Na Moita


11/05/2007


O HOMEM PROVISÓRIO É UM EXERCÍCIO ARQUETÍPICO

A adaptação de "Grande Sertão Veredas" de Guimarães Rosa é uma espécie de Santo Graal do teatro brasileiro. Por muito tempo, foi um projeto acalentado pelo Centro de Pesquisa Teatral de Antunes Filho, que acabou preferindo adaptar o conto "A Hora e a Vez de Augusto Matraga" do mesmo autor. Até hoje, 50 anos após seu lançamento, a saga de Riobaldo e Diadorim, romance de formação que faz a ponte entre tradições sertanejas e um experimentalismo de linguagem joyciano, nunca logrou caber no palco: só a trama soaria rasa, só o experimentalismo ficaria hermético.

Neste segundo exercício da Casa Laboratório, Cacá Carvalho de certa forma sai pela tangente ao devolver a trama a sua origem popular. Durante um processo aprofundado, segundo os princípios do teatro antropológico da escola de Pontedera, que incluiu uma excursão ao sertão do Carari, Carvalho contou a história a seu Geraldo Alencar, discípulo e herdeiro de Patativa do Assaré, que a pôs em cordel. São esses versos que são apresentados em cena, e não a prosa de Rosa.

Nesse filtro, muito se perde: só quem leu o romance vai perceber a importância de Hermógenes, o traidor, contra quem o jagunço Riobaldo lidera a guerra, e por isso o pacto com o demônio, centro simbólico da narrativa, surge apenas como uma bela mas hermética coreografia. A ênfase é dada para o romance com Diadorim, esta sim presente por inteiro.

Difícil destacar um ator nesse espetáculo coletivo, no qual a energia é grande, o gestual é preciso e a ruptura com o realismo é ousada e bem sedimentada no rigoroso treinamento físico da escola. Aqui e ali, também, se reconhece a marca que Antunes Filho ainda exerce em Carvalho, como nos deslocamentos em grupo e em uma guerra de sapatos que remete a uma antológica cena do "Romeu e Julieta" do CPT.

Figurino e adereços - cada ator carrega a réplica de sua própria cabeça decepada, alusão ao trágico fim do bando de Lampião - a trilha envolvente e um eficiente e delicado cenário todo feito de cortinas transparentes levam o espetáculo a um universo grotesco e onírico.

Como na primeira experiência do grupo, que tinha como mote o Quixote de Cervantes, a base literária é apenas ponto de partida para imagens arquetípicas, que impõem respeito sem convencer inteiramente. Não foi ainda dessa vez que o "Grande Sertão Veredas" encontrou o palco. No mais, a Casa Laboratório está bem armada para uma jornada que se propõe a longo prazo, e da qual este "Homem Provisório" é apenas o segundo passo. (regular)

Escrito por Sérgio às 12h07
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10/05/2007


EM DUAS MONTAGENS, FREIRE FILHO BUSCA O PERDIDO SENTIDO DO MUNDO

 

Bem aventurados aqueles que vivem do prazer de fazer bem feito aquilo que gostam de fazer. Aderbal Freire Filho é um desses privilegiados. Suas encenações têm uma marca clara: arriscam-se na forma, em geral a partir de um texto difícil, mas ancoradas por uma precisão técnica que se irradia por todos os colaboradores. Assim, cenário, trilha, figurino e luz são sofisticados sobretudo porque compartilham o sentido do espetáculo com os atores, que devem sempre se desdobrar alegremente em proezas técnicas. Quando estes não estão à altura do desafio, aliás, o resultado pode ser desastroso – mas não é o caso nas duas encenações em cartaz atualmente na cidade.

“O Púcaro Búlgaro”, no SESC Consolação, é um romance-em-cena puro sangue, ou seja, é mais uma etapa vencida na formação desse gênero novo que leva cada ator a ser narrador de si mesmo no próprio momento em que age, mantendo o texto integral através de um vertiginoso rodízio de personagens. A experiência anterior, “O que Diz Molero”, era mais radical nas suas quatro horas, e deslumbrava pela novidade, mas este romance de bolso é uma consolidação do gênero, acessível a qualquer público.

O que pode parecer preguiça do adaptador exige pelo contrário um faro certeiro para encontrar um texto que funcione nessa forma – e em geral só nessa forma. O humor furioso do romance de Campos de Carvalho se filia ao surrealismo sobretudo pela insolência em confundir as fronteiras do verossímil. O protagonista Hilário fica estarrecido diante de um banal vaso antigo encostado em um museu, pois sua designação técnica (um púcaro) ecoa na palavra que designa sua procedência (búlgaro), e o estranhamento pelas palavras contamina o real: existe mesmo uma “Bulgária”? A expedição em paródia antropológica que se impõe aos personagens da trama, para atestar a existência da Bulgária, remete não só à viagem de Molero mas à patafísica de Jarry, os ready-mades de Duchamp e as performances de Raymond Roussel.

Os atores surfam assim um vertiginoso fluxo verbal chegando ao aeróbico na perfomance de Gillray Coutinho, catalisador de um elenco de nomes igualmente estrambóticos: Augusto Madeira, Ana Barroso, Isio Ghelman e Sávio Moll “não existem”, como se diz quando se quer elogiar alguém por se jogar alegremente no inusitado.

O prazer da forma se forra de uma investigação mais dolorida sobre a solidão em “O Continente Negro”, do chileno Marco Antônio de la Parra. Aqui, os atores igualmente se desdobram em vários personagens, mas a partir de uma atuação mais realista, que se fragmenta e se recombina como em um cubo mágico, o quebra-cabeça ao qual o instigante e ágil cenário de André Cortez parece remeter.

Um professor de desenho apaixonado por sua aluna; uma atriz decadente querendo manter as aparências; um triângulo amoroso entre irmãs: são várias tramas sobrepostas, como novelas zapeadas por um controle remoto alucinado, que se interpenetram e se ecoam, pondo a prova a concentração dos atores.

A experiência em televisão de Yara de Novaes, Débora Fallabela e Ângelo Antonio, longe de limitar sua expressão em cena, é condição para que o espetáculo funcione. Um gestual contido, uma caracterização beirando o clichê é apenas a matéria prima para a desconstrução hiperrealista que o texto exige, como nos quadros de Edward Hopper. É antológico, por exemplo, o modo como Ângelo Antônio alterna tons cômicos e trágicos em uma cena de bebedeira, ou como a lousa da aluna Débora Falabella se expande por todo o cenário sem prejuízo para as cenas que virão depois.

Curiosamente, o título da peça, fazendo menção a um lugar distante no qual se abrigaria o perdido sentido do mundo, ecoa também o tema do “Púcaro Búlgaro”. Com tipos diferentes de humor, pela hilariedade ou pelo sarcasmo amargo, mas com uma mesma qualidade de realização, os dois espetáculos testemunham o constante esforço de se dar um significado à vida, que é próprio do teatro – sobretudo quando esse teatro é feito sob a direção de Aderbal Freire Filho. 

 

Escrito por Sérgio às 18h19
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