CIA DO FEIJÃO ENCENA O BECO SEM SAÍDA A trajetória da Companhia do Feijão é emblemática. Formada em 1997, alcançou uma grande repercussão com MireVeja, de 2003, uma colagem urbana a partir de contos de Luiz Ruffato, e fez por merecer o endosso do Programa Municipal do Fomento ao Teatro de São Paulo. Montou sede própria, a alguns passos do Teatro Eugênio Kusnet, e depois de dois anos de pesquisa oferece ali este Nonada, desta vez partindo de Machado de Assis, Mário de Andrade e Clarice Lispector. Conquistou sua marca: uma preocupação com o social que não descarta o literário, por parte de um grupo coeso de atores que sabe passar de um personagem a outro com boa técnica e uma vontade sempre de superar o esperado. Agora, as crônicas são apresentadas em forma de colagem que junta autores e épocas diferentes revelando assim temas constantes, como o menosprezo e o fascínio mútuos entre as classes sociais, e o desejo de estabelecer um sentido através da memória. Dizer que o texto se perde em um beco sem saída não é desmerecer a montagem, já que a falta de bússola é assumida pelos atores em cena, em uma narração épica sem proselitismo. O próprio bilhete que dá acesso ao espaço remete à etiqueta que identifica corpos nos necrotérios: atores e respeitável público são póstumos, em um cabaré que remete à "Noiva Cadáver" de Tim Burton. Sem perfil psicológico a desenvolver, sem enredo claro como fio da meada, aos atores resta assim a performance técnica, sempre perigosamente próxima do caricatural, e o espetáculo se impõe enquanto esboço, enquanto procura. É o que se espera de um grupo experimental - além é claro de uma boa trilha, garantida por Júlio Maluf e Flávio Pires, e um cenário de Petrônio Nascimento que faz das tripas coração, ao incorporar incômodas colunas transformando-as em castiçais fantasmagóricos, com focos de luz perdidos pelo espeço desolado, recortados em fumaça por Eric Nowinski e Ricardo Silva. Com o teatro útopico paulistano se instalando em sedes próprias, aos poucos se disvincula a idéia de experimental do de improvisado, que só investiria no novo por não poder bancar o comercial. Financiado com dinheiro público, ele leva mais a sério que muitas montagens milionárias a responsabilidade da pesquisa e da contrapartida social. Mas não basta. O Fomento é apenas o ponto de partida indispensável para essa geração que tem muito o que contar e aprender. O desapego pelo lucro garantido por rostos famosos e fórmulas gastas leva sempre a que se tenha que matar um leão por dia, mesmo em sede própria, e sobra pouco tempo e dinheiro para que cada grupo possa tirar o nariz de sua própria pesquisa e buscar uma superação em comum. Nonada não é melhor que Mire Veja, mas deveria. A importância do Cia do Feijão faz com que se espere mais deles. Com o endosso de uma política cultural que faça mais do que apenas o indispensável. Duas estrelas


Leia este blog no seu celular