Na Moita


02/12/2006


A FALTA QUE NOS MOVE CELEBRA A MEMÓRIA COLETIVA

Quando o teatro é proposto como provocação - isto é, quando ele cumpre seu mais alto papel - fica prazeirosamente difícil para o crítico resumir e conceituar o que vê. É assim com "Amor de Improviso" da Companhia Elevador de Teatro Panorâmico, que encerra a temporada hoje no teatro Viga. É assim com "A Falta que nos Move", da Companhia Vértice de Teatro, que chega do Rio de Janeiro, e é por enquanto a obra prima do naturalismo experimental de Christiane Jatahy.

Em ambas as peças, a incorporação do acaso, com participação da platéia, obriga o teatro a ficar no aqui-agora, resgatando a função ritualística de estranhamento do cotidiano, própria do teatro, seja ele artaudiano, brechtiano ou stanislavskiano. Em ambas, a trama é tenue: a primeira se joga no caos do amor, como já fez Barthes; a segunda joga com a memória, no compartilhamento entre o segredo individual e a crônica de geração.

A peça de Jatahy, no entanto, vai bem além do experimental. Neste jantar entre amigos, que evocam fragmentos da infância nos anos 70, tudo parece aleatório e no entanto é cuidadosamente medido, como uma jam session de jazz. O amigo que se espera junto a platéia, e que talvez virá, dependendo da situação dos aeroportos; o tempo de cozimento da picanha que talvez ficará no ponto no fim do espetáculo; os conflitos em psicodrama que promovem constantes guinadas no ritmo e no tom do espetáculo são minuciosamente embalados por uma trilha acionada em cena aberta pelos próprios participantes, e uma marcação tão fina e precisa que não se enxerga.

Atardar-se demais no resumo da peça é estragar prazeres, como uma explicação dos truques de um mágico. Os atores vestem personagens tão sob medida que parecem quase estar em um reality-show - com a vantagem que suas prendas e manias são inteligentes e divertidas a ponto de darem impressão de se estar entre velhos amigos. Mais do que isso: convidada, a platéia não se constrange em dar seu próprio depoimento, o que faz que sempre mude um espetáculo que dá a impressão que nem começou, até o momento que acaba.

Assim, "A Falta que Nos Move" é um perfeito meio termo entre as experiências anteriores de Jatahy: "Conjugado", que disseca a solidão de uma solteirona em uma performance de zoológico humano, e "Leitor por Horas" que faz uma minuciosa demonstração de como age o subtexto em uma dramaturgia mais convencional. Sem hermetismos nem fórmulas esgotadas, este naturalismo experimental seduz o público de novela e o leva a um grande salto conceitual, quando o faz compartilhar a angústia pela busca do tempo perdido. Cristina Amadeo, Marina Vianna, Kiko Mascarenhas, Pedro Brício e Roberta Gualda, complementares e ágeis como um caleidoscópio, nos dão saudades assim que termina o espetáculo, que é para se guardar na memória, como um momento precioso.

Quatro estrelas

Escrito por Sérgio às 16h27
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01/12/2006


PEÇA DE MARCELO FONSECA CUMPRE MENOS QUE PROMETE

Após quatro anos de processo e doze versões, “Todos os Homens Notáveis” surge com a vocação de ser o “Cidadão Kane” de Marcelo Marcus Fonseca. De fato, o ator-diretor-dramaturgo propõe com fé no taco um texto de longo fôlego que procura tocar incômodas feridas da tão jovem e já tão desacreditada democracia brasileira. Conta para isso com a cumplicidade de sua Companhia Teatro do Incêndio, com boas montagens no currículo, e o endosso de medalhões do teatro paulista, como Davi de Brito na luz e Lola Tolentino nos figurinos.
Bem amparada, e com tão bons propósitos, esta montagem no entanto não consagra a companhia, e causa um impacto no fim das contas bem menor do que se poderia esperar. Buscar as razões desse quase anticlímax não leva a uma desautorização do grupo, que vem merecendo ser seguido de perto, nem visa desmascarar uma pretensão desmedida – afinal, um não-sucesso pode revelar mais sobre a época em que é encenado do que um triunfo mistificador.
Ao contrário de Orson Welles em “Cidadão Kane”, aliás, o diretor não pretende aqui revolucionar a linguagem narrativa. Deixa pelo contrário muito claras as suas referências: as cenas curtas com diálogos entrecortados cheios de frases de impacto remetem imediatamente ao “Beijo no Asfalto” de Nelson Rodrigues, com seus jornalistas amorais, magnatas patéticos em suas perversões e ingênuos úteis que vão se corrompendo diante das circunstâncias. Da mesma forma, vêm diretamente do universo de Antunes Filho muitas das soluções cênicas, como os coros alegóricos e o cenário minimalista que vai sendo moldado pelas necessidades de cada cena, além da elegante trilha executada ao vivo e, é claro, a luz de Brito.
Mas a montagem se desautoriza quando, ao pretender desmascarar os mecanismos escusos do poder, reafirma lugares comuns. Conrado Reis, dono de emissora de televisão, se torna governador graças ao apoio de seu amigo Olavo Silvestre, dono de um grande jornal que até então condenava a vulgaridade da programação de Reis. Inebriados pelo poder, acabam se destruindo ao exporem a sujeira acumulada por baixo do tapete – sobretudo o poder paralelo de uma garota de programa “criada” por Reis que se envolve com um jornalista iniciante e idealista do pequeno jornal rival.
A atuação apaixonada de Fonseca, no papel de Reis, e de Gustavo Engracia, que faz Olavo com uma densidade contida, contribuem para evitar que a montagem descambe em uma chanchada cínica e maniqueísta. Questões delicadas são tratadas nas entrelinhas, como o secreto homossexualismo, que humaniza ambos, e a ironia esperta dos diálogos faz contrapeso ao que o espetáculo tem de sentencioso. Personagens mais chapados, no entanto, levam a interpretações mais caricaturais, como a garota de programa feita por Camila Turim e o inocente útil Manoel Candeias.
O espetáculo se ressente sobretudo por cenas redundantes e ilustrativas, como a da festa da posse, na qual uma advogada corrupta é desafiada a expor em meio à orgia suas futuras estratégias de defesa para a corrupção inevitável. No começo do processo, em 2002, talvez a cena ainda tivesse uma força de delação. Tantas CPIs inúteis depois, a denúncia acaba apenas ecoando a vulgaridade do real, sem trazer luz nova ao problema.
Como é comum em espetáculos dirigidos pelos dramaturgos, a peça pede um enxugamento rigoroso, que não tivesse dó de suprimir a lírica shakespeareana que alguns solilóquios alcançam, com prejuízo do ritmo geral. O público que aplaude vigorosamente ao final da peça parece querer assim endossar a indignação de seus autores, contra a política podre na raiz, vendida ainda pelo todo poderoso marketing disfarçado de notícia. Mas o fato de que, tantas denúncias depois, o panorama não parece mudar, mostra que uma investigação mais profunda das causas ainda seja necessária. A denúncia de “Todos os Homens Notáveis” não é vazia, mas chove no molhado, e apesar da sua elegância e empenho acaba ficando bem aquém do seu potencial.
Duas estrelas

Escrito por Sérgio às 14h50
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27/11/2006


"EDMOND" EXPÕE O MECANISMO DO PRECONCEITO

É de testosterona e adrenalina o universo de David Mamet – o que não quer dizer que seus protagonistas, em geral da classe média branca em crise de valores, os ‘white angry men’ nova-iorquinos, estabeleçam verdades unilaterais. "Edmond", por exemplo, que desde a década de 90 já rendeu montagens antológicas (Kenneth Branagh no Royal National Theatre de Londres em 2003, William H. Macy na recente versão para o cinema) é uma fábula justamente sobre a perda das certezas, e de como a raiz da homofobia e do racismo está paradoxalmente em um fascínio pelo oposto: todo medo esconde um desejo.

Uma cartomante convence Edmond que ele não está tendo a vida que merece. Por impulso, ele abandona a mulher e vai testar sua sobrevivência na selvagem noite urbana, entre prostitutas e trapaceiros, para conseguir se reinventar na manhã seguinte só depois de ter exteriorizado o pior de si, com conseqüências terríveis e irreversíveis. São cenas curtas de diálogos essenciais, em uma seqüência de acontecimentos alucinante, algo como o Woyzeck de Büchner reescrito por Harold Pinter.

A diretora Ariela Goldmann segura com firmeza as rédeas desse desafiador exercício para atores. Mantém o distanciamento irônico sem cair nem no didatismo reducionista nem no melodrama grandiloquente, se concentrando sobretudo no ritmo das falas, bem amparada pela fluida tradução de Marco Aurélio Nunes. Diálogos nervosos contrastam com longos silêncios, que a elegante trilha de Raul Teixeira acentua, e é sempre bom ver um texto bem falado no palco.

Marco Antônio Pâmio tem uma atuação memorável, comedida e visceral, tornando plausível a monstruosidade que aflora em Edmond sem perder a sua delicadeza – lembra às vezes Jean-Louis Barrault no "Rinoceronte" de Ionesco, uma criança contrariada em descompasso com o mundo. Está bem cercado por Cácia Goulart, Virgínia Buckowski e José Ferro, entre outros, que garantem um inteligente contraponto em papéis pequenos.

Nem tudo atinge a mesma essencialidade, no entanto. O cenário e figurinos dão impressão de um improviso no precário que remete a peça a um exercício de escola. Atores entram constantemente em cena apenas para mudar elementos desnecessários, o que distrai e desautoriza a precisão presente na atuação.

Se fossem deixados apenas com sua grande responsabilidade de criar tipos caleidoscópicos, o elenco talvez ganhasse profundidade maior, conquistando a atenção do público para além da compreensão dos fatos. Sob sua aparente simplicidade estrutural, "Edmond" toca em feridas desconcertantes sem apontar soluções óbvias: não adianta apenas condenar o preconceito, é preciso desvelar seus mecanismos cotidianos.

Três estrelas.

Escrito por Sérgio às 11h15
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