D`UMBRA EXPÕE A ADOLESCENCIA SEM FLOREIOS Adolescência é algo que a publicidade vende como sendo um paraíso sempre à disposição, e, estranho, os consumidores acreditam. Esquecem que é o momento em que a infância se desmistifica e o mundo adulto surge como pouquíssimo confiável, e viver nesse vão é uma angústia alucinante: a adolescência é uma droga. Para falar dela, é preciso ficar perto da essência, sem sucumbir à idealização nem à farsa. Tarefa para Jon Fosse, o dramaturgo contemporâneo norueguês que de tempos em tempos burla a prudência dos produtores e vem parar como um tijolo nos palcos nacionais. Foi assim há três anos atrás, com "O Nome" no Núcleo Experimental do SESI, dirigido por Denise Weinberg, quando Fernanda d’Umbra se apaixonou pelo estilo do autor, a ponto de produzir do próprio bolso este “Roxo”. Na trama simples, um garoto, entre a morte da avó que o criava e a eminente iniciação sexual com uma ambígua groupie de sua banda em formação, decide desertar de tudo. Nenhuma grande ação a ser empreitada: apenas permanecer no porão escuro, trancado pelos colegas abandonados, em brincadeira cruel. Nenhum abandono sério também: o grupo tocava mal, com cada componente tentando tirar de seu instrumento um balbucio que justificasse o tédio da existência. Uma quase história de amor, uma quase tragédia, agridoce como as lembranças comuns dessa época. Com Fosse, d’Umbra está em casa: os diálogos rarefeitos, com pausas eloqüentes e repetições hipnóticas como nos solos de rock é o pão cotidiano do Cemitério de Automóveis. Casa também do dramaturgo-músico Mário Bortolotto, que fez uma trilha a contra-pêlo para esse espetáculo, só de sobras de takes de gravação, guitarras à deriva, bateria amnésica, pontuando um texto de costuras para servir à precisão cirúrgica da direção. Fernanda d`Umbra mantém o pulso sem tolher a espontaneidade de seu jovem elenco, que enfrenta sem medo uma partitura difícil, revelando a inexperiência em algumas falas que soam decoradas, mas já dando provas de carisma. Aliado importantíssimo, Celso Melez faz uma luz sofisticada com recursos limitados, criando um clima mágico e tenebroso, como se a vida fosse de sombra. Sem floreios, mas com grande fé no taco, “Roxo” é imperdível. Desses 50 minutos compartilhados em um porão gelado, muito poderá surgir.


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