CÉSAR BRIE RESGATA O SENTIDO DO TEATRO POLÍTICO Diante do teatro engajado, e sobretudo dentro de uma mostra de claro viés político, não é incomum uma certa prevenção por parte do público geral. Afinal, o teatro que tem uma verdade a comunicar, seja ela religiosa, didática ou política, costuma por em segundo plano a elaboração estética e não raro se contenta em ser um "mascate de idéias", segundo o escárnio de Strindberg. Acaba convencendo apenas os já convertidos, e a não ser em momentos históricos nos quais a resistência de idéias é imprescindível, envelhece rápido: um teatro de ocasião. É preciso que se diga imediatamente, então: "Outra Vez Marcelo", do Teatro de los Andes, apresentada no 8 Fit de Belo Horizonte, é muito mais do que isso, é uma inesquecível obra prima. Acompanhar a trajetória do jornalista e escritor boliviano Marcelo Quiroga Santa Cruz (1931-1980), morto em luta política, é prestigiar a política muito além da discussão sobre o preço do gás. Embora ele não tenha o mítico currículo de Guevara, sua clareza de idéias e sua postura inflexível, associados a uma paixão pela vida que o levava a discursos épicos dentro de um parlamento corrupto, o habilitam a ser um importante contra-exemplo nesta era em que política está cada vez mais associada a demagogia e corrupção. César Brie, que constituiu o texto a partir de improvisos junto à atriz Lizbeth Callejas, escolheu fragmentos da vida deste Marcelo sem idealizá-lo nem escamotear sua vida privada. Afinal, a paixão política legítima é uma paixão pela vida, que inclui o amor pela parceira Cristina, com quem dividiu seu destino. Acompanhamos assim um Don Quixote de classe média, que o tipo nórdico de Brie faz pertencer a qualquer lugar do mundo. Mas não se prende a um didatismo de linha reta, cronológico: como peças de um quebra cabeça inacabado, a história é contada em sonhos, lembranças, citações de discursos, além das informações históricas. Acompanhando uma precisão de movimentos de expressionismo delicado, os atores criadores vão tecendo uma teia com objetos simples no espaço diminuto, sempre surpreendendo e encantando pelo poesia primeiro. Cenário, sonoplastia, iluminação, luxuosas com parcos recursos,ajudam a contar a história simples. A mensagem política, vigorosa, não é a mera exaltação de uma ideologia, mas de um princípio ético, que se impõe justamente pela falta de ufanismo, "sin perder la ternura jamás". "Outra Vez Marcelo" faz lembrar para que realmente serve a político, em tempos em que isso é urgente. Gracias, César Brie. (ótimo)


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