ANTES DO BAILE VERDE É UM EXERCÍCIO MENOR DA CIA RAZÕES INVERSAS
Em seus dezessete anos de existência, a Companhia Razões Inversas acumulou um currículo invejável, com um antológico Ricardo II, que devassava a era Collor, até a consagração definitiva de recente Agreste, representante do Brasil em Festivais Internacionais.
Paulo Marcello, um dos atores de Agreste, assume a direção deste Antes do Baile Verde, adaptação de Valderez Cardoso Gomes do conto de Lygia Fagundes Telles. A marca da Companhia está no despojamento do cenário e na boa trilha, assinados também por Marcello, e no respeito com o texto que mantém, como em Agreste, descrições das ações e dos personagem ditas pelas atrizes na terceira pessoa.
Essa dimensão épica, que em princípio serve para distanciar o público da emoção da situação dramática e convidá-lo a compartilhar a reflexão sobre a estrutura, tem suas armadilhas: pode, como aqui, esfriar irremediavelmente o espetáculo.
Assim, sabemos pelo conto dito em cena que o conflito se dá entre uma jovem que vela o pai moribundo e sua empregada negra, que vai deixá-la sozinha para brincar o carnaval, frustrando o desejo da patroa de também ir ao baile. Marcello assimilou bem a lição de Marcio Aurélio, seu diretor em Agreste: não é necessário ilustrar o que o texto já diz, e Lulu Pavarin, uma atriz branca, não precisa de nada além de sua espontaneidade quase escachada para realisar a leve alusão à desigualdade social de Telles, em contraste à ingenuidade um pouco afetada de Tatiana Caltabiano.
Da mesma forma, não é preciso realizar em cena a confecção da fantasia da patroa, pretexto para a breve solidariedade que se estabelece, já que ela é narrada: a ação é substituida simbolicamente pelo acender de velas em vários candelabros, síntese do baile e do velório. No entanto, a solenidade com que a ação é feita ralenta todo o espetáculo, que se resume a um ritual que não tira partido do contraste entre a urgência da festa lá fora e a lenta agonia de dentro. Com pouca ação para se apoiar, as atrizes acabam ofuscadas de vez pelo recurso de se projetar documentos sobre os carnavais antigos e quadros de Di Cavalcanti.
Meticuloso, mas ingênuo, quase auto-indulgente, o espetáculo surge como um exercício menor, e dá a impressão de esticar demais uma cena que não necessita de muito tempo para dizer a que veio, com suas qualidades e suas limitações.
Duas estrelas