Na Moita


21/04/2007


D`UMBRA EXPÕE A ADOLESCENCIA SEM FLOREIOS

Adolescência é algo que a publicidade vende como sendo um paraíso sempre à disposição, e, estranho, os consumidores acreditam. Esquecem que é o momento em que a infância se desmistifica e o mundo adulto surge como pouquíssimo confiável, e viver nesse vão é uma angústia alucinante: a adolescência é uma droga.

Para falar dela, é preciso ficar perto da essência, sem sucumbir à idealização nem à farsa. Tarefa para Jon Fosse, o dramaturgo contemporâneo norueguês que de tempos em tempos burla a prudência dos produtores e vem parar como um tijolo nos palcos nacionais. Foi assim há três anos atrás, com "O Nome" no Núcleo Experimental do SESI, dirigido por Denise Weinberg, quando Fernanda d’Umbra se apaixonou pelo estilo do autor, a ponto de produzir do próprio bolso este “Roxo”.

Na trama simples, um garoto, entre a morte da avó que o criava e a eminente iniciação sexual com uma ambígua groupie de sua banda em formação, decide desertar de tudo. Nenhuma grande ação a ser empreitada: apenas permanecer no porão escuro, trancado pelos colegas abandonados, em brincadeira cruel. Nenhum abandono sério também: o grupo tocava mal, com cada componente tentando tirar de seu instrumento um balbucio que justificasse o tédio da existência. Uma quase história de amor, uma quase tragédia, agridoce como as lembranças comuns dessa época.

 Com Fosse, d’Umbra está em casa: os diálogos rarefeitos, com pausas eloqüentes e repetições hipnóticas como nos solos de rock é o pão cotidiano do Cemitério de Automóveis. Casa também do dramaturgo-músico Mário Bortolotto, que fez uma trilha a contra-pêlo para esse espetáculo, só de sobras de takes de gravação, guitarras à deriva, bateria amnésica, pontuando um texto de costuras para servir à precisão cirúrgica da direção.

Fernanda d`Umbra mantém o pulso sem tolher a espontaneidade de seu jovem elenco, que enfrenta sem medo uma partitura difícil, revelando a inexperiência em algumas falas que soam decoradas, mas já dando provas de carisma. Aliado importantíssimo, Celso Melez faz uma luz sofisticada com recursos limitados, criando um clima mágico e tenebroso, como se a vida fosse de sombra.

Sem floreios, mas com grande fé no taco, “Roxo” é imperdível. Desses 50 minutos compartilhados em um porão gelado, muito poderá surgir.

 

Escrito por Sérgio às 15h46
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20/04/2007


              Para os Marubo da Amazônia, Vei Vai quer dizer "caminho da morte". Que isso soe tão familiarmente em português como "vem e vai" é prova dessas simultaneidades que tornam nosso trânsito por aqui tão fascinante. Cibele Forjaz, à frente da Cia Livre, traçou um itinerário por cultos indígenas brasileiros, tentando resgatá-los enquanto poética, evitando habilmente o duplo perigo da pajelança para turista e do hermetismo intelectual.

               Depois de mais de um ano estudando junto ao antropólogo Pedro Cesarino canibalismos ancestrais, como fazer valer o projeto de Oswald de Andrade, ou seja, deglutir o outro para que ele se torne eu, operacionar o exótico em um culto pessoal?

                Primeiro, depois de estabelecido o roteiro por improvisos, chamando o onipresente Newton Moreno, que também andava fascinado por canibalismo. A forma final do texto tirou muito proveito do seu humor habitual, que não ofusca um lirismo intenso, estabelecendo assim uma estratégia hábil. O público só se livra progressivamente da cidade que o controla pelas janelas panorâmicas do Sesc Paulista ao encarar o ridículo da falcatrua, o pajé de anúncio de jornal, que tenta conciliar angústias reais.

             Aos poucos, Forjaz vai fazendo a ponte com o arquetípico com sofisticados recursos de encenação. O alter-ego do público - o vaka, que também é um crachá de papel para cada um, em delicada interatividade - se vê espelhado em um outro palco mais fundo, que por sua vez sonha com um outro ainda mais longe, e assim a platéia é conduzida pelas cinco camadas do caminho: enfrentar a morte, deglutir o oposto, deglutir o igual, fazer a travessia e ganhar o céu.

            Pelo caminho, a Cia Livre não nega o ramo poético: pertence aos excelsos da tribo do Oficina, como ostenta no canto visceral e na mistura entre a fábula e a notícia. Assim, o grotesco funda a ética que redime o índio queimado em Brasília, cantos rituais se propagam pelas ondas de rádio que se interferem na Paulista. Em contagioso faz-de-conta, os atores se desdobram com enorme energia, com destaque para a serena liderança de Eduardo Gomes e de Lúcia Romano, que em uma arrepiante cena ritualística, remete à Bárbara do histórico Calabar de Chico Buarque.

              Pelas idas e vindas entre o espetáculo profano e a tragédia sagrada de uma cultura em farrapos, o balanço final é uma síntese surpreendente. Seduz tanto o público médio que descobre no Brasil Central uma Broadway renovada, quanto o especialista zeloso do respeito cultural. Ao final, o cinismo distanciado é trocado com vantagens por um pungente e simples ritual de comunhão, com uma síntese poética inesquecível. "O Caminho dos Mortos", da Cia Livre, é uma façanha histórica do teatro brasileiro.

Escrito por Sérgio às 13h01
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