AGORA PREENCHE A FUNÇÃO DE TANKRED DORST "O Teatro irá conseguir sempre preencher-se com vida, desde que queiramos mostrar aos outros o que somos e não somos ou o que queremos ser." A afirmação de Tankred Dörst define bem o seu próprio teatro: são fábulas deslocadas no tempo e no espaço, possibilitando ao ator um exercíco de reflexão junto a platéia, ao mesmo tempo política e existencial. Em "A Grande Imprecação diante dos Muros da Cidade" uma mulher vem diante das muralhas do palácio do Imperador exigir que este lhe devolva o marido, convocado para a guerra. Por diversão, os guardas lhe propõem um desafio: se conseguir reconhecer seu marido em meio as outros soldados em armadura, ele estará livre. Ela aponta um, quase ao acaso, e ao tentar provar que é mesmo seu marido constrói com ele todo um passado em comum. Tragicômica e em tempo real, a peça atinge uma síntese atemporal como em Beckett, e exemplar como em Brecht: a utopia da vida conjugal é uma farsa social, uma estratégia de sobrevivência, mais enternecedora do que amarga. O diretor Celso Frateschi soube fazer do texto um espetáculo enxuto e vigoroso, tirando partido das limitações do espaço e da boa qualidade do elenco. O texto, que não se pretende mais do que um exercício de tema e variações, se dirigindo a um público que deve se manter atento, exige antes de tudo uma protagonista vigorosa, que alinhava a história variando seus tons. Renata Zanetha é perfeita para esse papel, que já foi de Beatriz Segall, na montagem de Gianni Ratto em 1972. Minuciosa na construção física, que em detalhes sutis remete ao teatro oriental, e atraindo a simpatia do público com sua insolência feminista, Zanetha atinge aqui um ponto alto em sua carreira, bem amparada pelo contraponto cômico do resto do elenco: Ângelo Brandini, que equilibra seu desejo de liberdade com um patético orgulho masculino, e os bufos soldados Heitor Goldflus e Hermes Baroli. Sylvia Moreira assina um figurino luxuoso, com direito a máscaras orientais, em contraste com uma cenografia minimalista, também de sua autoria. O cenário tanto tira partido naturalisticamente do muro real de um corredor lateral do Ágora como sabe resgatar o simbolismo do texto. Assim, o Imperador é representado por um dourado e gigantesco peixe ornamental, cuja leitura é reforçada por uma reprodução de Bosch na porta do palácio: peixes vomitando peixes, no brutal jogo do mais forte. Mas também, histórias engendrando histórias, em um auto elogio dos contadores de fábulas, no orgulho de artesão incluído na frase que abre esta crítica. E para se encontrar um teatro pleno de vida, o Ágora costuma ser um bom endereço.


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