Ela atravessou o restaurante lotado olhando para baixo, e era linda como um anjo. Por um instante me perguntei porque não compartilhava o horizontal, onde tantos olhos ávidos a fitavam, ainda mais em uma terça de carnaval. Mais não: mantinha os olhos no chão com um sorriso embaraçado, as costas e os ombros acompanhando o arco para baixo, em provação de cansaço, mas um cansaço feliz. A resposta era simples, como em todo enigma profundo: aos seus pés, invisível para mim, uma criança andava, a sua criança. A epifania, como toda felicidade, ecoa e se desdobra, e me veio uma outra resposta, uma que deveria ter dado dias atrás, em uma aula sobre mitologia grega. Por que, me perguntou uma aluna, os deuses gregos tem todos cargos fascinantes, deus do Céu, do Tempo, do Teatro, e as deusas em geral são deusas-mãe, da agricultura? Por que associar sempre a mulher à terra, ao embaixo, ao alimentar, ao inferior? Dei as respostas de praxe: a fertilidade, o desejo, a riqueza do subterrâneo, a curnocópia. Nada funcionou. Na minha aula, nesse dia, a civilização grega foi descartada por machismo, sem que eu conseguisse defendê-la. Uma melhor resposta seria: porque as mulheres passam boa parte do tempo olhando para baixo, para cuidar dos filhos. Aos homens cabe manter a cabeça ereta, defendendo o seu território de outros olhares, e fitarem o alto, desejando posições mais elevadas, o Olimpo. As mulheres são guardiãs do chão, do cotidiano telúrico. No restaurante, o marido surgiu pouco depois, atrás da moça: ela ergueu a criança e a entregou em seus braços, para o plano social, no qual finalmente eu a vi. Um casal feliz. Não afirmo aqui que uma mulher não possa ser feliz nos padrões masculinos, endurecendo a voz em ordens, intimidando com tailleurs austeros, mas a imagem da Pallas Atena em armadura sempre me pareceu um simulacro, uma piada paternalista masculina, que me perdoem as amazonas. Para valorizar a mulher, não basta alçá-la ao Olimpo dos homens. Para valorizar a mulher (e falo aqui não da pessoa física consumidora e eleitora, senhora dona de casa colega de trabalho, mas da função feminina que se agita em cada um) é preciso se revalorizar o chão. O chão não some porque não se olha mais para ele. Porque, é preciso lembrar, mesmo depois de crescer os homens voltam a conhecer o chão, beijam a lona para o escárnio dos outros, os que não são perdedores. Livres da couraça de não poderem chorar, o que fazem os soldados deitados no campo de batalha? Chamam pela mãe. Outros soldados passam sem olhar para baixo, para salvar a própria pele. Resgatados por milagre, não raro os sobreviventes terão tristes e ridículas histórias para contar, envolvendo sempre uma figura feminina: madonas, elfos, santos, anjos. A mãe que ouviu o choro do filho e o tirou do chão. Um homem de verdade no entanto não pode se rebaixar. Quem é homem de moral não fica não chão, nem quer que mulher venha lhe dar a mão. E no entanto, o homem frágil, ávido, apaixonado, é o poeta em busca da musa, aquele que tanto se prestigia: Romeu e Cyrano olhando para cima, para a princesa no terraço esperando pelo resgate do seu desejo – e nessa hora a mulher em cima do seu pedestal surge cruel, indiferente, inatingível. Aparentemente as posições se inverteram: a mulher por cima, o homem por baixo. Mas não se iluda: a mulher continua olhando para baixo, e o homem para cima. Ou seja, na particular geometria do desejo, o maior desejo da mulher é ser desejada, quando pode controlar o desejo do homem. Até ser pega. Pegar uma mulher é uma façanha de moleque com estilingue, se exibindo para os outros. Em breve a inatingível vai esfregar o chão da sua casa. Vai perder o horizonte, para olhar os filhos. Como é difícil olhar uma mulher no rosto, sem que esteja alta demais, ou baixa demais. Caras feministas, não reivindiquem demais o mundo masculino, é um mundo ridículo. Não merece essa propaganda toda. Como diz a Nora de Ibsen, na primeira relação discutida da história do teatro: nenhum homem abriria mão de sua honra por uma mulher, e as mulheres fazem isso todos os dias pelos seus homens. Saí do restaurante ávido por um modelo masculino que me oxigenasse um pouco. E fui para casa ver As Asas do Desejo de Win Wenders.

Escrito por alberto guzik às 18h34
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