São sete e meia da noite: Erick, sua mulher Margreta e suas duas filhas Ann e Ewa acabam de jantar. Encontram-se uma vez por mês, para reabrir velhas feridas. Às nove e meia, quando as filhas saírem, não restará pedra sobre pedra - até o mês seguinte. No cardápio do dramaturgo contemporâneo sueco Lars Norén, os mesmos ingredientes da "Longa Jornada" de O`Neill, na receita da nouvelle cuisine de Bergman: velhos rancores sussurrados, segredos de família expostos sem nenhum melodrama. Embora essa cena única vá fazendo camada por camada a vivissecção implacável do cotidiano em tempo real, como se observado pela janela do prédio em frente, não se trata aqui de um naturalismo moralista e documental. Pelo contrário: o que garante a verossimilhança da cena é justamente a sua estilização. Os diálogos são entrecortados, alusões interferem umas nas outras e vozes sobrepostas dão lugar a pesados silêncios, como na vida real, mas basta uma pequena hesitação na deixa, uma pequena variação da fala dos atores - ou seja, a concessão ao espontâneo, como no naturalismo - e a ilusão de realidade se desfaz. O realismo talvez seja assim o gênero mais difícil de encenar, por ser essa convenção invisível - e exige um encenador preciso e sutil, como Eduardo Tolentino, que pode dar a impressão de estar simplesmente aderindo a uma convenção fácil, justamente quando batalha junto aos atores pela perfeição de cada detalhe. Assim, um caleidoscópio de marcas paralelas, de distribuição de pesos, de pequenos balés gestuais marcando subtextos prende a atenção do público mais do que algum truque de carpintaria teatral. Ninguém melhor então do que Tolentino para fazer a estréia brasileira de Norén - o menos, aqui, é mais, e a ausência de trilha sonora, deixando o ritmo inteiramente na responsabilidade dos atores, serve mais ao espetáculo do que a luz excessivamente simbólica de Wilson Reiz. Por esse pulso firme do encenador brilham os atores. Sérgio Britto hipnotiza a platéia com uma doçura infinita, meios sorrisos, silêncios desamparados. Suely Franco prova que pode muito mais do que ser engraçada, tirando de si uma profundidade surpreendente. Velhas comparsas do diretor, Emilia Rey, fazendo Ewa, a filha que deu certo, se contém para explodir no final, enquanto que Denise Weinberg mantém a energia provocadora de Ann, vital para a peça não girar em falso, embora nenhuma grande revelação seja feita. Verdadeiro anti Nelson Rodrigues, que devassa os avessos da família, fantasias de incesto em auto-destruições carinhosas, mas sem nenhuma insolência, nenhum deboche implícito, apenas com um humor triste e conformado, Lars Norén perturba e consola ao mesmo tempo. Não há salvação na família, revela essa peça de duas décadas atrás, parte de uma trilogia - e sua fase atual irá isolar o indivíduo na sociedade. Mas não há nenhuma tragédia nisso também. Jantares de família são assim mesmo: cada um é a causa e o remédio da dor do outro, como todos se lembram a cada Natal. Quatro estrelas


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