MONTAGEM EXPÕE O RACISMO IMPLÍCITO BRASILEIRO
Tendo estreado discretamente no ano passado, Os Crimes do Preto Amaral vem ganhando uma pertinência cada vez maior diante dos últimos noticiários. Na trama, um cadáver de criança é descoberto; logo, José Augusto do Amaral, negro, é apresentado como o assassino. Alimentando o terror e o deleite da população, a mídia multiplica detalhes escabrosos, enquanto que intelectuais abandonam qualquer ética para se apresentarem como porta vozes da vingança sangrenta contra o perturbador da boa consciência branca. Não importa que vítimas continuem aparecendo depois da sua prisão: o preto Amaral encarna o mal a ser eliminado. Por trás de toda exortação pela pena de morte, há sempre o cheiro nauseabundo da eugenia.
O grande mérito da Cia Pessoal do Faroeste, nessa sua sétima montagem, é o de partir de fatos reais de 1927 para extrair deles uma essência quase arquetípica, em uma síntese de teatro denúncia e teatro experimental. O diretor e dramaturgo Paulo Faria partiu da tese de doutorado de Paulo Fernandes de Sousa Campos, que expõe a condenação sem provas de Amaral, ainda apontado porém como o ‘primeiro serial killer brasileiro’.
Na peça, o Doutor Apolo fala abertamente o que hoje se tem vergonha de assumir, mas por isso mesmo passa como um bom senso implícito: por ser negro, Amaral teria tendências naturais para o assassinato. Ao encarnar o personagem, Enio Gonçalves defende essas teorias eugênicas sem cair nunca em uma caricatura fácil, se arriscando corajosamente a provocar um endosso em parte da platéia. Em contraponto, sua filha Eurídice, uma advogada (licença poética para um fato impossível na época) defende a inocência de Amaral, representado com uma dignidade inesquecível por Adão Filho, que em 25 anos de carreira merece ser consagrado neste papel.
No processo de montagem, contatos com a população carcerária e oficinas com a comunidade em geral garantiram, como é costume na companhia, um pé fincado solidamente no social. No entanto, a trama se prende mais nos dilemas de consciência da elite branca. Como nas lâmpadas multiplicadas no cenário que produziriam uma luz insuportável se acesas por mais de um segundo, ao invés da denúncia aberta Faria preferiu optar pela alegoria do Mito de Orfeu, presente no nome dos personagens e nas alusões da trilha ao “Orfeu do Carnaval”. Assim, uma narrativa fragmentada parece situar a ação na mente do jornalista sensacionalista Himeneu, o cenário caleidoscópico estabelece como no “Vestido de Noiva” de Ziembinski planos de memória, devaneio e realidade, e atores saltam de um personagem para outro, multiplicando sotaques e posturas.
O virtuosismo assim exigido às vezes chega à afetação: não seriam precisos tantos recursos para o importante recado da companhia. Mas o que importa mesmo é que essa sede Luz do Faroeste, quase escondida em um modesto bairro do Centro, traz luz a um túnel que parece não ter fim: o racismo institucional brasileiro.
Três estrelas


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