Na Moita


06/04/2007


GRUPO ELEVADOR PASSA DO PONTO EM MONTAGEM DE TRANSIÇÃO

"Ponto Zero" é uma montagem sobre a juventude, para a juventude, por um grupo bastante jovem. Curiosamente, soa como uma despedida dessa fase.

Dentro de uma mostra retrospectiva - privilégio que o Grupo Elevador de Teatro Panorâmico já merece, após 7 anos de atividades - essa estréia se mantém coerente com a linha de pesquisa do grupo. Como em "Amor de Improviso", presente na mostra, o processo de criação se mantém visível no espetáculo, embora de forma menos radical; mas, dessa vez, a dramaturgia é mais ambiciosa.

Grabriel Miziara, ator e dramaturgista, já havia proposto junto ao diretor Marcello Lazzaratto uma colcha de retalhos no seu solo "Loucura", também encontrável na retrospectiva. Agora, com um recorte em princípio cronológico de textos, a proposta toma ares quase de painel social.

Pequenas cenas emblématicas de cada década, tiradas de peças de teatro, filmes e romances (de Salinger e Kerouac, para a década de 60, até Lolita Pille, desconfortavelmente representando a última geração) compõem um painel coerente e fecundo, que ilustra quase pedagogicamente o progressivo desamparo ideológico e existencial das sucessivas novas gerações. O engajamento político pinçado do Filme "La Chinoise" de Godard dá lugar a um niilismo egocêntrico e superficial.

O elenco se desdobra em vários personages, também marca do grupo, e tem uma boa harmonia, graças ao método de Lazzaratto, que permite cenas em que todos falam ao mesmo tempo sem perder a passada de foco vertiginosa. Essa façanha do "campo de visão", no entanto, não soluciona a imaturidade ainda presente na composição de cada personagem.

Para fugir ao esquematismo excessivo, e sobretudo a uma impressão de se estar condenando a última geração em comparação aos míticos revolucionários de 68, na segunda metade do espetáculo as cartas são misturadas, como se a adrenalina adolescente tomasse conta da narração. O belo cenário de Silvana Marcondes, um Mondrian em preto e branco, se colore com grafitis; todas as épocas se misturam. Ousado, mas, estendendo desnecessariamente o espetáculo, o artifício acaba soando como uma fuga pela tangente dos desafios mais adultos de um espetáculo mais convencional.

Vindo de uma tuma privilegiada do Teatro-Escola Célia Helena, o grupo, 7 anos depois, ainda soa como um grupo de escola, com tudo o que isso tem de bom e menos bom. É chegada a hora de um salto de qualidade, e o Elevador possui já todos os ingredientes para isso.

Escrito por Sérgio às 12h39
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04/04/2007


O TEATRO ALTERNATIVO SOBREVIVE NA CLANDESTINIDADE

São casas simples, com cadeiras quase na calçada, e na fachada escrito em cima que é um teatro. Ou espaços reaproveitados de teatros maiores, aparentemente inviáveis, porões, corredores laterais, salas de ensaio. No entanto, o teatro alternativo paulistano viça como flores de estrada.

Do que vive esse povo? Alguns - não todos - contam com leis de incentivo de nomes otimistas, como "Fomento" ou "Vai", duramente conquistadas pela mobilização da categoria, mas que em geral garantem subsídio apenas para manter o espaço, com contrapartidas sociais rigorosas. São responsáveis por formar uma platéia nova e fiel, ávida por cultura, mas não podem contar com lucro vindo da bilheteria, em torno de 50 lugares a preços populares, mesmo com o orgulho da casa estar sempre lotada.

Patrocínio privado, sem contar parentes e amigos, apenas dos velhos aliados restaurantes, como o Planeta’s e Luna di Capri - fora isso, há falta de visão no capital privado, para quem uma irrisória política cultural pública empurrou o desafio de proporcionar o novo, via lei Rouanet. Mas os gerentes de marketing só conhecem os atores de novelas, e os espetáculos das franquias da Broadway.

E no entanto, a cada vez que uma política cultural consistente dá chance, mesmo que em uma unidade "provisória" do SESC, ou no circuito mambembe que pouco mudou desde Artur Azevedo, espetáculos extraordinários acontecem, que não raro se consagram no exterior. E mesmo depois desta façanha, quem passa a bancar Gerald Thomas, Antônio Araújo, Mário Bortolotto?

Na mão inversa, é por essas vias paralelas que chega o que há de novo e relevante lá de fora. Desde dia 17 de março, Fernanda d'Umbra trouxe para o Espaço dos Satyros um texto de Jon Fosse, "Roxo". Ouviu falar? E da "Grande Imprecação Diante dos Muros da Cidade", de Tankred Dorst, em cartaz no Ágora? Estão esperando pela sua curiosidade.

Sem contar a legião anônima de atores recém formados pelas escolas que tiveram o zêlo de desmistificar o falso brilho da TV, e que agora está na rua, com os braços cheios de sonhos, trabalhando de graça nas bilheterias da praça Roosevelt, em troca apenas de se sentir parte do movimento: debaixo da ponte, cantando.

E aí me dá como uma inveja dessa gente, que vai em frente sem nem ter com quem contar. No precário e no provisório, se formam novos atores, diretores, dramaturgos, cenógrafos, iluminadores. Ganhassem eles condições dignas, um teatro de quinhentos lugares, ensaios pagos, produção suficiente, mudariam de estilo? Não: irradiariam o alternativo para um público cada vez maior, que se daria conta que, quase na clandestinidade, um extraordinário teatro é feito todos os dias em São Paulo.

Escrito por Sérgio às 11h10
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