Na Moita


12/02/2007


DIREÇÃO INVENTIVA OFUSCA DEFICIÊNCIAS DE INTERPRETAÇÃO EM INOCÊNCIA

“Inocência” é a peça que aproximou o diretor Rodolfo Vázquez da dramaturga alemã Dea Loher e seu universo lírico e pungente, de vidas fragmentadas pela solidão urbana, com uma sintaxe ágil que desconstrói pequenas histórias banais até a metafísica. Atraída por sua vez pelo peculiar universo da Praça Roosevelt, que Companhia Os Satyros de Vázquez transformou  em um pólo cultural sem descaracterizar seu lado maldito, Loher escreveu “A Vida na Praça Roosevelt”. Uma encenação alemã divulgou a praça pelo mundo, e quando os Satyros aceitaram o desafio de cantar a própria aldeia, fizeram da sua versão do texto a sua obra prima.
Curiosamente, ao realizar agora o projeto inicial de encenar “Inocência”, o grupo parece sofrer um retrocesso. O texto, é claro, oferece desafios maiores: refere-se a um cotidiano essencialmente alemão, no qual trabalhadores estrangeiros vivem com o medo da deportação e uma mãe castradora se ampara no orgulho de ter sido comunista. Apesar da encenação brasileira de “A Vida...” não ter sido um retrato naturalista do mundo cão paulistano, era um trunfo importante redimensionar pelo lirismo uma realidade demasiadamente crua que esperava do lado de fora do teatro, e que o público conhecia bem.
Agora, mais distanciada dos problemas abordados em “Inocência”, a encenação tem que se apoiar mais na estética do espetáculo, e o faz muito bem. Inventivo, Vázquez multiplica soluções inovadoras, com marcas minimalistas e precisas, que as projeções arquitetadas por Lenise Pinheiro tornam inesquecíveis. Um pôr de sol no mar cabe em um guarda chuva aberto, por exemplo, e o modesto recurso de um retroprojetor se multiplica em efeitos de tirar o fôlego.
“Inocência”, no entanto, figura como um bolo decorado demais, o que acaba mascarando o gosto da massa. Quando o espetáculo depende exclusivamente da interpretação dos atores, como no caso da personagem da filósofa que cita trechos de seu livro chamado “A Desconfiabilidade do Mundo”, em princípio o mote da peça, o fio da meada se perde. Silvanah Santos tem uma dicção clara e comedida, mas não parece compartilhar do sentido do que diz.
Ivan Cabral, como o imigrante Fadul, retoma de certa forma seu papel de Kaspar Hauser, com uma delicadeza de Pierrô. Merece o endosso de uma platéia cativa, o que o leva às vezes a uma perigosa auto indulgência. Com menos responsabilidade, Fabiano Machado acaba sendo mais eficiente com seu simpático Elísio, assim como as duas mães da trama, representadas com carisma, têm atenuada a crueldade com a qual são expostas no texto.
A eficiência da encenação em alinhavar achados poéticos faz com que se perca de vista a pungência do que se diz. Confiando demais no que já sabem, escamoteando as imaturidades de interpretação, Os Satyros podem estar encalhando nesse conforto.
Três estrelas

Escrito por Sérgio às 11h54
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