FERNANDO NEVES RESGATA MELODRAMA COM DIGNIDADE "Ferro em Brasa" é um projeto sério, mais sério do que a trajetória - e o próprio nome - da Companhia "os Fofos Encenam" leva a pensar. É claro que o encenador Fernando Neves, terceira geração de circences portugueses, por ocasião da montagem de "A Mulher do Trem", penúltimo e bem sucedido espetáculo do grupo, já havia aberto a preciosa canastra de textos de teatro-circo que herdou. Mas ali, assim como no espetáculo seguinte, "Assombrações do Recife Velho", o humor era o que contava. Interessante como o melodrama ainda é visto como um gênero tabu, definitivamente ultrapassado e só retomado em forma de paródia, um mau gosto que a modernização do teatro erradicou. Mesmo os modernistas da semana de 22, predispostos a considerar o universo circense de Piolim como verdadeiro representante do teatro nacional, só o solicitaram na comédia. Os grandes sucessos circences da família Neves permaneceram relegados às classes populares. Agora que o teatro-circo já se firma como linguagem, começa um movimento de retomada do melodrama. Tudo aquilo que ainda soa apenas como pré stanislaviskiano, a tipificação dos atores em ingênuas, galãs e vilões; os quadros vivos, os arroubos retóricos; quando assumido plenamente, se torna uma linguagem a dominar, como o Nô japonês ou o teatro elizabetano. É isso que faz a companhia, sem pudor nem ironia. Concebe o estilo como um todo, e não se pode pensar o melodrama sem os telões pintados e o figurino colorido que conciliam ingenuidade e refinamento, à cargo de Leopoldo Pacheco e Marcelo Andrade. Nem a trilha ao vivo do pianista Fernando Esteves, que remete ao universo mais conhecido do cinema mudo, pontuando cada gesto. O texto de Antonio Sampaio, na releitura de Newton Moreno, faz pensar em um Lorca rústico, que parte de um mesmo lirismo desesperado e prisioneiro de uma moral implacável, para explodir em questionamentos. Libelo contra o salazarismo, que manteve Portugal nas trevas, sobretudo no tocante à repressão sexual, segue no entanto a rigidez dos tipos consagrados pelo uso. Assim, como em um jogo de xadrez, temos o centro dramático, o pai extremoso, feito com garra por José Roberto Jardim. Devotado à filha, Erica Montanheiro, que cumpre com carisma a função de ingênua, não percebe que introduz no seio de sua família um pérfido galã, Eduardo Reyes, que está mais interessado na sua esposa, a delicada Carol Badra. Há cantos e danças, e contrapontos cômicos por conta dos caricatos, mas o espetáculo consegue mobilizar a emoção da platéia e, mesmo com tanta ingenuidade, faz chorar no final sangrento. Competente resgate de um gênero, o espetáculo no entanto ainda não transcende a impressão de curiosidade, de museu teatral. Seja pelas longas digressões - que a direção tenta driblar fazendo os atores falarem rápido, o que é contraproducente - seja pelos atores ainda não dominarem inteiramente a rígida técnica da marcação ostensiva, no delicado timing dos "quadros vivos", a montagem soa como uma primeira tentativa. Que venham outras: o melodrama, berço de Strindberg e Nelson Rodrigues, entre outros autores vitais, não merece permanecer refém do deboche. Duas estrelas


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