O HOMEM PROVISÓRIO É UM EXERCÍCIO ARQUETÍPICO A adaptação de "Grande Sertão Veredas" de Guimarães Rosa é uma espécie de Santo Graal do teatro brasileiro. Por muito tempo, foi um projeto acalentado pelo Centro de Pesquisa Teatral de Antunes Filho, que acabou preferindo adaptar o conto "A Hora e a Vez de Augusto Matraga" do mesmo autor. Até hoje, 50 anos após seu lançamento, a saga de Riobaldo e Diadorim, romance de formação que faz a ponte entre tradições sertanejas e um experimentalismo de linguagem joyciano, nunca logrou caber no palco: só a trama soaria rasa, só o experimentalismo ficaria hermético. Neste segundo exercício da Casa Laboratório, Cacá Carvalho de certa forma sai pela tangente ao devolver a trama a sua origem popular. Durante um processo aprofundado, segundo os princípios do teatro antropológico da escola de Pontedera, que incluiu uma excursão ao sertão do Carari, Carvalho contou a história a seu Geraldo Alencar, discípulo e herdeiro de Patativa do Assaré, que a pôs em cordel. São esses versos que são apresentados em cena, e não a prosa de Rosa. Nesse filtro, muito se perde: só quem leu o romance vai perceber a importância de Hermógenes, o traidor, contra quem o jagunço Riobaldo lidera a guerra, e por isso o pacto com o demônio, centro simbólico da narrativa, surge apenas como uma bela mas hermética coreografia. A ênfase é dada para o romance com Diadorim, esta sim presente por inteiro. Difícil destacar um ator nesse espetáculo coletivo, no qual a energia é grande, o gestual é preciso e a ruptura com o realismo é ousada e bem sedimentada no rigoroso treinamento físico da escola. Aqui e ali, também, se reconhece a marca que Antunes Filho ainda exerce em Carvalho, como nos deslocamentos em grupo e em uma guerra de sapatos que remete a uma antológica cena do "Romeu e Julieta" do CPT. Figurino e adereços - cada ator carrega a réplica de sua própria cabeça decepada, alusão ao trágico fim do bando de Lampião - a trilha envolvente e um eficiente e delicado cenário todo feito de cortinas transparentes levam o espetáculo a um universo grotesco e onírico. Como na primeira experiência do grupo, que tinha como mote o Quixote de Cervantes, a base literária é apenas ponto de partida para imagens arquetípicas, que impõem respeito sem convencer inteiramente. Não foi ainda dessa vez que o "Grande Sertão Veredas" encontrou o palco. No mais, a Casa Laboratório está bem armada para uma jornada que se propõe a longo prazo, e da qual este "Homem Provisório" é apenas o segundo passo. (regular)


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