Na Moita


02/06/2007


Strindberg, em geral, é associado apenas a sua fase realista, na qual o aprofundamento psicológico dos personagens e a preocupação com detalhes materiais o leva, no prefácio de “Senhorita Júlia” a recomendar que os atores engraxem os sapatos, já que a platéia estava cada vez mais perto. Para dar conta dessa nova maneira de interpretar, Antoine na França e Stanislavski na Rússia desenvolveram parâmetros que até hoje são predominantes.

No entanto, e justamente a partir deste “Sonho”, de 1901, Strindberg mergulha de vez no simbolismo: a narrativa se faz por associação livre, e os personagens são arquétipos quase religiosos, figuras de tarô. Dizer que a protagonista Agnes é a filha do deus Indra que vem à terra para observar os homens não é um resumo da trama, é uma informação prévia que pode ou não ser necessária, em um universo no qual admiradores esperam a vida inteira à porta dos teatros e chaveiros são chamados para abrirem portais para o infinito.

Como devem representar os atores no teatro simbolista? Em oposição a Antoine, Lugné-Poe propunha declamações solenes que lhe valeram o apelido de “clérigo sonâmbulo”. Não por acaso, talvez o primeiro espetáculo de teatro contemporâneo tenha sido a versão de Artaud para o Sonho, que considerava a base literária de Strindberg apenas como um estímulo para uma criação plástica em cena. A partir de então, a autoria do espetáculo passava do ator para o encenador.

É nessa tradição que se insere a atual versão de André Guerreiro Lopes. Embora compartilhe o palco com seus atores, Lopes faz valer sua experiência no audiovisual para criar uma encenação que privilegia o impacto plástico. Tem para isso uma equipe impecável, com Lívio Tragtemberg na trilha original, Carlos Ebert na iluminação, e um projeto de cenário de Beto Manieri que remete à desolação dos quadros de De Chirico.

Um espetáculo belo sem dúvida, mas de uma beleza que acaba se tornando um fim em si, um beco sem saída. Djin Sganzerla tem um porte mesmo de anjo; o figurino do poeta, representado por Flávia Pucci, estampado com letras de ouro, é requintado; impressiona a precisão de movimentos de Helena Ignez.

Porém, assim como a extinção da exigência de se contar uma história no Balé Moderno não fez a arte da dança equivaler à da ginástica rítmica, não basta a declamação apaixonada para o teatro simbolista. Não há angústia nesse Sonho, pouco se compartilha com os atores além de sua habilidade de tecer personagens instantâneos e improváveis, e o que acaba prevalecendo são os sapatos bem engraxados, não a direção dos passos.

Formado em Londres, André Guerreiro Lopes tem uma habilidade a demonstrar, e faz desse Sonho o seu portfolio. Sendo sua primeira encenação por aqui, é promissora. Mas mais se espera da próxima vez.

Escrito por Sérgio às 18h02
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