Na Moita


12/10/2006


FERNANDO NEVES RESGATA MELODRAMA COM DIGNIDADE

"Ferro em Brasa" é um projeto sério, mais sério do que a trajetória - e o próprio nome - da Companhia "os Fofos Encenam" leva a pensar. É claro que o encenador Fernando Neves, terceira geração de circences portugueses, por ocasião da montagem de "A Mulher do Trem", penúltimo e bem sucedido espetáculo do grupo, já havia aberto a preciosa canastra de textos de teatro-circo que herdou. Mas ali, assim como no espetáculo seguinte, "Assombrações do Recife Velho", o humor era o que contava.

Interessante como o melodrama ainda é visto como um gênero tabu, definitivamente ultrapassado e só retomado em forma de paródia, um mau gosto que a modernização do teatro erradicou. Mesmo os modernistas da semana de 22, predispostos a considerar o universo circense de Piolim como verdadeiro representante do teatro nacional, só o solicitaram na comédia. Os grandes sucessos circences da família Neves permaneceram relegados às classes populares.

Agora que o teatro-circo já se firma como linguagem, começa um movimento de retomada do melodrama. Tudo aquilo que ainda soa apenas como pré stanislaviskiano, a tipificação dos atores em ingênuas, galãs e vilões; os quadros vivos, os arroubos retóricos; quando assumido plenamente, se torna uma linguagem a dominar, como o Nô japonês ou o teatro elizabetano.

É isso que faz a companhia, sem pudor nem ironia. Concebe o estilo como um todo, e não se pode pensar o melodrama sem os telões pintados e o figurino colorido que conciliam ingenuidade e refinamento, à cargo de Leopoldo Pacheco e Marcelo Andrade. Nem a trilha ao vivo do pianista Fernando Esteves, que remete ao universo mais conhecido do cinema mudo, pontuando cada gesto.

O texto de Antonio Sampaio, na releitura de Newton Moreno, faz pensar em um Lorca rústico, que parte de um mesmo lirismo desesperado e prisioneiro de uma moral implacável, para explodir em questionamentos. Libelo contra o salazarismo, que manteve Portugal nas trevas, sobretudo no tocante à repressão sexual, segue no entanto a rigidez dos tipos consagrados pelo uso.

Assim, como em um jogo de xadrez, temos o centro dramático, o pai extremoso, feito com garra por José Roberto Jardim. Devotado à filha, Erica Montanheiro, que cumpre com carisma a função de ingênua, não percebe que introduz no seio de sua família um pérfido galã, Eduardo Reyes, que está mais interessado na sua esposa, a delicada Carol Badra.

Há cantos e danças, e contrapontos cômicos por conta dos caricatos, mas o espetáculo consegue mobilizar a emoção da platéia e, mesmo com tanta ingenuidade, faz chorar no final sangrento.

Competente resgate de um gênero, o espetáculo no entanto ainda não transcende a impressão de curiosidade, de museu teatral. Seja pelas longas digressões - que a direção tenta driblar fazendo os atores falarem rápido, o que é contraproducente - seja pelos atores ainda não dominarem inteiramente a rígida técnica da marcação ostensiva, no delicado timing dos "quadros vivos", a montagem soa como uma primeira tentativa. Que venham outras: o melodrama, berço de Strindberg e Nelson Rodrigues, entre outros autores vitais, não merece permanecer refém do deboche.

Duas estrelas

Escrito por Sérgio às 23h21
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09/10/2006


MARCELO MÉDICI SE CONSAGRA EM STAND UP BRASILEIRO

Quando estreou em agosto de 2004, “Cada um com Seus Pobrema” era apenas mais um show de humor entre os vários que a cidade propõe, com um sucesso de boca a boca surpreendente, mas poupado da responsabilidade de ser um “fenômeno”. Agora, reestreando no bom Teatro Shopping Frei Caneca, que sabe conciliar a demanda de um público de classe média com a qualidade que todo espetáculo deve ter, Marcelo Médici não só ganhou visibilidade como se tornou quase onipresente.
Mais do que festejá-lo pela fama – nem sempre a melhor, e quase nunca a definitiva etapa de uma carreira teatral – é preciso registrar que Médici, muito antes de ser “o Fladson de Belíssima”, aprendeu como todos os que passam pelo Centro de Pesquisa Teatral de Antunes Filho a querer mais que o sucesso, e por isso foi em busca no Teatro Escola Célia Helena da técnica precisa da comédia.
O espetáculo portanto já era desde a estréia uma antologia de personagens de sucesso: Dona Creuza, carismática funcionária do Célia, vem sendo imitada com ternura por gerações de alunos, e o corintiano Sanderson já tinha vencido o “Prêmio Multishow de Humor”, em 1998, na categoria “stand up comedy”, com direito a passagem pela “Praça é Nossa”, quando foi rebatizado de “Zoinho”.
Antes de entrar no mérito da reinvenção do stand up – a fórmula norte-americana na qual o ator interage diretamente com a platéia, com uma mínima indicação de cenário e figurino – é preciso inserir esta técnica em uma tradição anterior, presente desde o século 19 no teatro brasileiro.
Médici é um ator caricato, ou seja, apenas com a contração do seu rosto faz máscaras que definem personagens. Esta arte da careta permite que passe instantaneamente da inflexível empresária coreana Yumi –estrábica, de sorriso congelado – à médium Mãe Jatira, cujo esgar na boca intimida e a denuncia ao mesmo tempo enquanto picareta. Cada personagem tem a sua postura, o seu sotaque, a sua referência cultural, que o esperto figurino de Cléber Montanheiro – que assina também o cenário igualmente minimalista – define com agilidade.
Se a caricatura viva permite que figuras famosas passem rapidamente pelo palco – e Médici é implacável com Marília Gabriela- ela é perigosa quando se permite reforçar preconceitos. Isso é evitado não só pelo grande poder de observação do ator, que faz com que cada tipo seja cuidadosamente individualizado, como pelo cuidado de fazer valer o ponto de vista de cada personagem.
Assim, a piada que deu origem ao Mico Leão Dourado – o Ibama quer que ele se reproduza, mas ele é gay – é a ocasião para que o universo do travesti, de humor escachado e quase trágico em sua auto-ironia, seja evocado com tanto arrojo que se torne quase um emblema do grupo. E não são apenas as minorias que são ridicularizadas – Jonson, o ‘irmão’ modelo e surfista que, sem talento, se dá muito melhor na TV que o protagonista ator desiludido que alinhava os quadros, desmascara o meio no qual Médici com certeza não se via tão cedo.
E é este personagem central que faz com que o espetáculo vá além do stand up. Embora se dirija diretamente ao público, nunca se confunde com o próprio Médici, que assim não pode ser acusado de arrogante dono da verdade. É um ator medíocre, desesperado em convencer a própria família de seu talento, que tem que se vestir de smurfete em convenções se necessário.
Desta forma, o que bastaria como uma simples colcha de retalhos se firma como um roteiro consistente. Cada personagem é bem preparado no texto de Médici e Ricardo Rathsam, que também assina a direção; cada um faz contrapeso ao outro e não se vê o tempo passar.
Com seu humor implacável sem perder a ética jamais, que confia na inteligência do público sem pudor de almejar antes de tudo o riso, “Cada um com Seus Pobrema” merece todo o sucesso que tem. Prova que o sucesso não está condenado a ser prêmio pela mediocridade, nem o humor sinônimo de facilidade. É produto de um esforço de vida inteira, e abre caminhos ainda mais amplos para um comediante que, como todos sabem, é bem mais que um sujeito engraçado. Marcelo Médici é um ator pleno.

Quatro estrelas

Escrito por Sérgio às 16h08
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