Na Moita


09/12/2006


São sete e meia da noite: Erick, sua mulher Margreta e suas duas filhas Ann e Ewa acabam de jantar. Encontram-se uma vez por mês, para reabrir velhas feridas. Às nove e meia, quando as filhas saírem, não restará pedra sobre pedra - até o mês seguinte.

No cardápio do dramaturgo contemporâneo sueco Lars Norén, os mesmos ingredientes da "Longa Jornada" de O`Neill, na receita da nouvelle cuisine de Bergman: velhos rancores sussurrados, segredos de família expostos sem nenhum melodrama. Embora essa cena única vá fazendo camada por camada a vivissecção implacável do cotidiano em tempo real, como se observado pela janela do prédio em frente, não se trata aqui de um naturalismo moralista e documental.

Pelo contrário: o que garante a verossimilhança da cena é justamente a sua estilização. Os diálogos são entrecortados, alusões interferem umas nas outras e vozes sobrepostas dão lugar a pesados silêncios, como na vida real, mas basta uma pequena hesitação na deixa, uma pequena variação da fala dos atores - ou seja, a concessão ao espontâneo, como no naturalismo - e a ilusão de realidade se desfaz.

O realismo talvez seja assim o gênero mais difícil de encenar, por ser essa convenção invisível - e exige um encenador preciso e sutil, como Eduardo Tolentino, que pode dar a impressão de estar simplesmente aderindo a uma convenção fácil, justamente quando batalha junto aos atores pela perfeição de cada detalhe. Assim, um caleidoscópio de marcas paralelas, de distribuição de pesos, de pequenos balés gestuais marcando subtextos prende a atenção do público mais do que algum truque de carpintaria teatral.

Ninguém melhor então do que Tolentino para fazer a estréia brasileira de Norén - o menos, aqui, é mais, e a ausência de trilha sonora, deixando o ritmo inteiramente na responsabilidade dos atores, serve mais ao espetáculo do que a luz excessivamente simbólica de Wilson Reiz.

Por esse pulso firme do encenador brilham os atores. Sérgio Britto hipnotiza a platéia com uma doçura infinita, meios sorrisos, silêncios desamparados. Suely Franco prova que pode muito mais do que ser engraçada, tirando de si uma profundidade surpreendente. Velhas comparsas do diretor, Emilia Rey, fazendo Ewa, a filha que deu certo, se contém para explodir no final, enquanto que Denise Weinberg mantém a energia provocadora de Ann, vital para a peça não girar em falso, embora nenhuma grande revelação seja feita.

Verdadeiro anti Nelson Rodrigues, que devassa os avessos da família, fantasias de incesto em auto-destruições carinhosas, mas sem nenhuma insolência, nenhum deboche implícito, apenas com um humor triste e conformado, Lars Norén perturba e consola ao mesmo tempo. Não há salvação na família, revela essa peça de duas décadas atrás, parte de uma trilogia - e sua fase atual irá isolar o indivíduo na sociedade. Mas não há nenhuma tragédia nisso também. Jantares de família são assim mesmo: cada um é a causa e o remédio da dor do outro, como todos se lembram a cada Natal. Quatro estrelas

Escrito por Sérgio às 15h09
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08/12/2006


A luta continua

Sergio, tudo bom?

Como foi feito no ano passado, o Guia da Folha vai elencar, na última edição do ano (29/12), os melhores de 2006.

A exemplo do que ocorreu no ano passado, gostaríamos de convidá-lo para participar votando na categoria teatral mais uma vez.

Você deve escolher os três melhores em ordem de preferência (1º, 2º e 3º lugares), acrescidos de um comentário de, no máximo, 50 caracteres. Serão atribuídos pontos da seguinte forma:

1º lugar - 3 pontos

2º lugar - 2 pontos

3º lugar - 1 ponto

Os votos devem ser enviados até o dia 15/12. Pedimos atenção ao prazo e ao limite de caracteres (comentários que excederem o espaço serão editados a critério da redação).

Faremos também uma lista com os micos do ano (eventos que deram errado, espetáculos decepcionantes, casas com problemas de estrutura etc). Votos para os micos também são bem-vindos (mas não são obrigatórios e não precisam obedecer à ordem de preferência - uma menção é suficiente). O mico deve ser acrescido de um comentário de um parágrafo.

Agradeço a sua participação.

Abraço, Pedro

Escrito por Sérgio às 15h55
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Motivo do que vai adiante

 Pedro


Este ano vou recusar, me desculpe. Acabo de recusar uma pauta semelhante da Quem Acontece. Embora eu saiba que a linha editorial é diferente, o resultado - a classe teatral me ver como um juiz divulgador - acaba sendo o mesmo. Não vão notar a minha recusa, é claro, mas prefiro me manter distante da fogueira das vaidades. A coerência é o único privilégio que eu tenho.

Um abraço

Sérgio

Escrito por Sérgio às 15h54
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07/12/2006


A Fama bata à minha porta

Bom dia, Sérgio. Liguei na Folha mas não puderam me passar seu contato telefônico. Gostaria de fazer um convite para uma matéria da revista Quem Acontece, da Editora Globo. É uma edição especial de final de ano, onde vamos publicar os seis nomes que aconteceram em 2006 no campo da música, tevê, cinema, moda, trabalhos sociais e TEATRO. Você pode indicar peças, grupos teatrais, diretores, figurino... Não existe uma única categoria. São os seis melhores do ano com uma pequena justificativa. Serão dois críticos em cada área. Em teatro será Bárbara Heliodora e gostaríamos de contar com você nessa parceria. Além dos eleitos, publicaremos também um pequeno perfil de cada crítico.
É a última edição do ano e chegará às bancas no dia 28 de dezembro.
Posso explicar melhor por telefone. Como não tenho o seu, agradeço se puder me ligar ainda hoje. Desculpe a correria, mas o prazo está estourado e tivemos mudança na pauta ontem. Você sabe como funcionam essas coisas.
 
um abraço
;)

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Soraia

Escrito por Sérgio às 09h56
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Não vai acontecer

Cara Soraia

Infelizmente não posso atender à sua solicitação. Depois de alguns anos escrevendo críticas cheguei à conclusão que o que mais interfere no diálogo entre o criador e observador externo, esta cooperação sem concessões que deveria ser a única função da crítica, é a pressão classificatória do mercado. Não voto mais no APCA, derrubei a escolha dos "cinco mais" do Fringe de Curitiba e só continuo a atribuir estrelas por exigência editorial.
Não me sinto portanto qualificado para decidir "quem acontece". É um poder que eu não quero ter. E confesso que tenho medo de, uma vez lançado nessa missão, acabe fuçando na vida pessoal dos famosos para denunciar amizades indevidas.

Receba, no entanto, minha amizade desinteressada. Fico à disposição para contribuir com qualquer matéria que fuja à linha editorial expressa no título da sua revista.

Sérgio Coelho

Escrito por Sérgio às 09h54
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