Na Moita


18/01/2007


BALAGAN FAZ LONGO EXERCÍCIO SOBRE O PODER

Depois de longos anos com um repertório constrangedor, o Teatro da Usp começa a dar mostras de querer cumprir sua vocação, ou seja, de ficar a serviço de um teatro experimental, embasado pela academia: a pesquisa a serviço do risco, da inovação. Foi para isso que ele foi concebido em seus primórdios, quando Décio da Almeida Prado apenas sonhava com o Teatro Brasileiro de Comédia, e a luta não só continua, como é cada vez mais urgente.

Desta forma, a estréia de Západ no Tusp é uma boa notícia por si só. Maria Thaís, diretora do grupo Balagan, é uma pesquisadora que consagrou com "Tauromaquia", sua montagem anterior, seus estudos sobre Meierhold, o encenador russo muito discutido mas pouco praticado em profundidade. A montagem atual propõe um salto ainda maior, saindo do tema regional para um espetáculo que já nasce sintonizado com o que anda se buscando nos palcos do mundo.

Assim, o tema é amplo: o exercício do poder visto enquanto aventura individual. Ivan, o Terrível, do lado oriental, em paralelo com Elisabeth I, representando o Ocidente, aparecem em três etapas: no desejo da juventude, na ferocidade do ápice e na melancolia da decadência.

Nas três peças, apresentadas ora separadas, ora juntas, dependendo do dia, evita-se a idealização hagiográfica dos poderosos pela utilização do bufão como narrador. Pondo sempre a história escatologicamente com os pés nos chão, sem perder o lirismo dos lunáticos, os biografados são apresentados como monstros de feira, e cada ator, alternando papéis menores ou maiores de acordo com as peças, tem a oportunidade de exercer o grotesco e o sublime.

Trabalhando em paralelo, sem perder seu estílo próprio, os dramaturgos puderam criar, mais do que histórias que se completam, um tema e variações, como se diz em música erudita - aventura que a luz, o cenário ágil e despojado e a música feita em cena servem bem.

E no entanto, exatamente em respeito à seriedade da empreitada, é preciso testemunhar aqui que Západ não é um espetáculo bem sucedido. O "primeiro movimento", De Neve e Neblina, de Alessandro Toller, soa como longos monólogos sobrepostos perdidos em solenidade, uma longa introdução a algo que só surgirá na segunda peça, imagina-se. Mas não: a "Peleja..." anunciada saborosamente como um cordel, por Newton Moreno, embala tanto em auto-ironia que acaba chegando em lugar nenhum. "Dies Irae", do mestre Luis Alberto de Abreu, é quem concilia melhor sagrado e profano, o épico e lírico. Seria tentador aconselhar o público médio a vir ver apenas esta: mas ela está tão organicamente ligada às outras, como um arremate de marcas e conceitos, que talvez não faça sentido sozinha.

Tão altas são as premissas de Západ que talvez ele tenha se condenado a ser uma peça para especialistas. Apesar de embasada no popular, mesmo uma atriz carismática como Beatriz Sayad não consegue superar a impressão de um exercício brilhante, mas longo demais. São os riscos do experimental: longa vida a eles.

Duas estrelas

Escrito por Sérgio às 19h13
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15/01/2007


DIREÇÃO REFINADA É O TRUNFO DE PEQUENOS CRIMES CONJUGAIS

O casal entra em casa, e a esposa relata ao marido o seu próprio cotidiano: ele perdeu a memória em um acidente mal explicado, que vai sendo desvendado ao mesmo tempo que sua própria identidade, em uma longa cena cheia de reviravoltas.

Eric-Emannuel Schitt é um dramaturgo hábil, que se mantém entre o policial e a nova filosofia, conciliando o comercial e o cult. Paulo Autran, que já tinha montado seu texto "Variações Enigmáticas" em 1995, assina aqui a tradução, provando que o ator é o tradutor ideal para teatro: adapta gírias sem perder a fluidez nem a elegância sonora do texto.

Mas o grande trunfo dessa montagem é a direção. Márcio Aurélio, com seu perfeccionismo de sempre, controla desde a música inicial até a que toca na saída do público, dosando os climas com uma luz precisa e sobretudo com uma partitura detalhada de marcas e entonações. Assim, não importa tanto a elegância dos figurinos de grifes famosas nem o cenário de arquitetos: o requinte está no fato de que cada detalhe se inscreve em um código preciso de signos.

Ou seja: o frio cimento da sala se aquece subitamente com a biblioteca ao fundo, caótica como as memórias evocadas. O mesmo jogo de cores, cinza e marrom, está presente no figurino da esposa: um casaco que vai sendo despido a medida que sua frieza se dispersa, enquanto que o marido é uma caixa preta à deriva no espaço. Logo, as cores trocarão: o enigma passa a ser ela.

Em uma coreografia de boxe e tango, entre abismos de melancolia permeados por uma ironia fina, os atores se esforçam. São ao mesmo tempo o chamariz e o ponto fraco do espetáculo. A experiência de televisão falseia no palco: os timbres das vozes não correspondem à beleza dos corpos, momentos de interiorização parecem procurar câmeras para o close, mas mesmo disso Marcio Aurélio sabe tirar partido. Maria Fernanda Cândido tem um jeito desajeitado, quase adolescente de andar, que acaba servindo para a desautorização da femme fatale pedida pelo texto. No entanto, deixa muitas vezes seu parceiro Petrônio Gotijo sem apoio, e ele grita em excesso, puxando de si mesmo a energia que falta para a cena.

Seria de se imaginar que melhores atores se beneficiariam mais da excelente estrutura da montagem. No entanto, estes têm o mérito de arriscar a fama em um texto desafiador, que exige a inteligência do público mais do que as comédias comerciais de costume. "Pequenos Crimes Conjugais", pelo refinado diretor e atilado tradutor, melhora o gosto de uma platéia fundamental, muitas vezes menosprezada: a de elite.

Escrito por Sérgio às 11h59
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