Na Moita


27/04/2007


MÉTODO GRÖNHOLM INVESTE EM HUMOR RASO

A maior qualidade de “O Método Grönholm” é a mais discreta: dois atores negros fazem papel de altos executivos sem que isso pareça inverossímil para uma platéia de classe média-alta. Como sabem bem tanto Lázaro Ramos, que vem do combativo Olodum, quanto o diretor Luiz Antonio Pilar, criador da Cia de Teatro em Black e Preto, o pleno acesso do ator negro a qualquer papel do repertório é um marco duramente conquistado na história do teatro brasileiro.
É interessante também a iniciativa de dar o mesmo destaque no programa da peça para as participações no teatro, cinema e televisão de seus atores, unificando os méritos. A causa no entanto fica comprometida, quando se constata que a montagem tira toda a sua eficácia por ser pouco mais que um programa de televisão ao vivo.
A impressão não se dá unicamente pelo tom declamado que nivela por baixo a atuação tanto de um ator carismático e cheio de truques na manga como Ramos quanto da menos teatral Taís Araújo -provavelmente uma imposição da má acústica do Teatro das Artes, que por 90 reais oferece o conforto de um avião. Talvez para não distoar dessa estratégia “pizza delivery”, menosprezo com o qual platéias de Shopping estranhamente se conformam, o humor que a direção extrai do texto é o mais superficial possível.
Assim, do personagem de Edmilson Barros ri-se mais dos perdigotos, em piada insistente, tirando-lhe qualquer possibilidade de aprofundar o papel; Ângelo Paes Leme se presta a uma aviltante caricatura de homossexual, feita para instigar o preconceito do protagonista contra essa outra minoria, mas que contagia a platéia sem que se faça clara a propagada crítica ao sistema capitalista.
Não se trata aqui de um preconceito contra o humor, mas uma irritação contra os que lhe negam a possibilidade de ser sutil e reflexivo. Seria fascinante ver o diretor do Big Brother Brasil realmente ironizar o maniqueísmo raso dos métodos de seleção das grandes empresas. Porém, apostando em soluções fáceis e desperdiçando não só o talento de Ramos como o de Wagner Freire, que faz uma luz geral, e de Tunica, solicitada apenas em vinhetas sonoras redundantes, Pilar não se arrisca. E quando o protagonista afirma “Pelo que eles pagam faço qualquer coisa... qualquer um não faria o mesmo?” isso soa muito mais como um endosso do que como uma ironia. Pior: na boca de Lázaro Ramos, soa como uma capitulação.

Escrito por Sérgio às 12h37
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