LATÃO CELEBRA BRECHT COM REUNIAO DE GRUPOS
Cinqüenta anos depois de sua morte, Bertolt Brecht continua de esquerda. Para celebrar o fato, é conveniente que uma montagem marcante venha da Companhia do Latão, que vai fazer dez anos de uma produção que segue com aplicação as estratégias brechtianas, nem sempre bem sucedida em termos estéticos, mas sem ambigüidades nem concessões.
É conveniente também que o texto escolhido para isso seja O Círculo de Giz Caucasiano, peça de tempos de transição, que se apóia na questão agrária para discutir a responsabilidade histórica de cada um. Na verdade, são três peças combinadas: na segunda, em meio à revolução, a criada Grucha salva o filho do tirano por um impulso de bondade, dividindo com a criança a sua miséria. Na terceira, Azdak, o escrivão, garante a lei a seu modo, entre o cinismo e a genialidade, na melhor tradição popular de Gil Vicente, e acaba dando um veredicto exemplar para a questão: quem deve ficar com a criança-terra, quem a possui ou quem cuida dela?
A primeira história serve de enquadramento: as duas fábulas são apresentadas para celebrar um acordo entre dois grupos que disputavam o mesmo terreno desocupado após a guerra. O fato desse prólogo se referir a fatos de 1947, quando a peça estreou em 1954, cria um teatro dentro do teatro, estranhamento típico do épico. Algumas montagens dispensam a introdução, acreditando que a trama se sustenta por si só.
Comprometido com a dialética, o Latão mantém o prólogo e faz a aproximação necessária com a questão agrária atual, isto é, com o MST. Projeta assim um pequeno filme no início, assistido por público e atores, mostrando improvisos dentro do assentamento Carlos Lamarca, com a participação dos atores da companhia literalmente manipulados pelos locais. O recurso “esfria” o começo do espetáculo e soaria demagógico se o grupo mantivesse no palco a escassez expressiva, com um didatismo quase catequético, do filme. Mas não: assim como Brecht se gabava de expressar a miséria em cena com o tecido mais caro, a encenação do Círculo de Giz do Latão tem grandes luxos.
E não é só no belo figurino de Fábio Nataname, que assina também o cenário brookiano de elementos essenciais e múltiplos. O luxo está presente na vibrante tradução de Manuel Bandeira, um anticomunista que criou laços de sangue com poesia desesperada de Brecht, dita com uma aplicação rigorosa. Está na partitura sofisticada de Martin Elkmmeier, que o elenco tem mais dificuldades para seguir, e sobretudo no elenco, que gira em torno da preciosa fragilidade de Helena Albergaria.
Depois de anos se policiando contra a emoção, Sérgio Carvalho aprendeu a usá-la não como uma concessão ao psicológico, mas como um instrumento preciso e poderoso de reflexão. Assim, as lágrimas de Grucha encontram contraponto não tanto na bonomia de Azdak – sendo o carismático Ney Piacentini um pouco simpático demais para inquietar – mas no vigor popular de Cibele Jácome, que vem do Teatro do Pequeno Gesto, assim como outros convidados da Companhia São Jorge de Variedades , Núcleo Argonautas e A Santa Palavra.
Esse encontro de companhias que trilham caminhos paralelos acaba sendo mais eficiente para reproduzir o congraçamento do círculo caucasiano que a referência um pouco subserviente ao movimento social do MST. É vital que o momento histórico atual seja associado à peça, ou estaria enterrado Brecht em sentimentalismo. Mas o Latão poderia confiar que o público é capaz de fazer isso por conta própria, sem um prólogo tão explícito. A sutileza, como eles demonstram, convence mais.


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