RUIDO IMPEDE INSTALAÇÃO DE NUNO RAMOS Na "Análise dos Espetáculos", Patrice Pavis fala da importância para o crítico não considerar o texto, lido previamente em casa, como o essencial do espetáculo teatral. Palavras impressas e as proferidas por atores em público não são o mesmo objeto estético: o volume dos corpos, o lugar que eles ocupam no espaço, as suas formas cambientes que interagem interferem substancialmente no sentido do que é dito, muito além da interpretação psicológica dos atores e diretor. Por isso, a instalação "Ai de Mim!" de Nuno Ramos, na Galeria Fortes Vilaça, vista pelos olhos de um crítico teatral, equivale a um tratado estético sobre as condições materiais da representação, na mesma alta esfera dos tratados de Gertrude Stein, que aprofundam os sentidos que a apresentação pública pode ter por si só, independente de seu conteúdo, como se atores fossem móbles sonoros - e não é por acaso que a brilhante encenação de Márcio Aurélio para esses textos se chamou "Peças". A ambiguidade do termo é perfeita para a busca de Ramos. Apresenta aqui duas peças monumentais, uma de ferro que ocupa dois níveis da pequena galeria, outra de vidro no segundo andar, que a espelha em suas retas e curvas. A relação com o público é prevista teatralmente: embora as peças não se desloquem, é o deslocamento do observador que acrescenta sentidos. Para se ver o ferro, é necessário subir uma escada, contornando sua presença imponente, e só então é que se descobre a outra, acuada em um canto, fragilizada pela localização, matéria e redução em escala. Então irrompe o teatro: as peças falam, pela voz de Helena Ignez e Luiz Melo, ouvidas em gravação que sai pelo longo cano-tromba de cada estrutura. "Ai de Mim!" clamam as esculturas, chamando atenção para si mesmas como um enigma concretizado em objeto. Porém Ramos segue na pesquisa de intercâmbio entre as formas: as peças dialogam, trocam farpas e insultos. Um homem, uma mulher: conflito ancestral que o texto de Nuno Ramos, feito em parte por citações que um folheto distribuido na entrada aponta, exacerba do mais erudito ao mais vulgar. Ésquilo, Tchékhov, Ibsen, Nelson Rodrigues e Lupcínio Rodrigues, Brecht e Beckett, entre outros, retrucam deixas sofridas, impregnando as formas de sentido: e quando o observador atento já começa a atribuir sentimentos para cada matéria - o ferro, masculino e despótico, é valentemente desautorisado pelo terno vidro - o texto se encerra e as vozes invertem suas ‘bocas’, recomeçando outra rodada de negociações. Uma brilhante instalação que mereceria um cuidado especial: espaço mais amplo, isolamento acústico e solicitação para desligamento dos celulares, compartilhando assim a luta do teatro pela educação contemplativa do prezado público. Infelizmente, as galerias, mesmo as mais cult, ainda estão pouco sintonizadas com essa missão. As portas permanecem abertas na galeria Fortes Vilaça para o ruidoso trânsito da Fradique Coutinho e os funcionários, em estresse de vendedores de televisão, se mantém falando em voz alta. O teatro precisa abrigar a busca de Nuno Ramos: podemos ter aqui mais um caso de artista plástico em vias de subir ao palco, para contribuir com seu lado mais conceitual, como fizeram Tadeusz Kantor e Gerald Thomas. Enquanto isso, quase menosprezado em um espaço indevido, sua obra fica à espera de uma escuta que multiplique seus sentidos. Vá checar no sábado: talvez haja mais silêncio. Três estrelas.


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