Na Moita


06/02/2007


LES COMMEDIENS TROPICALES FAZEM REVISTA DO ANO COM HISTÓRIA NÃO OFICIAL

A Companhia Les Commediens Tropicales, com o escacho do nome em falso francês, exerce com plenos poderes a insolência da juventude. Some-se a isso uma vocação para a pesquisa histórica, sob a direção de bons mestres como Marcelo Lazzaratto (com quem despontou em um “Terror e Miséria no Terceiro Reich” de Brecht, que marcou o Festival de Curitiba) e Márcio Aurélio (com quem já fez um “Galvez Imperador do Acre”) e temos uma arma afiada apontada para a desmistificação da história oficial.
Desde Galvez, de elenco volumoso, a Companhia se enxugou bem, e ganhou em polivalência. Este “Chalaça” está em cartaz desde junho do ano passado, e chega a esta terceira temporada por um intenso rodízio de papéis, o que teve o mérito de nivelar por cima a competência de todos, sem nunca perder o apetite de ir em todas as bolas.
O termo é adequado para o universo de José Roberto Torero, cronista de importantes batalhas nos campos simbólicos, isto é, os de futebol, além da militância no cinema. Foi lançado enquanto autor em 1995 pela irreverência dessa biografia do Chalaça, a eminência parda de Dom Pedro I. A adaptação de Carlos Canhameiro, que também está no palco, trata de igual para igual com a ácida ironia de Torero, e ainda acrescenta a sólida base da pesquisa de Isabel Lustosa.
Com tal fé no taco a companhia dá-se o luxo de dispensar a trama de Torero, construindo o espetáculo só com depoimentos, numa radicalização da proposta de um teatro literário. Como a meta comum é a devassa das pequenas e grandes vilezas das pequenas e grandes figuras da pátria, o formato final foi o de uma CPI, coincidindo em sua estréia com o auge do carnaval midiático da CPI dos correios, que se afogou em histrionismo pizzaiolo.
Márcio Aurélio tem no currículo uma boa experiência nessa aventura de fazer o palco espelhar a realidade iminente: seu “Ricardo II” fez Shakespeare ser o porta voz dos penúltimos dias de Collor, com uma acuidade extraordinária. A sua direção é fundamental no espetáculo também por endossar a ousadia dos jovens ao preço de uma precisão de marcas com uma dinâmica sem concessões. A seqüência desarmante de uma competição de escatologia até as últimas conseqüências contribui muito, imagina-se, para garantir aos commediens uma torcida fiel.
No entanto, é preciso constatar que “Chalaça” é uma piada que envelheceu. Por mais que os atores continuem a se divertir em cena, seja qual for o número de pagantes na platéia, só as carismáticas caracterizações que se sucedem em freak show não bastam para manter o interesse pelo tema, agora que a convicção da impunidade condena a classe política em bloco, em meio ao tédio conformista.
Ninguém tem mais ânimo para se indignar, os risos se fazem amarelos e a insolência se dilui. É o risco da proposta: sendo quase uma revista do ano, por mais que embasada em importante pesquisa histórica, “Chalaça” teria que atualizar suas referências ao diário circo político. Mas não dá mais para rir disso. Qual a próxima aventura, commediens? 
Três estrelas     

Escrito por Sérgio às 19h12
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Histórico