BALAGAN FAZ LONGO EXERCÍCIO SOBRE O PODER Depois de longos anos com um repertório constrangedor, o Teatro da Usp começa a dar mostras de querer cumprir sua vocação, ou seja, de ficar a serviço de um teatro experimental, embasado pela academia: a pesquisa a serviço do risco, da inovação. Foi para isso que ele foi concebido em seus primórdios, quando Décio da Almeida Prado apenas sonhava com o Teatro Brasileiro de Comédia, e a luta não só continua, como é cada vez mais urgente. Desta forma, a estréia de Západ no Tusp é uma boa notícia por si só. Maria Thaís, diretora do grupo Balagan, é uma pesquisadora que consagrou com "Tauromaquia", sua montagem anterior, seus estudos sobre Meierhold, o encenador russo muito discutido mas pouco praticado em profundidade. A montagem atual propõe um salto ainda maior, saindo do tema regional para um espetáculo que já nasce sintonizado com o que anda se buscando nos palcos do mundo. Assim, o tema é amplo: o exercício do poder visto enquanto aventura individual. Ivan, o Terrível, do lado oriental, em paralelo com Elisabeth I, representando o Ocidente, aparecem em três etapas: no desejo da juventude, na ferocidade do ápice e na melancolia da decadência. Nas três peças, apresentadas ora separadas, ora juntas, dependendo do dia, evita-se a idealização hagiográfica dos poderosos pela utilização do bufão como narrador. Pondo sempre a história escatologicamente com os pés nos chão, sem perder o lirismo dos lunáticos, os biografados são apresentados como monstros de feira, e cada ator, alternando papéis menores ou maiores de acordo com as peças, tem a oportunidade de exercer o grotesco e o sublime. Trabalhando em paralelo, sem perder seu estílo próprio, os dramaturgos puderam criar, mais do que histórias que se completam, um tema e variações, como se diz em música erudita - aventura que a luz, o cenário ágil e despojado e a música feita em cena servem bem. E no entanto, exatamente em respeito à seriedade da empreitada, é preciso testemunhar aqui que Západ não é um espetáculo bem sucedido. O "primeiro movimento", De Neve e Neblina, de Alessandro Toller, soa como longos monólogos sobrepostos perdidos em solenidade, uma longa introdução a algo que só surgirá na segunda peça, imagina-se. Mas não: a "Peleja..." anunciada saborosamente como um cordel, por Newton Moreno, embala tanto em auto-ironia que acaba chegando em lugar nenhum. "Dies Irae", do mestre Luis Alberto de Abreu, é quem concilia melhor sagrado e profano, o épico e lírico. Seria tentador aconselhar o público médio a vir ver apenas esta: mas ela está tão organicamente ligada às outras, como um arremate de marcas e conceitos, que talvez não faça sentido sozinha. Tão altas são as premissas de Západ que talvez ele tenha se condenado a ser uma peça para especialistas. Apesar de embasada no popular, mesmo uma atriz carismática como Beatriz Sayad não consegue superar a impressão de um exercício brilhante, mas longo demais. São os riscos do experimental: longa vida a eles. Duas estrelas


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