Na Moita


03/10/2006


Ponto alto este ano do importante FILO, Festival de Teatro de Londrina - cidade de onde se originou a companhia - "Toda Nudez Será Castigada" se impôs como a melhor montagem do Armazém Companhia de Teatro.

Não é pouco. Radicado desde 1998 no Rio de Janeiro, o grupo do diretor Paulo de Moraes já rendeu montagens inesquecíveis, como o "Alice", fábula psicodélica e interativa adaptada de Lewis Carrol, e o recente "A Caminho de Casa", reflexão vital sobre o terrorismo. Depois de 13 anos de dramaturgia própria, na qual celebravam "o encontro com o inesperado", enfrentam agora um texto difícil do unânime Nelson Rodrigues.

Não cedem ao consagrado: acrescentam a ele. Mais talvez que em outras peças de Nelson Rodrigues, a mistura da paródia e do melodrama, do grotesco e do sublime de "Toda a Nudez" desnorteia tanto os que por excesso de zelo descartam qualquer humor como os que querem apenas rir às custas do patético caso de amor entre o puritano Herculano e a prostituta Geni.

Moraes situa a trama em um universo paralelo, alucinante, talvez o limbo da infância dos personagens. Livre de qualquer compromisso naturalista, brilha mais do que nunca a grande competência do grupo em relação ao espaço cênico. Portas giratórias deixam entrar personagens como lufadas de vento, uma luz ágil e múltipla dinamiza ao máximo a veloz carpintaria rodrigueana, e a meticulosa preparação corporal desenha cada personagem como uma peça de xadrez.

Tudo isso seria menor se não estivesse endossado por cada ator. Patrícia Selonk tem um carisma que a possibilita ser inesquecível em qualquer papel. Sua Geni, no entanto, incorpora de maneira especial a sua infãncia triunfante e melancólica, na qual o irônico não afasta o trágico. Thales Coutinho nunca esteve tão bem com seu Herculano, profundamente humano em sua fragilidade, preciso em cada passo.

O ponto fraco do grupo, uma tendência a "cantar" um pouco o texto, é superado pela estratégia de cantá-lo realmente em certos trechos, assumindo a ópera suburbana que caracteriza o autor. E quando à brilhante trilha sonora se acrescenta uma música inédita de Arrigo Barnabé, culminando a cena na qual Geni traça em sangue as palavras de Nelson Rodrigues em seu corpo, a convicção de estar presenciando um momento chave do teatro brasileiro é irresistível.

Quatro estrelas

Escrito por Sérgio às 12h44
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CINEMATECA REVELA A JUVENTUDE DE BRECHT

Brecht no cinema: à primeira vista, o tema da retrospectiva na Cinemateca Brasileira soa como uma contradição em termos. A apropriação indébita da “Ópera dos três Vinténs” pelo cinema burguês rendeu um processo de Brecht contra o diretor Pabst, então ex-ator de vanguarda e futuro colaborador de Goebbels. A recusa de ser diversão para as massas, registrada no seu livro “O Processo do Filme «A Ópera de Três Vinténs» Uma Experiência Sociológica”,  levou Brecht a radicalizar a proposta do teatro didático. No entanto, anos depois, no exílio americano, junto ao círculo de cinema socialista de Upton Sinclair, escreveu vários roteiros - que Hollywood esnobou, como fizera com Eiseinstein.
Essa relação de amor e ódio de Brecht com o cinema está muito bem representada na mostra. Deixa de lado o filme de Pabst, e apresenta a experiência americana apenas com o indispensável documentário “Meu Nome é Bertolt Brecht...” de Bunge e Fischer-Defoy, mas se concentra no que Brecht tem de melhor: o registro de seu processo de trabalho, com resultados e fórmulas sempre revistas.
Assim, mais do que as adaptações para a tela de suas peças, como o “Sr Puntilla” de Alberto Cavalcanti ou a “Mãe Coragem” de Palitzsch e Weckwerth, o grande interesse da mostra está “Syberberg filma o trabalho de Brecht”, de Hans Jürgen Syberberg.
É uma grande aventura. Em 1953, esse cineasta que então tinha apenas 17 anos, consegue a permissão do mestre para registrar seus ensaios do Berliner Ensemble. A falta de recursos para isso - ele possuia apenas uma velha câmera de 8 mm - mais que um empecilho, foi um atrativo para Brecht. Apresenta assim, de forma quase tosca, o “Sr Puntilla”, na versão que estreara em 1949, “A Mãe” de 1951 e sobretudo o “Primeiro Fausto”, de 1952, que tanta polêmica causou por contrariar os interesses do governo comunista de então em querer impor os clássicos alemães como apóstolos da estética socialista.
A inexperiência de Syberberg talvez tenha lembrado a Brecht sua própria juventude, quando filmava junto a Erich Engel o ator de cabaré Karl Valentim em filmes mudos de humor grotesco - período que também pode ser conferido na mostra, com “Os Mistérios de uma Barbearia”, de 1923. Era essa inocência, esse humor anárquico popular que tanto seduziu os surrealistas, que Brecht queria reencontrar na obra de Goethe, mais do que a adoção de uma estética oficial e congelada em doutrinas.     
Desobediência ao Partido é o mínimo que se espera de um grande artista. Talvez por isso Brecht prezava tanto ser cercado por jovens. O que a mostra revela - refrescando o conceito de “teatro brechtiano”, que tanto necessita disso - é um processo de trabalho cheio de alegria, registrado nos “Filmes domésticos” de 1928-1929, e no “Curta-metragem’ de 1953. Que Brecht seja lembrado pelo humor, no cinema ou no palco: é a melhor homenagem que se deve a ele.

Escrito por Sérgio às 11h31
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