A FALTA QUE NOS MOVE CELEBRA A MEMÓRIA COLETIVA Quando o teatro é proposto como provocação - isto é, quando ele cumpre seu mais alto papel - fica prazeirosamente difícil para o crítico resumir e conceituar o que vê. É assim com "Amor de Improviso" da Companhia Elevador de Teatro Panorâmico, que encerra a temporada hoje no teatro Viga. É assim com "A Falta que nos Move", da Companhia Vértice de Teatro, que chega do Rio de Janeiro, e é por enquanto a obra prima do naturalismo experimental de Christiane Jatahy. Em ambas as peças, a incorporação do acaso, com participação da platéia, obriga o teatro a ficar no aqui-agora, resgatando a função ritualística de estranhamento do cotidiano, própria do teatro, seja ele artaudiano, brechtiano ou stanislavskiano. Em ambas, a trama é tenue: a primeira se joga no caos do amor, como já fez Barthes; a segunda joga com a memória, no compartilhamento entre o segredo individual e a crônica de geração. A peça de Jatahy, no entanto, vai bem além do experimental. Neste jantar entre amigos, que evocam fragmentos da infância nos anos 70, tudo parece aleatório e no entanto é cuidadosamente medido, como uma jam session de jazz. O amigo que se espera junto a platéia, e que talvez virá, dependendo da situação dos aeroportos; o tempo de cozimento da picanha que talvez ficará no ponto no fim do espetáculo; os conflitos em psicodrama que promovem constantes guinadas no ritmo e no tom do espetáculo são minuciosamente embalados por uma trilha acionada em cena aberta pelos próprios participantes, e uma marcação tão fina e precisa que não se enxerga. Atardar-se demais no resumo da peça é estragar prazeres, como uma explicação dos truques de um mágico. Os atores vestem personagens tão sob medida que parecem quase estar em um reality-show - com a vantagem que suas prendas e manias são inteligentes e divertidas a ponto de darem impressão de se estar entre velhos amigos. Mais do que isso: convidada, a platéia não se constrange em dar seu próprio depoimento, o que faz que sempre mude um espetáculo que dá a impressão que nem começou, até o momento que acaba. Assim, "A Falta que Nos Move" é um perfeito meio termo entre as experiências anteriores de Jatahy: "Conjugado", que disseca a solidão de uma solteirona em uma performance de zoológico humano, e "Leitor por Horas" que faz uma minuciosa demonstração de como age o subtexto em uma dramaturgia mais convencional. Sem hermetismos nem fórmulas esgotadas, este naturalismo experimental seduz o público de novela e o leva a um grande salto conceitual, quando o faz compartilhar a angústia pela busca do tempo perdido. Cristina Amadeo, Marina Vianna, Kiko Mascarenhas, Pedro Brício e Roberta Gualda, complementares e ágeis como um caleidoscópio, nos dão saudades assim que termina o espetáculo, que é para se guardar na memória, como um momento precioso. Quatro estrelas


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