão saltos no tempo e no espaço, criando um mal estar que remete aos paranóicos quadros de Munch.
O Grupo Tapa, com o zelo habitual, levou três anos na elaboração desta montagem, envolvendo o elenco na tradução e adaptação. Alinhavou, segundo o exemplo francês, o primeiro ato de “Saqueadoras”, peça que mostra os mesmos personagens antes de chegarem a Paris, como um prólogo para “Camaradas” (título original, evitado pela indevida alusão política); resumiu e omitiu cenas inúteis, preencheu lacunas, acentuou subtextos.
O que não quer dizer que o diretor Eduardo Tolentino tornou o texto mais palatável. A metáfora central da encenação aponta o narcisismo intrínseco à profissão do artista: todas as telas são espelhos ou molduras vazadas por onde vemos os personagens calculando cada postura, posando mesmo nos momentos de explosão. Extravasam suas emoções apenas em delírios que a arrojada luz de Nelson Ferreira isola como que em parênteses vermelhos.
Nunca o xadrez de Tolentino esteve tão meticuloso: além das marcas milimétricas que exigem dos protagonistas ultrapassar o realismo, não há cena que não tenha o equilíbrio de uma pintura, com um impacto estético ao qual contribue muito o luxo discreto do cenário e figurinos de Lola Tolentino. O que não traz só vantagens: há algo de exercício técnico que limita o espetáculo a um público mais refinado, como nos filmes de Bergman.
Uma forma árida, que os atores preenchem com emoção contida. Patrícia Pichamone tem que dar conta de uma partitura difícil, e é mais eficiente ao caracterizar o lado aversivo de Bertha, aumentando o patético de Axel (Tony Giusti, que tem uma fragilidade envolvente). São bem auxiliados pela fluidez de Nicole Cordery (a ambivalente amiga Abel) a clareza de Sergio Mastropasqua (o machista assumido Carl) e a atenta Malú Bazan (a criada Ida, oposição muda de Bertha), além da simpatia um pouco afetada de Zé Henrique de Paula, no papel do amigo Wilmer. O grande momento da peça, no entanto, é quando o velho médico da família, Dr Ostermark, tem que enfrentar a ex-mulher, Sra Hall, por mais uma sórdida armadilha de Bertha. Clara Carvalho e Brian Penido Ross fazem um reencontro com uma intensa ternura e um humor delicado de piada interna, suavizando a incompatibilidade intrínseca entre os sexos, que parece ser a convicção de Strindberg.
Apesar de um pouco engomado por tanta estética, “Camaradagem” é um grande desmentido aos que costumam ver o Tapa como realistas acomodados. Expressionista, angustiante, o espetáculo não facilita nada para ninguém.
Três estrelas

Escrito por Sérgio às 20h24
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