Na Moita


04/05/2007


CÉSAR BRIE RESGATA O SENTIDO DO TEATRO POLÍTICO

Diante do teatro engajado, e sobretudo dentro de uma mostra de claro viés político, não é incomum uma certa prevenção por parte do público geral. Afinal, o teatro que tem uma verdade a comunicar, seja ela religiosa, didática ou política, costuma por em segundo plano a elaboração estética e não raro se contenta em ser um "mascate de idéias", segundo o escárnio de Strindberg. Acaba convencendo apenas os já convertidos, e a não ser em momentos históricos nos quais a resistência de idéias é imprescindível, envelhece rápido: um teatro de ocasião.

É preciso que se diga imediatamente, então: "Outra Vez Marcelo", do Teatro de los Andes, apresentada no 8 Fit de Belo Horizonte, é muito mais do que isso, é uma inesquecível obra prima. Acompanhar a trajetória do jornalista e escritor boliviano Marcelo Quiroga Santa Cruz (1931-1980), morto em luta política, é prestigiar a política muito além da discussão sobre o preço do gás. Embora ele não tenha o mítico currículo de Guevara, sua clareza de idéias e sua postura inflexível, associados a uma paixão pela vida que o levava a discursos épicos dentro de um parlamento corrupto, o habilitam a ser um importante contra-exemplo nesta era em que política está cada vez mais associada a demagogia e corrupção.

César Brie, que constituiu o texto a partir de improvisos junto à atriz Lizbeth Callejas, escolheu fragmentos da vida deste Marcelo sem idealizá-lo nem escamotear sua vida privada. Afinal, a paixão política legítima é uma paixão pela vida, que inclui o amor pela parceira Cristina, com quem dividiu seu destino. Acompanhamos assim um Don Quixote de classe média, que o tipo nórdico de Brie faz pertencer a qualquer lugar do mundo.

Mas não se prende a um didatismo de linha reta, cronológico: como peças de um quebra cabeça inacabado, a história é contada em sonhos, lembranças, citações de discursos, além das informações históricas. Acompanhando uma precisão de movimentos de expressionismo delicado, os atores criadores vão tecendo uma teia com objetos simples no espaço diminuto, sempre surpreendendo e encantando pelo poesia primeiro.

Cenário, sonoplastia, iluminação, luxuosas com parcos recursos,ajudam a contar a história simples. A mensagem política, vigorosa, não é a mera exaltação de uma ideologia, mas de um princípio ético, que se impõe justamente pela falta de ufanismo, "sin perder la ternura jamás". "Outra Vez Marcelo" faz lembrar para que realmente serve a político, em tempos em que isso é urgente. Gracias, César Brie. (ótimo)

Escrito por Sérgio às 12h35
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03/05/2007


Sábato Magaldi, 80

O crítico de teatro, em geral, é visto como um mal necessário: convidado de cerimônia, pode destruir em poucas horas, reza a lenda, o que às vezes se levou anos para conseguir. No entanto, o registro que deixa, entre a impressão do momento e o registro histórico, como nos relatos de guerra, também depõe muito contra ou a favor de seu autor. Por mais fugaz que seja seu depoimento, um erro no calor da hora o ridicularizará para sempre.

Quando um crítico completa 80 anos em plena produção, mantendo o trânsito do que já viu com o que está sendo feito, o patrimônio é do próprio teatro. Em tempos em que a cultura da fofoca destrói qualquer relevância, ocupando espaços com divulgações superficiais, Sábato Magaldi se mantém acima da feira das vaidades. Não permite que seja remetido a um passado irrevogável a tarefa de pensar, que tanto alavancou o teatro no tempo de Décio de Almeida Prado e Anatol Rosenfeld.

Assim, como o náufrago de Edgar Alan Poe, que no redemoinho do Maelstron é capaz de selecionar o relevante e deduzir as regras que estão sendo usadas, Magaldi lega à posteridade seu olhar certeiro. Em "Teatro Sempre", lançado pela Editora Perspectiva, para citar só um exemplo, ao se referir à "Valsa número 6" de Nelson Rodrigues como "um "Vestido de Noiva" às avessas", faz mais do que esclarecer: levanta a ponta de uma longa discussão sobre estruturas e obsessões rodriguianas.

Assim, seu olhar crítico ao mesmo tempo distanciado e apaixonado, derivando-se da observação da obra já pronta, é capaz de gerar por sua vez novas obras. Se Nelson Rodrigues é cada vez mais o "Shakespeare Brasileiro", pelas constantes releituras do panorama teatral, o mérito inicial é todo de Sábato Magaldi.

Escrito por Sérgio às 19h10
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