Ponto alto este ano do importante FILO, Festival de Teatro de Londrina - cidade de onde se originou a companhia - "Toda Nudez Será Castigada" se impôs como a melhor montagem do Armazém Companhia de Teatro. Não é pouco. Radicado desde 1998 no Rio de Janeiro, o grupo do diretor Paulo de Moraes já rendeu montagens inesquecíveis, como o "Alice", fábula psicodélica e interativa adaptada de Lewis Carrol, e o recente "A Caminho de Casa", reflexão vital sobre o terrorismo. Depois de 13 anos de dramaturgia própria, na qual celebravam "o encontro com o inesperado", enfrentam agora um texto difícil do unânime Nelson Rodrigues. Não cedem ao consagrado: acrescentam a ele. Mais talvez que em outras peças de Nelson Rodrigues, a mistura da paródia e do melodrama, do grotesco e do sublime de "Toda a Nudez" desnorteia tanto os que por excesso de zelo descartam qualquer humor como os que querem apenas rir às custas do patético caso de amor entre o puritano Herculano e a prostituta Geni. Moraes situa a trama em um universo paralelo, alucinante, talvez o limbo da infância dos personagens. Livre de qualquer compromisso naturalista, brilha mais do que nunca a grande competência do grupo em relação ao espaço cênico. Portas giratórias deixam entrar personagens como lufadas de vento, uma luz ágil e múltipla dinamiza ao máximo a veloz carpintaria rodrigueana, e a meticulosa preparação corporal desenha cada personagem como uma peça de xadrez. Tudo isso seria menor se não estivesse endossado por cada ator. Patrícia Selonk tem um carisma que a possibilita ser inesquecível em qualquer papel. Sua Geni, no entanto, incorpora de maneira especial a sua infãncia triunfante e melancólica, na qual o irônico não afasta o trágico. Thales Coutinho nunca esteve tão bem com seu Herculano, profundamente humano em sua fragilidade, preciso em cada passo. O ponto fraco do grupo, uma tendência a "cantar" um pouco o texto, é superado pela estratégia de cantá-lo realmente em certos trechos, assumindo a ópera suburbana que caracteriza o autor. E quando à brilhante trilha sonora se acrescenta uma música inédita de Arrigo Barnabé, culminando a cena na qual Geni traça em sangue as palavras de Nelson Rodrigues em seu corpo, a convicção de estar presenciando um momento chave do teatro brasileiro é irresistível. Quatro estrelas


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