Na Moita


26/01/2007


ANÁTEMA ANUNCIA NOVA FASE DE GALDINO

Juliana Galdino testa sua autonomia de vôo. Após sete anos como chamariz do Centro de Pesquisas Teatrais de Antunes Filho, faz um monólogo escrito e dirigido por Roberto Alvim. Evitando qualquer trauma pós separação, tem sempre o cuidado de apresentá-lo como uma segunda etapa da aprendizagem com o mestre, o que denota não só a maturidade da atriz como do próprio CPT.

E o que se colhe dos ventos semeados por Antunes? Em primeiro lugar, é preciso assinalar que a dupla Galdino/Alvim tem o potencial de duplas consagradas, como a dupla Fernanda D’Umbra/Mario Bortolotto ou Mariana Lima/Enrique Diaz. Substituindo o esquema de produção teatral em torno de um demiurgo e seus seguidores, que foi a regra em décadas passadas, o que se tem cada vez mais é uma equipe reduzida de iguais, que se desafiam e se completam: uma geração sem tutores.

Pouco conhecido ainda em São Paulo, Roberto Alvim é um dos motores do importante movimento Nova Dramaturgia Brasileira, do Rio de Janeiro, que sem pretender ser um celeiro de obras primas provou que o experimental tem sempre um público fiel, fundamental para a renovação do mercado. Este Anátema é sua décima quinta peça, e como indica o próprio autor, a síntese de sua obra.

Ao ver o rosto da mãe morta, uma mulher tem a revelação: a morte liberta da mediocridade da vida. Assim, torna-se serial killer por amor ao próximo. Não é sádica, apesar de matar após o sexo: a violência não a excita, mas vence a repugnância com exaltação cristã, com a sensualidade de Santa Teresa, com a alegria de Blaise Pascal: "pleurs de joie!".

Aqui, lágrimas e sangue correm com a urgência de um rio, e apesar da densa poesia do texto arrastar o espectador para um universo arquetípico, a encenação deixa claro que o contexto é o da confissão pública da assassina, ou talvez a apresentação de seu caso em um estudo clínico de hospital psiquiátrico. Assim, a referência do título ao ritual católico de excomunhão, "bem calculado para infundir terror ao criminoso, a fim de conduzi-lo ao arrependimento" como preconiza a Enciclopédia Católica, é sutilmente ambíguo: quem é anatemizado, a mediocridade da vida pela assassina, ou esta pela boa consciência do público?

Roberto Alvim mostra que assimilou bem o legado de Artaud: a crueldade no teatro é antes de tudo contra si mesmo, e o artista, sacerdote da dúvida, se apresenta como monstro de feira, para o voluptuoso medo de quem o vê. Seu universo, que beira o melodrama com a elegância minimalista do ‘film noir’, segundo a referência do nome de sua companhia, é próximo do de outro jovem dramaturgo: Celso Cruz. Aqui, no entanto, não há concessão nenhuma ao deboche trash, e às vezes a ausência do humor enquanto distanciamento leva a um tom um pouco assertivo: uma aula é dada ao público, subversiva sem dúvida, mas cheia de si, e cheia também de citações caprichosamente ocultas no texto, em uma intertextualidade que pode escandalizar os fãs de Herman Hesse.

Na performance de Juliana Galdino, esta convicção no próprio talento atrapalha também às vezes. Após anos canalizando a energia torrencial da tragédia grega, demonstrativa de um método radical de Antunes Filho, ela busca uma maior delicadeza para fazer ouvir "o que seu sangue murmura", como diz o Demian de Hesse, no ventriloquismo de Alvim. Sua voz, como um riacho inconstante, apesar de manter uma intonação grave e voluntariamente não natural, ora se faz quase inaudível no momento de dor, ora sangra represas com impressionante energia. Seria preciso um ouvido acurado de crítico musical para acompanhar essa delicada partitura, para assinalar com precisão seus excessos, mas arrisco aqui desejar por exemplo que, depois de um silêncio no paroxismo da dor, a inspiração ruidosa não roubasse o foco da palavra seguinte.

De qualquer forma, a elegância do espetáculo é garantida pela direção comedida, a iluminação marcante e o uso preciso de projeções. O Club Noir nasce com grande maturidade, sem dúvida, abrindo com bons ventos novos a temporada.

Escrito por Sérgio às 12h43
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