Na Moita


31/03/2007


FESTIVAL DÁ VISIBILIDADE A PESQUISA TEATRAL

  Em meio à profusão de propostas do Festival de Curitiba, duas se destacam, ilustrando o que de melhor se espera daquele que se apresenta como "o maior evento das artes cênicas brasileiras". Antes de tudo, por atrair grupos do Brasil inteiro, aqui se espera encontrar notícias de grupos "fora do eixo" que dêem provas de maturidade e competência em contar sua cidade para o mundo. Neste quesito, este ano se destacou o Coletivo Angu de Teatro, de Recife, com o espetáculo "Angu de Sangue".

Alinhavo de contos de Marcelino Freire, transformados em dez monólogos interligados por recursos diversos um pouco a esmo – cantos, projeção de vídeo, teatro de animação – o espetáculo atinge um resultado marcante por várias razões. Primeiro, o texto de Freire tem um humor certeiro e cruel, que expõe a intimidade de Recife como um espelho do país: uma miséria que se insurge orgulhosa, quase triunfante, contra uma ambígua classe média. O diretor Marcondes Lima soube dar uma uniformidade ao elenco, sem espaços para estrelismos, dando assim solidez ao grupo, no qual no entanto se destaca o grande carisma de Gheuza Sena.

Tateante às vezes, há no espetáculo cenas antológicas como o estupro de uma criança narrado através de uma manipulação de boneco, com grande força e delicadeza. Assim, com a inventividade da encenação amenizando a dor do contato com o real, e o humor do texto afiado como um bisturi, a pústula da miséria irrompe como uma epifania.

Em outro quesito, o Festival possibilita que atores que estudam uma linha de pesquisa com paciência e abnegação consigam um momento de visibilidade. É o caso de Thadeu Peronne, ator premiado em Curitiba que foi se lapidando no teatro de rua, na commedia dell’arte e no CPT de Antunes Filho. Em "Os Bobos de Shakespeare", aproveita um texto bastante simples, quase uma antologia de frases, para propor uma reatualização da ancestral técnica do bobo – um fascinante subuniverso da obra shakespeareana, entre clown, mais elaborado, e o bufão, mais cruel.

Logo no início, mostra que domina a técnica do gromelot, língua imaginária, espécie de retórica abstrata que prepara a platéia para os floreios do texto. Em seguida, busca a forma mais adequada para o conteúdo de cada citação, indo do arquétipo do coringa do baralho até os bobos contemporâneos. Entre eles, faz uma rápida e respeitosa menção à figura da dragqueen, em um personagem feito sem deboche fácil, mas que acaba ‘vazando’ para as outras caracterizações. Com uma direção limpa, embora um pouco ingênua, e maquiagem premiada, é um espetáculo que merece atenção, pela seriedade da pesquisa.

 

Escrito por Sérgio às 12h20
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26/03/2007


GERALD THOMAS RETOMA O ESSENCIAL EM RAINHA MENTIRA

Em uma das gravuras dos "Desastres da Guerra" de Goya, sobre um fundo obscuro de cadáveres ou mascarados, um corpo em decomposição ainda segura uma pena. Com ela, escreveu seu bilhete para a posteridade: "nada".

Desde então, passados holocaustos e atentados terroristas, o desespero diante da falta de sentido do mundo ecoa por obras primas, do "grito" de Munch aos clowns de Beckett. Nestes dias, no Rio de Janeiro, pode ser encontrado na peça "Rainha Mentira" de Gerald Thomas.

Um humor macabro sempre esteve presente nas peças de Thomas, desde Eletra Com Creta. Porém, quando pode contar com atores carismáticos como Fernanda Torres ou Marco Nanini, diluiu sua angústia em uma triangulação aberta com a platéia, ganhando um público mais amplo, mas perdendo um pouco a essência, a ‘secura’ de sua ópera de imagens arquetípicas, na qual referênciais pessoais tornam-se um pesadelo coletivo.

Desta vez, porém, a morte de sua mãe, abrindo uma caixa preta de memórias dolorosas, foi o ponto de partida para o diretor-dramaturgo retomar como há muito tempo não se via um teatro sem concessões, sem piscadas para a platéia, sem rede de proteção. Um teatro de imagens desconexas, com personagens como que vindos do limbo da imaginação do autor, antes de estarem totalmente definidos; um teatro antes do teatro, feito de memórias uterinas ou suposições do pós-morte, que se entende pela emoção.

O espetáculo no diminuto espaço do Oi Futuro começa com "Terra em Trânsito", a melhor das quatro peças apresentadas aqui em São Paulo, no ano passado. Nela, Fabiana Gugli mostra toda a sua habilidade de malabarista do verborrágico fluxo de referências de Thomas, com o hilário contraponto de um ganso, agora feito por Pancho Cappeletti, com muito sabor.

No entanto, tudo isso soa apenas como um aperitivo para depois do intervalo, com essa "Queen Liar" da qual tão pouco se esperava. Aqueles que vieram para rir ainda se prendem no início a alguns cartuns non-sense, como Pancho, bombeiro em pleno incêndio, alucinando com um palhaço, feito com dignidade por Fábio Pinheiro - e que outro pesadelo podem ter os que convivem cotidianamente com o horror? Ainda se tenta romper a solenidade da ficção com a metalinguagem, quando Anna Américo irrompe em cena como uma camareira tentando por ordem no espetáculo; sem deboche, porém.

Mas pouco a pouco, guiado com serenidade e firmeza pela trilha e luz, o público é arrastado para o fundo, tocando a ferida do horror em seu estado puro, além do sofrimento, no qual o 11 de Setembro novaiorquino é apenas uma etapa de uma destruição lenta do sentido da vida. Falsas memórias, fragmentos de dados sobre um passado para sempre perdido, culminam em uma cena de morte com uma densidade que raramente se viu em um palco, nacional ou não, em sua simplicidade inesquecível.

"Rainha Mentira" é uma peça para se esquecer o "polêmico" Gerald Thomas, quer você simpatize com ele ou não, e reconsiderar o que você já sabe sobre ele. Anos atrás, em "Unglauber", um garçom trazia na bandeja um braço decepado, que segurava um bilhete no qual o autor daria seu recado ao mundo. Nada estava escrito nele. Desta vez, também saindo de dentro de um corpo ferido, o bilhete deixa apenas ecoar rezas, de várias culturas, sem esperança de solução. No sarcástico palco de Thomas, ecoa o goyesco grito do nada.

 

Escrito por Sérgio às 12h59
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