Na Moita


22/02/2007


SOBRE SEXOS E ANJOS

Ela atravessou o restaurante lotado olhando para baixo, e era linda como um anjo. Por um instante me perguntei porque não compartilhava o horizontal, onde tantos olhos ávidos a fitavam, ainda mais em uma terça de carnaval. Mais não: mantinha os olhos no chão com um sorriso embaraçado, as costas e os ombros acompanhando o arco para baixo, em provação de cansaço, mas um cansaço feliz. A resposta era simples, como em todo enigma profundo: aos seus pés, invisível para mim, uma criança andava, a sua criança.

A epifania, como toda felicidade, ecoa e se desdobra, e me veio uma outra resposta, uma que deveria ter dado dias atrás, em uma aula sobre mitologia grega. Por que, me perguntou uma aluna, os deuses gregos tem todos cargos fascinantes, deus do Céu, do Tempo, do Teatro, e as deusas em geral são deusas-mãe, da agricultura? Por que associar sempre a mulher à terra, ao embaixo, ao alimentar, ao inferior? Dei as respostas de praxe: a fertilidade, o desejo, a riqueza do subterrâneo, a curnocópia. Nada funcionou. Na minha aula, nesse dia, a civilização grega foi descartada por machismo, sem que eu conseguisse defendê-la.

Uma melhor resposta seria: porque as mulheres passam boa parte do tempo olhando para baixo, para cuidar dos filhos. Aos homens cabe manter a cabeça ereta, defendendo o seu território de outros olhares, e fitarem o alto, desejando posições mais elevadas, o Olimpo. As mulheres são guardiãs do chão, do cotidiano telúrico.

No restaurante, o marido surgiu pouco depois, atrás da moça: ela ergueu a criança e a entregou em seus braços, para o plano social, no qual finalmente eu a vi. Um casal feliz. Não afirmo aqui que uma mulher não possa ser feliz nos padrões masculinos, endurecendo a voz em ordens, intimidando com tailleurs austeros, mas a imagem da Pallas Atena em armadura sempre me pareceu um simulacro, uma piada paternalista masculina, que me perdoem as amazonas.

Para valorizar a mulher, não basta alçá-la ao Olimpo dos homens. Para valorizar a mulher (e falo aqui não da pessoa física consumidora e eleitora, senhora dona de casa colega de trabalho, mas da função feminina que se agita em cada um) é preciso se revalorizar o chão. O chão não some porque não se olha mais para ele. Porque, é preciso lembrar, mesmo depois de crescer os homens voltam a conhecer o chão, beijam a lona para o escárnio dos outros, os que não são perdedores. Livres da couraça de não poderem chorar, o que fazem os soldados deitados no campo de batalha? Chamam pela mãe. Outros soldados passam sem olhar para baixo, para salvar a própria pele. Resgatados por milagre, não raro os sobreviventes terão tristes e ridículas histórias para contar, envolvendo sempre uma figura feminina: madonas, elfos, santos, anjos. A mãe que ouviu o choro do filho e o tirou do chão.

Um homem de verdade no entanto não pode se rebaixar. Quem é homem de moral não fica não chão, nem quer que mulher venha lhe dar a mão. E no entanto, o homem frágil, ávido, apaixonado, é o poeta em busca da musa, aquele que tanto se prestigia: Romeu e Cyrano olhando para cima, para a princesa no terraço esperando pelo resgate do seu desejo – e nessa hora a mulher em cima do seu pedestal surge cruel, indiferente, inatingível. Aparentemente as posições se inverteram: a mulher por cima, o homem por baixo. Mas não se iluda: a mulher continua olhando para baixo, e o homem para cima. Ou seja, na particular geometria do desejo, o maior desejo da mulher é ser desejada, quando pode controlar o desejo do homem. Até ser pega.

Pegar uma mulher é uma façanha de moleque com estilingue, se exibindo para os outros. Em breve a inatingível vai esfregar o chão da sua casa. Vai perder o horizonte, para olhar os filhos. Como é difícil olhar uma mulher no rosto, sem que esteja alta demais, ou baixa demais.

Caras feministas, não reivindiquem demais o mundo masculino, é um mundo ridículo. Não merece essa propaganda toda. Como diz a Nora de Ibsen, na primeira relação discutida da história do teatro: nenhum homem abriria mão de sua honra por uma mulher, e as mulheres fazem isso todos os dias pelos seus homens. Saí do restaurante ávido por um modelo masculino que me oxigenasse um pouco. E fui para casa ver As Asas do Desejo de Win Wenders.

Escrito por Sérgio às 15h39
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19/02/2007


CARTAS AO FUTURO RESGATA RAUL POMPÉIA

 

Luís André do Prado é um pesquisador imprescindível. Depois de ter sintetizado a história do teatro brasileiro com “Cacilda Becker, Fúria Santa”, interessou-se por Raul Pompéia, que já tinha merecido uma biografia de Camil Capaz. Pompéia, muito mais que autor de um romance só, “O Ateneu”, em ambas pesquisas surge como um polemista intransigente, que denuncia a hipocrisia de sua época sem a prudência de Machado de Assis de se infiltrar na elite.

Assinando às vezes “um moço do povo”, abolicionista e republicano, aderiu ao militarismo de Floriano Peixoto contrariando seus amigos intelectuais, já incomodados com o homossexualismo descrito sem disfarces em seu romance. Ao invés de combater seus argumentos, Olavo Bilac o ridiculariza em suposições infames e pessoais, que infalivelmente depõem contra que as profere: em seu panfleto abjeto, Pompéia “se masturba e gosta de, altas horas da noite, numa cama fresca, à meia-luz de veilleuse mortiça, recordar, amoroso e sensual, todas as beldades que viu durante o seu dia”. 

Tal agressão rendeu um patético duelo sem derramamento de sangue, e daí Bilac segue para a glória e Pompéia para a depressão e suicídio, não sem antes rever publicamente sua admiração pelo Marechal Floriano, no pior momento: discursando em seu enterro.

E é assim, mais kamikase que suicida, que Pompéia surge na Casa das Rosas, em um monólogo baseado nas pesquisas de Prado. O lugar não poderia ser mais indicado. Preservando não só um patrimônio público mas todos os valores culturais do Século 19, cada quarto dessa casa abriga um projeto desafiador.

O que não quer dizer, infelizmente, que Cartas ao Futuro é um espetáculo bem sucedido. Falta cancha teatral ao texto de Prado, e o didatismo de biografia, por mais instigante que seja, acaba tolhendo a tensão dramática. Helder Mariani, embora pouco conhecido, não é um ator iniciante, e soube se cercar com uma boa equipe, como o diretor Eduardo Coutinho. Segue assim com paixão uma minuciosa partitura de entonações e gestos, mas lhe falta sutileza e precisão.

Nos últimos momentos de vida, redigindo uma nota de suicídio como uma “carta ao futuro”, Pompéia relembra momentos difíceis e textos polêmicos encarnando cada personagem referido, com um escárnio de caricatura. Nesse labirinto, com excesso de energia, Mariani em geral é ilustrativo: evoca tristemente pessoas tristes e perversamente os perversos, na inflamação retórica do discurso. A caricatura e o discurso sem dúvida são algumas das facetas mais brilhantes do biografado, mas uma contenção maior na interpretação e um menor didatismo no espetáculo iriam servir melhor essa causa apaixonante que é a reabilitação de Raul Pompéia.

Duas estrelas

Escrito por Sérgio às 14h46
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E agora, se nenhum outro médico quiser fazer meu diagnóstico, vamos mudar de assunto.

Escrito por Sérgio às 14h46
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Guzik tem a palavra final.

Polêmica

No final das contas, a crítica do Sérgio Sálvia Coelho a "Inocência" acabou provocando uma imensa polêmica. Muita gente defendeu a produção dos Satyros, muita gente atacou, teve povo que desqualificou o trabalho do Ivam, teve gente que o botou no céu. Entrei agora no blog dele, http://namoita.zip.net. Eram 44 mensagens. Que o Sérgio respondeu educada, paciente, lucidamente. Acho Sérgio um crítico competente, não acredito nessa besteira de que crítica boa era a do Sábato, a minha. O que os críticos não têm mais é espaço. Reagi aqui à crítica dele porque a achei confusa e com argumentos pouco desenvolvidos, o que ele poderia ter feito melhor, se tivesse mais centímetros de página para escrever. A polêmica é muito interessante. Muito agressiva, também. Não deve ter sido agradável ao Sérgio nem fácil manter esse equilíbrio. Aliás, aqui pra nós, considero as respostas equilibradas, inteligentes e até bem humoradas que ele deu aos que o atacaram e aos que o defenderam muito muito melhores que a crítica que causou esse movimento todo. Só queria fazer uma observação. Em resposta a um comentário do Contrera, essa figura especialíssima, em que meu nome foi citado, Sérgio respondeu comentando que meu trabalho sempre foi uma referência para ele, o que muito me honra, diz que foi vergonhosa a maneira pela qual o Jornal da Tarde me demitiu, o que depõe a meu favor, e conclui: "É pena, realmente, que Guzik tenha perdido a crítica". Sem falsa modéstia, acho que foi a crítica que me perdeu. E creio que foi isso o que Sérgio quis dizer, mas no calor da digitação escreveu o oposto. Senão vejamos: eu não perdi a capacidade que tinha de fazer crítica até 2001, quando fui demitido do JT. Ela me acompanha até hoje. E está tinindo, porque foi acrescida por anos de retorno à prática, o que nos enriquece imensamente. Eu era um crítico de presença marcante no panorama e não estou mais participando dele. Ergo, foi a crítica que me perdeu e não eu que a perdi. Certo? Mas para concluir acho que essa polêmica toda foi muito importante, muito útil. Que bom que a arte e a crítica ainda são capazes de despertar tanta paixão.

Escrito por alberto guzik às 18h34
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(2) Vários Comentários] [envie esta mensagem]

Escrito por Sérgio às 12h46
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