Na Moita


02/02/2007


As peças de Harold Pinter são como pedras lisas molhadas: de uma traiçoeira simplicidade. Seus diálogos não têm subtexto, como os de Samuel Beckett, e suas tramas trincham cenas banais do cotidiano até elas parecerem inverossímeis, como no universo de Ionesco.

Em "Volta Ao Lar", sua peça mais conhecida, um homem volta à sua família decadente, para apresentar sua esposa. Depois de anos de ausência, já não se identifica com a vulgaridade de suas origens: um pai brutal, um irmão amargo e invejoso, e o mais novo, boxeador, quase limítrofe. Um tio motorista poderia trazer alguma delicadeza, mas também está imerso em mediocridade. Quando o filho pródigo, ressabiado mas orgulhoso, apresenta sua mulher, seu grande prêmio por ter se tornado um professor universitário, esta é tratada como uma prostituta. E ela, com desarmante naturalidade, corresponde ao papel que lhe atribuem.

Simples assim. Não é trazido nenhum segredo do passado para justificar essa reação, e se Pinter flerta com algumas reviravoltas de melodrama, com uma morta súbita que se segue a uma revelação, isso é tratado em chave paródica, com o gelado humor inglês: ninguém perde o fleugma e segue a mesquinharia do cotidiano.

Desta forma, muito está nas costas da montagem: o texto pode ser transformado em um pesadelo kafkaniano ou em uma grande piada ao estilo do Monthy Piton, dependendo do gosto do diretor e da escolha do elenco. Alexandre Reinecke opta por um tom quase de sit-com, que se desvencilha da responsabilidade de cavar mais fundo, e se sai com a habilidade de sempre.

Aproveita, por exemplo, as particularidades do espaço cênico do Tucarena para concretizar as referências do texto aos "quartos de cima", sem se preocupar com nenhuma leitura simbólica - não faz pose de diretor intelectual, e faz o suficiente para chegar a um entretenimento acessível e rentável.

Seu grande trunfo é a escalação do elenco. Antônio Petrin tem a energia e o carisma necessários para o pai, que carrega a peça nas costas: é feroz como um javali, mas um javali que cozinha para a família e com que ela tem que jantar todas as noites. Eucyr de Sousa, o irmão do meio, faz um contraponto eficaz, com uma concentrada insolência que o livra de ficar na sombra do pai. De seu lado, Jorge Cerruti tem uma quilometragem teatral e uma presença cênica à altura de Petrin, indispensável para tornar interessante seu Tio Sam. Gustavo Haddad, que faz Joey, o caçula atleta, tira partido de seu tipo físico com inteligência, para fugir dessa competição de egos fortes.

Renato Modesto chega assim em uma cena bem aquecida, e pode fazer assim uma interpretação mais interiorizada, quase frágil: atirado às feras, erra apenas quando procura fugir ao patético com um reinterado gesto psicológico grandiloquente e injustificado. Ester Laccava faz Ruth, a esposa imprevisível, chave do estranhamento da peça. Há dois grandes modos de construir o personagem: ou como a dama que se deixa encanalhar por impulso irresistível, o que faz a peça ser mais perturbadora, ou como uma puta que não se esforça em colaborar com a farsa do irmão que volta. Aqui, a clara opção é pela vulgaridade, o que deixa Laccava à vontade e faz com que seu desempenho seja eficiente, sem desafiá-la no entanto a exigir mais de si.

É o caso geral, no fundo, das interpretações da montagem: conhecedores de Pinter irão sentir a falta de um tempo mais lento, com suas características pausas ao mesmo tempo sufocantes e hilárias, um contraste de tons que exige uma direção de atores mais cuidada. Muitas vezes, há a impressão de texto recitado, além de descuido com a tradução (temos direito à um "me dá uma fumaça" logo nos primeiros minutos), e uma trilha sonora aleatória, que despertiça os discos de blues bem escolhidos por Mario Bortolotto, que rodam ao vivo na vitrola.

Com esse texto e esse elenco, Reinecke poderia fazer melhor, talvez. Faz o suficiente, e não mexe na fórmula que está ganhando. Não cabe à crítica exigir que se arrisque mais aquele que tem tanta habilidade nas fórmulas garantidas do teatro comercial.

Tres estrelas

Escrito por Sérgio às 13h07
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

29/01/2007


O Teatro da Vertigem volta à sala de ensaio: não é um retrocesso, mas uma transição. Uma das mais importantes companhias brasileiras das últimas décadas, sempre se destacou pela intervenção urbana que exige longos anos de preparação, ocupando hospitais, presídios e igrejas. Aos poucos, no entanto, a monumentalidade dos projetos foi tirando o foco da performance dos atores, além de custar um esforço de produção quase heróico.

Com História de Amor, Antonio Araújo volta às suas origens de "sala preta", com a vantagem de poder voltar a se concentrar só nos atores. Mostra quase um ensaio aberto, mas que no entanto vem sendo elaborado desde agosto do ano passado, ocasião em que a Escola de Comunicação e Artes e o Consulado da França apresentaram vários textos de Jean-Luc Lagarce com direção de jovens diretores como Marcio Abreu e Marcelo Lazzaratto.

Toda a graça do jogo está justamente nisso, dar impressão de improviso e de criação no aqui agora, possibilitando que os atores tenham nas mãos justamente o que precisam para a história que vão inventando: uma escada vira trilhos de trem, a iluminação vai sendo construida pelos próprios atores que acionam interruptores para pontuar suas frases.

Lagarce tem uma grande habilidade com as palavras, cria situações de poesia densa com um mínimo de elementos, e seu flerte com a metalinguagem é reforçado pela encenação de Araújo, que literalmente constrói o cenário com as palavras do texto. História de Amor pertence à primeira parte de sua carreira, antes de se descobrir soropositivo, mas até sua morte em 1995, aos 38 anos, deixou 24 textos e 20 encenações de tons e tamanhos diversos, o que o possibilitou ser hoje o autor mais representado da França no mundo, ultrapassando Koltés. Neste ano de cinquentenário, muitas encenações estão previstas.

A devida informalidade com a qual Araújo brinca com o texto fica comprometida em parte por uma tradução literária demais. Uma expressão como "Disons ça", por exemplo, trivial como "fica assim" ou "vamos dizer que..." fica distanciada demais ao ser traduzida por "dizemos isso". Por outro lado, o público encontra o texto nas cadeiras no início, e muitos não hesitam em escutar ao invés de ver, o que é pena.

Um pouco engessados pelo formalismo, os atores perdem muitas vezes o contato entre si, e não parecem estar relatando experiências pessoais. No entanto, é um grande prazer ver Lucia Schwinden, que sempre marcou presença com personagens expressionistas, construir este agora com delicadeza quase naturalista, fazendo um emocionante uso de sua bela voz.

Com este ensaio de transição, volta à prancheta talvez, o Teatro da Vertigem mostra que está vivo no campeonato: sob a pele fina do texto de Lagarce, os músculos são poderosos.

Escrito por Sérgio às 12h29
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Histórico