Na Moita


27/10/2006


RUIDO IMPEDE INSTALAÇÃO DE NUNO RAMOS

Na "Análise dos Espetáculos", Patrice Pavis fala da importância para o crítico não considerar o texto, lido previamente em casa, como o essencial do espetáculo teatral. Palavras impressas e as proferidas por atores em público não são o mesmo objeto estético: o volume dos corpos, o lugar que eles ocupam no espaço, as suas formas cambientes que interagem interferem substancialmente no sentido do que é dito, muito além da interpretação psicológica dos atores e diretor.

Por isso, a instalação "Ai de Mim!" de Nuno Ramos, na Galeria Fortes Vilaça, vista pelos olhos de um crítico teatral, equivale a um tratado estético sobre as condições materiais da representação, na mesma alta esfera dos tratados de Gertrude Stein, que aprofundam os sentidos que a apresentação pública pode ter por si só, independente de seu conteúdo, como se atores fossem móbles sonoros - e não é por acaso que a brilhante encenação de Márcio Aurélio para esses textos se chamou "Peças".

A ambiguidade do termo é perfeita para a busca de Ramos. Apresenta aqui duas peças monumentais, uma de ferro que ocupa dois níveis da pequena galeria, outra de vidro no segundo andar, que a espelha em suas retas e curvas. A relação com o público é prevista teatralmente: embora as peças não se desloquem, é o deslocamento do observador que acrescenta sentidos. Para se ver o ferro, é necessário subir uma escada, contornando sua presença imponente, e só então é que se descobre a outra, acuada em um canto, fragilizada pela localização, matéria e redução em escala.

Então irrompe o teatro: as peças falam, pela voz de Helena Ignez e Luiz Melo, ouvidas em gravação que sai pelo longo cano-tromba de cada estrutura. "Ai de Mim!" clamam as esculturas, chamando atenção para si mesmas como um enigma concretizado em objeto. Porém Ramos segue na pesquisa de intercâmbio entre as formas: as peças dialogam, trocam farpas e insultos. Um homem, uma mulher: conflito ancestral que o texto de Nuno Ramos, feito em parte por citações que um folheto distribuido na entrada aponta, exacerba do mais erudito ao mais vulgar.

Ésquilo, Tchékhov, Ibsen, Nelson Rodrigues e Lupcínio Rodrigues, Brecht e Beckett, entre outros, retrucam deixas sofridas, impregnando as formas de sentido: e quando o observador atento já começa a atribuir sentimentos para cada matéria - o ferro, masculino e despótico, é valentemente desautorisado pelo terno vidro - o texto se encerra e as vozes invertem suas ‘bocas’, recomeçando outra rodada de negociações.

Uma brilhante instalação que mereceria um cuidado especial: espaço mais amplo, isolamento acústico e solicitação para desligamento dos celulares, compartilhando assim a luta do teatro pela educação contemplativa do prezado público. Infelizmente, as galerias, mesmo as mais cult, ainda estão pouco sintonizadas com essa missão. As portas permanecem abertas na galeria Fortes Vilaça para o ruidoso trânsito da Fradique Coutinho e os funcionários, em estresse de vendedores de televisão, se mantém falando em voz alta.

O teatro precisa abrigar a busca de Nuno Ramos: podemos ter aqui mais um caso de artista plástico em vias de subir ao palco, para contribuir com seu lado mais conceitual, como fizeram Tadeusz Kantor e Gerald Thomas. Enquanto isso, quase menosprezado em um espaço indevido, sua obra fica à espera de uma escuta que multiplique seus sentidos. Vá checar no sábado: talvez haja mais silêncio. Três estrelas.

Escrito por Sérgio às 12h27
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SHAKESPEARES MUDOS RESGATAM CÓDIGOS ESQUECIDOS

Há duas razões para se ver os Shakespeares mudos, resgatados dos arquivos do British Film Institute: uma teatral, outra cinematográfica. O teatro sendo escrito em areia, como cunhou Peter Brook, são poucas as ocasiões de se ver o registro de uma apresentação em 1911 da então famosa companhia inglesa de sir Frank Benson, em um Ricardo III que, diante de telões pintados e gestos grandiloquentes, faz esquecer a ausência de diálogos. Embora o distanciamento histórico nos dê uma impressão de ingênuo canastronismo, esse padrão pré stanislaviskiano de interpretação resgata um teatro de convenções precisas, semelhante ao teatro japonês, por exemplo.

Com esse enfoque, é fascinante ver Florence Turner, uma das primeiras estrelas do cinema americano, fazer Viola na "Noite de Reis" de Charles Kent, de 1910 - ou, nesse mesmo ano, os atores italianos da Film d’Arte, aqui representada nas versões de Gerolamo Lo Savio para ‘Rei Lear’ e ‘O Mercador de Veneza’.

Nesse contexto, é fácil ver como o teatro emprestava prestígio à uma arte recém nascida. Enquanto subproduto, não ocorria a ninguém nessa indústria incipiente deslocar a câmera, por exemplo - plantada no meio da cena, são os atores que entram e saem de campo. O plano americano e o close ainda não tinham sido inventados, e o único efeito propriamente cinematográfico era o desaparecimento ou o surgimento instantâneo, vindo diretamente do universo do mágico francês Méliés, muito útil para personagens como Ariel.

Esse universo onírico é reforçado pelas tentativas de recuperar a cor - e temos películas caprichosamente pintadas à mão pela Film d’Arte, em um grande trabalho de restauração que mostra céu azul, roupas multicoloridas e rostos que permanecem cinzas, como estátuas animadas. Além disso, a ausência de som é amplamente recompensada pela trilha sonora de Laura Rossi, que a Mostra traz requintadamente ao vivo, com o Quarteto Portinari da OSESP. Um sonho a ser compartilhado.

Quatro estrelas

Escrito por Sérgio às 12h23
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25/10/2006


Uma cortina multicolorida, em manto de arlequim, feita de retalhos vindos dos principais teatros brasileiros, é um bom símbolo do que está em jogo no novo Espaço Parlapatões. Síntese do múltiplo teatro popular, do circo-teatro às chanchadas de Grande Otelo, o grupo arca com a responsabilidade de suas andanças por circos e festivais, que o habilitaram como o mais representativo da nova geração em termos de irreverência e técnica, de pesquisa e inovação. Por outro lado, a reciclagem de tecidos pode fazer também menção ao improviso no precário, à tripa-coração que sempre acompanhou o mambembe teatro nacional.
O espetáculo escolhido para inaugurá-lo, “Proibido para Menores”, representa bem esses dois lados. Logo na estréia a porta de entrada se revelou perto demais do palco, expondo os retardatários ao famoso escárnio em cena aberta do elenco, e a coxia, estreita e escura, fez Raul Barretto vestir sua fantasia de Branca de Neve ao contrário, o que rendeu cacos históricos. Hugo Possolo, autor do texto, direção e mestre sem cerimônia desse show de variedades está em casa no caos, e nenhum imprevisto se perde.
Mas o improviso não é - ou não deveria ser - o principal. O mote de vasculhar em tom pretensamente sério as grandes limitações e pequenas ambições do teatro infantil, fazendo que esse seja “um espetáculo infantil para adultos”, é uma grande idéia bem amparada na experiência de seus participantes. Cada quadro promete muito: a assembléia sindical dos trabalhadores em fantasia tipo ‘cabeção’ – começo vergonhoso de carreira de muito ator – ou a ‘mensagem didática’ sobre cuidados com a fimose embutida à força em outra cena lava a alma de quem não se conforma com o triunfo vigente da mediocridade.
Os atores logo no início já se mostram habilitados para a tarefa. Vestidos de preto – tabu superado para peças infantis – apresentam seus atributos: a altura de Raul, o timbre de voz de Hugo, o nariz de Henrique Stroeter, o excesso corporal de Claudinei Brandão e a escassez de Hélio Pottes dão ao elenco uma nitidez de desenho animado.
E no entanto não basta. As idéias se esgotam rápido demais: Claudinei, em fraldas de bebê – cena já vista – faz seu monólogo sobre a fimose passar pelo incômodo, grotesco, ultrajante até chegar no tedioso. Não há muito a ser discutido na assembléia dos cabeções, que se encerra em pancadaria, na falta de idéia melhor. E por aí vai: não fossem os cacos, o espetáculo poderia ter meia hora apenas.
É pena. A impressão que dá é que, com o tempo tomado por outros espetáculos e debates, não houve tempo para o grupo aprimorar este. E conta com a boa vontade do público, que nunca falta. Mas amigos na platéia raramente contribuem para o aprimoramento.
A boa notícia é que apesar de tudo funciona, e que o Espaço vai bem, obrigado, já cenário de festas e eventos marcantes na praça Roosevelt de tantas histórias. A má é que agora já se deve esperar mais dos Parlapatões: algo de novo que não dependa tanto do improviso no precário.
Duas estrelas


Escrito por Sérgio às 19h18
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