Na Moita


26/09/2006


CIA DO FEIJÃO ENCENA O BECO SEM SAÍDA

A trajetória da Companhia do Feijão é emblemática. Formada em 1997, alcançou uma grande repercussão com MireVeja, de 2003, uma colagem urbana a partir de contos de Luiz Ruffato, e fez por merecer o endosso do Programa Municipal do Fomento ao Teatro de São Paulo. Montou sede própria, a alguns passos do Teatro Eugênio Kusnet, e depois de dois anos de pesquisa oferece ali este Nonada, desta vez partindo de Machado de Assis, Mário de Andrade e Clarice Lispector.

Conquistou sua marca: uma preocupação com o social que não descarta o literário, por parte de um grupo coeso de atores que sabe passar de um personagem a outro com boa técnica e uma vontade sempre de superar o esperado. Agora, as crônicas são apresentadas em forma de colagem que junta autores e épocas diferentes revelando assim temas constantes, como o menosprezo e o fascínio mútuos entre as classes sociais, e o desejo de estabelecer um sentido através da memória.

Dizer que o texto se perde em um beco sem saída não é desmerecer a montagem, já que a falta de bússola é assumida pelos atores em cena, em uma narração épica sem proselitismo. O próprio bilhete que dá acesso ao espaço remete à etiqueta que identifica corpos nos necrotérios: atores e respeitável público são póstumos, em um cabaré que remete à "Noiva Cadáver" de Tim Burton.

Sem perfil psicológico a desenvolver, sem enredo claro como fio da meada, aos atores resta assim a performance técnica, sempre perigosamente próxima do caricatural, e o espetáculo se impõe enquanto esboço, enquanto procura.

É o que se espera de um grupo experimental - além é claro de uma boa trilha, garantida por Júlio Maluf e Flávio Pires, e um cenário de Petrônio Nascimento que faz das tripas coração, ao incorporar incômodas colunas transformando-as em castiçais fantasmagóricos, com focos de luz perdidos pelo espeço desolado, recortados em fumaça por Eric Nowinski e Ricardo Silva.

Com o teatro útopico paulistano se instalando em sedes próprias, aos poucos se disvincula a idéia de experimental do de improvisado, que só investiria no novo por não poder bancar o comercial. Financiado com dinheiro público, ele leva mais a sério que muitas montagens milionárias a responsabilidade da pesquisa e da contrapartida social.

Mas não basta. O Fomento é apenas o ponto de partida indispensável para essa geração que tem muito o que contar e aprender. O desapego pelo lucro garantido por rostos famosos e fórmulas gastas leva sempre a que se tenha que matar um leão por dia, mesmo em sede própria, e sobra pouco tempo e dinheiro para que cada grupo possa tirar o nariz de sua própria pesquisa e buscar uma superação em comum. Nonada não é melhor que Mire Veja, mas deveria. A importância do Cia do Feijão faz com que se espere mais deles. Com o endosso de uma política cultural que faça mais do que apenas o indispensável.

Duas estrelas

Escrito por Sérgio às 12h31
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

24/09/2006


SIMBOLO DA VANGUARDA SE DILUI NO TEATRO

 

                Em 1983, às vésperas das diretas-já, um grupo de jovens estudantes de comunicação, o Olhar Eletrônico, vencia o primeiro Festival VideoBrasil do MIS. Com insolência adolescente, mas sabendo exatamente o que fazia, o Olhar Eletrônico foi para a televisão o que os Mutantes foram para a música: o prenúncio de tudo que se faria depois.

                De fato, o personagem Ernesto Varela, criação de Marcelo Tas e Fernando Meirelles, é emblemático da maior parte do que se fez de novo na TV brasileira desde então, do Castelo Rá-Tim-Bum ao Pânico na TV, transbordando para o cinema através de Jorge Furtado e Guel Arraes, além, é claro, de Meirelles, que a impôs ao mundo. A mistura de ficção e reportagem, desmistificando uma televisão até então dona da verdade, foi uma revolução de linguagem. Para quem foi adolescente nos anos 80, Varella significava a retomada do poder pela juventude, depois de anos amargando a acusação de alienados pela heróica geração precedente.

                 O tímido e ferino repórter ganha o palco agora, na carona de uma coletânea em DVD, em um gênero híbrido, entre performance e palestra. E se dilui, infelizmente. Perdido na extensão do palco, ainda menino prodígio duas décadas depois, Varela surge deslocado, como um Robin sem Batman. A multimídia interativa, via internet, que manteve Tas na vanguarda através de seu programa Vitrine, isola o personagem por trás de um laptop, como um conferencista. Seu talento de ator – que é o menor dos vários que tem – é suficiente para encher a telinha, mas não o palco.
Assim, o mestre de cerimônias sabe aquecer a platéia para as muitas vinhetas em vídeo de seus melhores momentos, quando o palco fica vazio. Mas quando pára a imagem para comentá-la, nem sempre acrescenta algo melhor ao já mostrado. Muita coisa haveria a se dizer sobre Marta Suplicy hoje, em contraste à sexóloga dos tempos das diretas já: “atrás de um grande homem tem sempre uma grande mulher, e atrás dela tem um argentino” não é a melhor delas.

              Soa igualmente como piada machista a dupla de “vareletes” idênticas, com pernas desmentindo os óculos, o que traz um lado kitsch de programa de auditório não muito eficaz para o humor indispensável do personagem. Bem mais à altura do refinado Olhar Eletrônico, que pegou o recurso talvez do Monty Phyton, são as vinhetas animadas da TV Pinguin, ilustrando pontos precisos da história do Brasil, com uma agilidade que pode ser vista nos filmes de Furtado e Arraes.

              A grande contribuição para a “experiência vareliana” (segundo termo do próprio Tas) é a invenção do personagem Sydney, o porteiro do teatro, que resgata a espontaneidade do anônimo, condição imprescindível para o questionamento funcionar. A interatividade com a platéia, através de perguntas da platéia ou pela internet, exige o melhor de Tas: o improviso ao vivo. São os momentos propriamente teatrais que justificam a empreitada.

                Para que serve o dinheiro? Pergunta a filha de uma funcionária do teatro ao Professor Tibúrcio, que nunca admitia um “porque sim” como resposta. A saia justa que se segue mostra como o espírito de Ernesto Varela continua indispensável, sobretudo nesses novos conflitos freudianos da campanha eleitoral. Um divertido show – pouco teatral, no entanto.

Duas estrelas


Escrito por Sérgio às 11h39
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Histórico