MONTAGEM SOFRE DE EXCESSO DE CERTEZAS
Nas últimas décadas, o cinema ajudou muito o teatro a se tornar mais ágil e sintético, fragmentando a sua narrativa, ao mesmo tempo que consagrou a interpretação interiorizada, menos “teatral”. Assim, quando um cineasta veterano como Bruno Barreto estréia no palco, a curiosidade é grande para conferir ganhos e perdas desse translado.
O que há de ingênuo em “Dúvida” transparece logo no cenário de Cássio Amarante: pequenos sets montados e desmontados durante excessivos e previsíveis black-outs, em geral precedidos por um ‘close’ de recorte de luz no rosto do ator, fazendo com que também a luz de Wagner Freire ceda a uma camisa-de-força inútil da direção.
No entanto, a prioridade dada à interpretação, nessa trama construída por longas cenas nas quais os personagens se conflitam aos pares, se constitui em um bom veículo para a técnica de seus principais atores. Regina Braga, no papel da autoritária diretora de uma escola católica, é meticulosa em intonações e gestos, tornando nítida a sua função na trama sem perder nenhum detalhe de seu enfraquecimento progressivo. A excelência de sua interpretação faz com que se possa cobrar mais dela na articulação – a ausência de “s” em alguns ‘mais’ de seu texto contradiz a auto-exigência de seu personagem.
Isabel Teixeira, no papel de uma jovem professora emotiva e ávida por endosso, sofre no começo com a ingenuidade quase caricatural com que o personagem é apresentado, mas tem sensibilidade e inteligência para aprofundá-lo ao longo da peça.
Dan Stulbach tem o carisma necessário fazer para o protagonista, um padre cujo prestígio entre os alunos acaba tornando-o suspeito de pedofilia, ao proteger um aluno negro, o que complica os estigmas em jogo. Simpático e com boa técnica, o que convém a um chamariz de público, deixa-se contagiar no entanto pela sentenciosidade dos seus sermões, dando-lhe sempre, e muito cedo, um tom de vilão de novela. Lena Roque também parece recitar seu texto – o que seu papel de mãe do aluno negro, menos ingênua do que se imagina, tolera menos.
Assim, para uma trama construída em torno de ambiguidades e pequenas reviravoltas, a montagem sofre de excesso de certezas. Tudo é entregue desde o início: a culpa do padre, contradizendo o título, não gera a menor dúvida.
Não que o texto seja muito mais profundo do que isso. Apresentado como uma ‘parábola’, pretensão endossada no ano passado por um prêmio Pulitzer e vários Tony, o Oscar do teatro estadunidense, a peça de John Patrick Shanley é habil e bem escrita, mas se mantém prudentemente no limite da polêmica, em dose adequada para o moralismo da era Bush, mas que soa um pouco frio e esnobe nas platéias tupiniquins. Estando mais à vontade com os palcos, Barreto poderá dispensar a garantia falaciosa da consagração no exterior em suas próximas montagens.
Duas estrelas


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